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19/02/2005 - O Globo, Prosa e Verso, Wilson Martins
Estante de romances (III)

Estante de romances (III)

Por Wilson Martins

Autobiografias romanescas ou romances autobiográficos — conforme o objetivo em que desejarmos situar a ênfase — Carlos Moraes (Agora Deus vai te pegar lá fora) e Cíntia Moscovich (Duas iguais), ambos na editora Record, encerraram o ano literário de 2004 com obras de boa qualidade, excelente gabarito narrativo e incomum originalidade temática. Não havendo mais assuntos tabus em literatura, ela “viu” o romance (no sentido técnico da palavra) que existia nas relações amorosas entre duas mulheres, tratando-as com elegância moral e artística, irreprochável delicadeza de sentimentos e a nobreza de abordagem no caso indispensável.

É, antes de mais nada, um exemplo para autores supostamente “emancipados” e provocadores, que confundem o drama existencial e os seus mistérios com a salacidade pura e simples, destinada, por convenção, ao chamado grande público. Seus preciosismos de expressão, quase inevitáveis no tratamento da paixão amorosa, não só lhe caracterizam o estilo como se acompanham com a tendência para as notações antropomórficas na descrição de objetos inanimados e da realidade exterior, sendo, por assim dizer, sistemáticas as passagens em que transpõe a linha invisível e movediça em que a arte degenera ou se decompõe em artifício. Eis, por exemplo, o trecho em que, retomando uma invenção de Michel Butor, dirige-se à interlocutora na segunda pessoa gramatical: “Finalmente, me pus de joelhos a teus pés, como nunca achei justo me pôr de joelhos perante ser humano algum (...). Coloquei-me de joelhos entre teus joelhos e tive a visão de que se derretia o sexo, assim como o chão aprendera a se derreter com a passagem mimosa dos teus pés, santa, santa, minha figura de adoração por toda a vida (...).” Aí estão o preciosismo, o antropomorfismo e, pode-se pensar, a seriedade visceral profunda inseparável da exaltação dos sentidos.

O objeto erótico desses transportes havia surgido, anos antes, como uma intrusa no colégio em que tudo começou, desenvolvendo-se com a fatalidade inexorável das tragédias, sendo, como é, uma tragédia a história deste romance, dando-lhe o caráter sagrado das maldições divinas: “Sentei-me no fundo da sala, estrategicamente ao lado da janela. (...) Recém me atracara num cigarro que havia roubado de meu pai, quando ela entrou. (...) Era cara que eu não conhecia. Nós todos nos conhecíamos, nossa infância havia sido a mesma, havíamos passado juntos todo o primário e o ginásio. (...) Freqüentávamos os mesmos bares, os mesmos bailes, as casas uns dos outros (...).”

Assim começava a se tramar o tecido dos dois destinos, condenados a se entrelaçarem no mesmo destino comum: “Aninha e suas idéias (...). Aninha tinha o dom do camaleão e, sem esforço havia se tornado uma de nós. Talvez nós também nos houvéssemos apropriado de alguma coisa de Aninha, tentando ser parecidos com ela. Era uma das raras meninas que não tinham hora para voltar para casa e conhecia todas as rotas de todos os ônibus da cidade. Além disso, tinha um senso de humor que, pensando melhor, era absolutamente precoce para a idade. Mais tarde viria a conhecer a capacidade que minha amiga tinha de fazer tragédia de coisas pequenas” — para nada dizer da dominação tirânica que passaria a exercer sobre a companheira.

As citações fragmentárias mutilam a trama orgânica do texto no que tem de essencial, quero dizer, o desenvolvimento interior e germinativo, o amadurecimento da narrativa, a consciência que, gradativa e até inconscientemente, se forma das singularidades: “Que coisa era a Aninha! Estar com ela era diferente de estar com qualquer outro ser. Ela me arrastava para tudo, tudinho a que se pudesse assistir pagando um ingresso. Quando as luzes se apagavam, invariavelmente minha amiga pegava minha mão e descansava a cabeça no meu ombro, aconchegada e feliz (...).” Tudo isso é rememorado pela narradora quando as vidas se consumaram: “Nunca mais, nos muitos anos que se seguiram, deixei de contar a mim mesma o ocorrido, narrativas reflexivas cheias de imprecisões e de fantasias impacientes. (...) Eu soube: o amor exige expressão. Ele não pode permanecer quieto, não pode permanecer calado, ser bom e modesto; não pode, jamais, ser visto sem ser ouvido. O amor deve ecoar em bocas de prece, deve ser a nota mais alta, aquela que estilhaça o cristal e que entorna todos os líquidos”.

Bem diferente, no tom, na matéria e no estilo é o romance de Carlos Moraes: preso como subversivo durante o regime militar, o narrador é um padre a caminho de abandonar o seu estado, contando os episódios com tal bom humor que a vida na cadeia parece, por inesperado, um período de férias, não o episódio dramático que, por definição, deveria ser: “logo vi que as boas ou más relações humanas que numa cadeia se formam não são tão diferentes das de uma empresa, uma família, um convento. (...) Assim que tranqüilizei meu pai, falei do futebol, do chimarrão do seu Noé (...).” O prisioneiro recebe visitas e presentes, móveis e utilitários domésticos, há convívio aberto entre as celas, sem contar as festividades religiosas e os banquetes comemorativos. Sobre o envelope que recebe, subscritado para o “reeducando João Silveira”, comenta: “É como se fala agora, reeducando. Depois de todos esses meus anos de filosofia, pedagogia, teologia e vários cursos de extensão universitária, confesso que custei a acreditar. Mas ali estava, clarinho no envelope. Sim, devo reconhecer, sou agora um reeducando. Também não é um mau título. No meu tempo de capelão informal aqui se dizia: apenado. Era como eu me sentia naquele momento. Apenado”. Se o romance de Cíntia Moscovich é uma tragédia, o de Carlos Moraes é uma comédia — comédia humana se quisermos evocar um exemplo ilustre.

O protagonista acaba absolvido em Brasília por falta de provas e, ao receber o documento papal que o desligava dos votos, comenta estar livre da Igreja, dessa “Igreja morta, pagã e funcionária (...) estou livre sim, e feliz por isso. Mas não estou livre do evangelho de Cristo, das leis verdadeiramente santas do amor e da misericórdia, e do despojamento das vaidades desse mundo (...)”. É uma história maniqueísta, com nítida separação entre os bons e os maus, entre o bem e o mal, entre a virtude e o crime. Tudo termina bem, o que é um pouco contraditório com a gravidade da situação ou, se quisermos, o narrador é o primeiro a não levá-la demasiadamente a sério, transformando a comédia humana em comédia pura e simples.




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