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29/10/2004 - O Globo
Novos contos mostram a arquitetura refinada da obra de Cíntia Moscovich

Mànya Millen

Foi com um romance, o belo “Duas iguais”, lançado em 1998 pela editora gaúcha L&PM, que a escritora Cíntia Moscovich mostrou que sua literatura iria alçar vôos bem mais amplos, bem além das fronteiras do Rio Grande do Sul tão farto e fértil de autores. E é com um livro de contos, narrativa que seduz Cíntia pela “exigência da sofisticação do pensamento, da entrelinha”, que a gaúcha concretiza seu vôo: “Arquitetura do arco-íris”, um denso, terno e lírico apanhado de vozes femininas tecidas em torno de ligações amorosas de diversos naipes, chega ao mercado por uma grande editora, a Record, que endossa nacionalmente o talento da autora.

Apesar da força do mercado literário gaúcho, auto-alimentado por tantos leitores e escritores, Cíntia sabe que ser lançada por uma casa editorial de porte nacional faz diferença.

Sempre somos vistos como iniciantes pelo pessoal do eixo (Rio-São Paulo) — conta ela. — Às vezes culpamos o eixo por nos isolar, mas às vezes fazemos o mea culpa desse isolamento. Claro que quem escreve quer ser mais lido, então minha idéia sempre foi a de tentar ir para uma editora maior, ampliar as fronteiras mesmo.

Romance ganhou prêmio em 1999

O objetivo de Cíntia promete ser cumprido. Além dos contos inéditos de “Arquitetura do arco-íris”, a Record também está relançando “Duas iguais”, que venceu, em 1999, o Prêmio Açorianos de Literatura de narrativa longa. Juntas, as obras, que serão autografadas pela autora na 50 Feira do Livro de Porto Alegre, no próximo sábado, dia 6, evidenciam a carpintaria fina de Cíntia para lidar não apenas com verbos, substantivos, adjetivos e pronomes, mas também com angústias, alegrias, dores, ternura, carinho. Sentimentos.

Em “Arquitetura do arco-íris”, nome poético escolhido não apenas pela metáfora que carrega mas também pela forma que exibe — “arco-íris é o que une o céu à terra, o arco celeste, a ligação de Deus com o homem, não tem matéria, mas é igualmente muito bonito e sou fascinada por cores”, explica Cíntia — esses sentimentos perpassam e alinhavam os contos, todos eles narrados por mulheres de idades distintas.

A escrita de leveza arco-íris de Cíntia materializa em cores fortes e sentimentos idem personagens que vão desde a menina judia — como a autora — do conto que abre o livro, e que descobre cedo o significado das palavras discriminação e ódio, até a senhora que só encontra paz na senilidade e na morte.

— Alguns contos têm um entorno muito familiar, mas não é uma narrativa confessional, são coisas que eu imagino e vão adiante — diz ela, confessando se divertir muito ao escrever na pele de uma criança. — A história da menina aconteceu com minha mãe. Eu sempre tive isso na cabeça como uma agressão muito forte.

Mas Cíntia não gosta de mastigar nada para os leitores. O conto que poderia ser apenas um registro pungente de pesada discriminação também consegue rir de si mesmo. Em outro texto, a delicada história de duas jovens que vão dividir um apartamento insinua o que poderia ser uma história de amor, mas nada evolui em obviedades.

— Eu gosto de revelar algo num momento e esconder em outro, mas eu sei o que estou escondendo — conta a escritora, também jornalista, editora de livros do jornal “Zero Hora” de Porto Alegre. — Minha grande briga com o texto é saber o quanto eu posso mostrar e o quanto eu posso esconder.

Essa luta, diz Cíntia, é o tempero e o desafio que a faz gostar tanto da narrativa curta. Mas há outros desafios que a gaúcha pretende enfrentar ainda, como o de retratar personagens que não transitem apenas na classe média à qual ela pertence.

— O legal é transitar de um universo a outro, não ter só uma voz para escrever — observa.



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