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18/10/2004 - No Mínimo
Boas histórias de amor são tristes

Em "Duas iguais" (Record, R$ 34, 256 págs.), as adolescentes Clara e Ana vivem uma história de amor como outra qualquer – idealizada, triste, profunda e visceral como são as histórias de amor da adolescência. O fato deste romance ser entre duas mulheres é, no livro da jornalista gaúcha Cíntia Moscovich, um detalhe. À primeira vista, o amor homossexual entre as duas meninas é o que diferencia "Duas iguais" de um romance como outro qualquer, destes que relatam tramas de desencontros entre um homem e uma mulher. No entanto, basta ler com mais profundidade para encontrar no vigor da narrativa de Moscovich o relato de um tema universal: a impossibilidade de realização, a dificuldade do ser humano de conhecer e vivenciar os seus desejos. É o que tira de "Duas iguais" qualquer marca de literatura engajada contra o preconceito a homossexuais – a personagem Clara não localiza estes obstáculos apenas na sociedade, nem mesmo na colega de escola que a atormenta com um grito que ecoará nos seus ouvidos por muitos anos: "Qual de vocês é o homem?", mas também na sua dificuldade de reconhecer para si mesma o amor por outra mulher.

Pesquisadores do mecanismo de opressão à homossexualidade poderiam dizer que a auto-repressão de Clara é sintoma da maneira preconceituosa com que a sociedade lida com a questão da escolha sexual. Mas o que a leitura de "Duas iguais" indica é que a identificação do leitor com Clara independente disso. Vai além, e é neste ir além que está a maior qualidade do livro de Moscovich. O ideal amor de juventude que se torna impossível ao enfrentar a realidade do mundo adulto não é um tema exclusivo dos homossexuais. A angústia da vida de Clara, adequada ao que se esperava dela ao invés de fiel aos seus desejos, também não.

Três marcas fazem do livro de Moscovich uma obra-prima: a beleza do texto, a narrativa do duro processo de amadurecimento de Clara, que passa pela morte do pai, a formação profissional de jornalista e por um casamento de conveniência, e a profunda tristeza do amor não realizado. É a qualidade da narrativa sobre essa dor que garante em "Duas iguais" a universalidade que transforma um livro em obra. "Tua perda e a minha. Me vesti de horror e de padecimento, caminhei alucinada para a porta. Ouvi que me seguias: seguiste minhas pegadas, queimavas pelo carpete, a blusa azul como a mortalha da tua recente vivuvez. E o que aconteceu, Aninha, o que aconteceu então? Três as palavras, as palavras da adoração jorravam da tua boca. E, sem medir o depois, com esse som nos nervos, como convencimento de que todo o tempo eu guardava as palavras só para ti, antes de transpor definitivamente o umbral da porta, eu as repeti. Repeti as três palavras. As três palavras, que, como o nome de Deus, ninguém deve pronunciar em vão."

A presença de Deus nesse trecho não é por acaso. Moscovich trata a descoberta do amor e do sexo como o sagrado que se manifesta nos seres humanos, e ao mesmo tempo indica que o trágico está exatamente aí: na incapacidade de Clara de viver este amor sagrado, grande demais para ser humano, humano demais para ser divino. Por onde quer que se leia, "Duas iguais" é uma experiência rara: a de expor ao leitor, numa narrativa vigorosa, sensível e profunda, o quanto são tristes as paixões, independente dos desfechos tristes que venham a ter.

Arquitetura do arco-íris

Foi o lançamento da coletânea de contos de Cíntia Moscovich, "Arquitetura do arco-íris" (R$ 27, 172 págs.) que motivou a editora Record a lançar "Duas iguais", editado pela primeira vez em 1998 pela LP&M. Inéditos, os contos de "Arquitetura do arco-íris" têm em comum com o romance uma narrativa inquietante, capaz de instigar o leitor com as tramas mais banais. Aparece no livro a judia gaúcha criada no bairro do Bonfim, em Porto Alegre, e a jornalista experiente, presente, por exemplo, em "O tempo e a memória", relato de uma jovem repórter que vai entrevistar um velho tradutor da obra de Borges. No jogo entrevistado/entrevistador, Moscovich brinca com a própria profissão, quando diz: "Um jornalista escreve para o esquecimento, enquanto desejaria escrever para a memória e para o tempo." Dessa maldição a autora já se safou.


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