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27/11/2004 - O Estado de Minas
Inquietante escrita

Narrativas de Cíntia Moscovitch se configuram como pontes que se sustentam em delicado equilíbrio sobre a existência

Lyslei Nascimento
Em Arquitetura do arco-íris, Cíntia Moscovich, uma das mais interessantes escritoras brasileiras contemporâneas, dá seqüência ao percurso literário iniciado com os livros O reino das cebolas, 1996; Duas iguais, 1998; e o quase assustador Anotações durante o incêndio, de 2000. Com o fino estilete da ironia, a autora desses novos contos arquiteta, em torno do universo feminino, narrativas que prendem o leitor numa espécie de labirinto narrativo, numa cartografia imaginária, em que, como não poderia deixar de ser, não há o fio confortador de Ariadne.

A cartografia e a dispersão (íntima e pessoal), além da deslizante condição feminina (de meninas, jovens e de nem tão jovens senhoras), são atravessadas não só por essa ironia cortante, mas por sua irmã gêmea: a melancolia. Essa estratégia da autora de tecer esses dois fios narrativos – à semelhança de uma Penélope ou de uma feiticeira como Circe – traduz-se, nos contos, como dois movimentos de tecer e destecer reminiscências de mulheres que sempre vêm nos dizer do insustentável peso de se estar costurada à vida e à escritura. Nesse sentido, a imagem do arco-íris, que poderia prometer ou remeter a uma calmaria possível após a tempestade, torna-se um reflexo multifacetado de um percurso sobre o abismo. Multicoloridas e sedutoras, as narrativas de Cíntia Moscovitch se configuram, antes, como pontes que se sustentam em delicado equilíbrio sobre a existência. Não há percurso que não se teça sobre o abismo, parece afirmar cada uma de suas histórias.

. Arquitetura do arco-íris

. De Cíntia Moscovich
. Ed. Record, 178 pág, R$ 26,90

No conto O telhado e o violinista, exploram-se, por exemplo, as incontáveis possibilidades da manifestação do mal no universo infantil. Num desentendimento entre duas meninas, uma delas é vítima do conhecimento da diferença através do inolvidável insulto de “Judia suja!” Esse aprendizado, que fere a personagem, anos depois, em reminiscência, equivale a ter consciência do preconceito e do anti-semitismo em terras brasileiras ao tentar ensinar a filha as estratégias de sobrevivência num mundo hostil.

A inquietante ambigüidade das relações amorosas em Cartografia e Fantasia-improviso delineia uma aproximação vibrante de Cíntia Moscovich com Clarice Lispector, principalmente no primeiro conto, quando a narradora, assustadoramente solitária, afirma, categórica: “Cada pessoa é uma harmonia de solidão”. Se a solidão contagia, é uma doença, em Fantasia-improviso, dois solitários personagens se encontram no reino da música. A narradora, no texto, contempla um cego (que não masca chicles, mas come castanhas) e suas reflexões remontam a “cegos ilustres que haviam trocado o querido mundo das aparências por compensações exclusivas à esfera do invisível”. Essa esfera, ou reino invisível, dá-se, sobretudo, quando uma dor reconhecível se amplifica e para suportá-la o sujeito necessita de um momento mágico, epifânico, “uma bordadura impetuosa” em que, muitas vezes, as palavras são inúteis, mas imperativas.

Laços de família e caminhos que se bifurcam percorrem outros contos desentranhando de histórias aparentemente simples nós e amarras carregados de sofrimento e de dor. Personagens solitários, vazios, mergulham em relações imponderáveis, por exemplo, filha e mãe no conto Os laços e os nós: os brancos e os azuis; a bibliotecária de meia-idade e o professor de literatura em O escândalo das estrelas na noite; ou a belíssima narrativa do romance entre uma jovem jornalista e um velho tradutor de Borges, em O tempo e a memória.

Aproximar-se dessas histórias pela leitura, antes de mais nada, é aprender que o desvelamento – do corpo, das memórias, do outro – não é impessoal e isento. Ao contrário, as histórias narradas nesse ilusório arco-íris ferem o desejo de acomodação ao explicitar, de forma lírica, delicada até, sentimentos de afasia, medo e incompreensão a que estamos sujeitos. Daí que a linguagem, construída de ironia e atada irremediavelmente à melancolia, transforma essas histórias de arco-íris em uma ponte entre a leveza e o pesadume da existência. Uma delicada e necessária ponte, em delicado equilíbrio sobre o abismo.

Lyslei Nascimento é professora de língua portuguesa e literatura na UFMG



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