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05/11/2004 - O Globo
Sugestões de leitura

Affonso Romano de Sant'anna



Já havia lido sobre Gêngis Khan, até já havia escrito poema sobre ele, mas a leitura dessa biografia, “Gêngis Khan — A vida do guerreiro que virou mito”, de John Man (Ediouro), me divertiu, me instruiu e me deixou de novo fascinado pelo que há de patético e glorioso na natureza humana. Não é à toa que Gêngis foi considerado, em 1995, pelo “Washington Post”, “o homem mais importante dos últimos mil anos”. Morto em 1227, durante 40 anos governou um império que ia da Rússia às portas da Áustria e, por pouco, não chega a Roma e domina toda a Europa.

É um livro bem escrito. O autor, apaixonado pela lenda do rei-guerreiro, aprendeu mongol e em sua narrativa faz um cruzamento de passado e presente. Lendo com o radar aberto, ali encontrei coisas importantes sobre a relação mito & literatura, escrita & poder, e, por cima de milhões de cadáveres das guerras, até uma metáfora para se explicar o fascínio que certas pessoas hoje sentem diante de certas obras que não significam nada e, no entanto, incitam interpretações fabulosas. Trata-se daquilo que chamaria de “síndrome da marmota” a partir da observação de que “as marmotas são conhecidas pela curiosidade, um traço que sempre permitiu o sucesso dos caçadores de marmota. Qualquer coisa branca as hipnotiza. Acenar um pano branco ou uma pena branca faz com que elas entrem em transe, tornando-as presas fáceis”.

Como não lembrar daqueles críticos que ficam hipnotizados, como marmotas, diante de quadros totalmente brancos, diante do qual têm delírios verbais sublimes?

Quem viveu os míticos anos 60 vai ler com prazer “O silêncio do delator”, de José Nêumanne. Usando a técnica de fragmentos e fazendo falar um narrador já morto, de maneira leve e irônica refaz uma época que outros trataram apenas pateticamente. No meio dessa ficção que se faz hoje cheia de balas, assassinatos, perversões e morbidez, chega a ser um alívio ler esse livro. É como ouvir uma lépida canção de bossa nova depois de um tango pesado.

Lembram-se do filme “Invasões bárbaras”, de Denys Arcand, aliás mencionado no livro? É o que há de mais próximo para lhes passar a idéia do livro de Nêumanne que realizou, de modo original, aquilo que tantos tentaram — “o romance de minha geração”.

Se tem um livro que você pega e não larga é esse “O corpo no limite — Uma viagem aos extremos da resistência humana”, do médico Kenneth Kamler (Ediouro). Primeiro, é bem escrito. Não basta as pessoas dizerem “minha vida daria um romance”. Há que saber escrever essa vida. E foi o que fez Kamler, descrevendo com sensibilidade o que é viver em “situações extremas”, como médico, nas escaladas do Everest, na Floresta Amazônica, no deserto, no fundo do mar ou no espaço sideral, anotando, em pormenores tocantes, o que é a vontade de sobreviver.

Se para alguns o dia-a-dia é uma desafiante travessia, para outros a vida é uma espécie de olimpíada, um testar contínuo de possibilidades. E o doutor Kamler se preparou para isto, pois “quanto maior a montanha, maior o planejamento necessário para escalá-la”. Diz ele: “Essa descoberta é a base deste livro. Vamos fazer uma viagem pelas regiões mais remotas e perigosas do mundo, e pelos corpos e mentes das pessoas que estão nesses lugares (?) Ao longo de todo o trabalho, há reflexões sobre biologia evolucionária, fisiologia e psicologia, que se combinam para dar aos humanos a possibilidade de vencer”.

Interessados em museologia e numa nova definição do papel do museu em nossos tempos, devem ler “A danação do objeto: o museu no ensino de História” — escrito por Francisco Régis Lopes Ramos. Conheci-o há anos, lá no belo e instigante Museu do Ceará, que ele, doutor em História, dirige, e onde criou o Memorial Frei Tito, lembrando o sacerdote sacrificado pela ditadura.

Quem gosta de contos deve ler “Arquitetura do arco-íris”, de Cíntia Moscovich (Record). É uma craque. E a editora Bom Texto publica um instigante e revelador “Tempos de Nassau”, com contos e até mesmo uma peça de teatro sobre os tempos de Nassau no Brasil, feitos por dez autores que passaram pela oficina literária de Ivan Cavalcanti Proença.

Falando de oficina literária e conto, é preciso ler “A poética do conto”, de Charles Kiefer (ed. Nova Ordem), autor que mantém oficinas literárias em Porto Alegre e é prefaciado por Luis Antonio Assis Brasil (que também tem uma oficina de textos há uns 20 anos). Neste ensaio, Kiefer estuda Poe enquanto leitor de Hawthorne, Cortázar como leitor de Poe e, finalmente, Borges como leitor de Poe e Hawthorne.

“O instante da descoberta” (ed. EspaçoBrasileiro), de Tânia Kaufmann, é uma série de bons contos curtos a respeito da solidão e do desencontro entre casais. Tânia é uma das três irmãs Lispector (Clarice, Elisa e Tânia). Discretíssima, retrata, com propriedade, flagrantes de nossa subjetividade.

E quem quiser ler uma primorosa novela, leia “Minha vida” (Nova Alexandria), de Anton Tchekov, e poderá recuperar o tão abalado prazer da leitura.

Peguei “O mapa que mudou o mundo”, de Simon Winchester (Record), e fui descobrindo a excitante vida de William Smith, o cientista que fez, em 1815, o primeiro mapa geológico revelando o que havia nas camadas superpostas de um terreno. Ele desenhou um mapa “do que não podia ser visto”, como fazem os artistas e cientistas realmente criadores. Numa Londres de um milhão e meio de habitantes, com 20 presídios, desenrola-se um drama da luta pelo conhecimento e pelo poder. Todos temos muito que aprender num livro como este.

Leodegário de Azevedo Filho instituiu-se como um curador das obras de Camões. Tem aplicado grande parte de sua vida a estabelecer o que era autêntico ou espúrio na obra do poeta, uma vez que lhe foram atribuídos mais de 700 textos, quando na verdade, em vida, publicou apenas três textos líricos. Com “Sonetos de Luis de Camões” (Francisco Alves) e “Oito ensaios camonianos” (H.P.Comunicação), Leodegário, o curador, vai saneando os equívocos na obra do nosso bardo maior.



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