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02/01/2005 - Rascunho - Paraná, por Moacir Godoi Moreira
Tonalidades e nuanças

Tonalidades e nuanças
Em Arquitetura do arco-íris, Cíntia Moscovich transita da mais singela observação às mais cruentas, doloridas e áridas sensações humanas

Moacyr Godoy Moreira — São Paulo – SP

Arquitetura do arco-íris
Cíntia Moscovich
Record
171 págs.

“Tornei-me adulta num grande esforço de construção e descobri que as lágrimas são o sal da dor”, diz a personagem-narradora do conto Bonita como a lua, de Cíntia Moscovich, texto que fecha o volume Arquitetura do arco-íris. Curioso que esta frase venha justamente na mais leve das histórias do livro, uma quase-crônica que se afasta um pouco da densidade que perpassa de ponta a ponta os escritos.

Esta dor, que vem mais profunda em outros textos, aparece aqui como um requisito: há, sim, possibilidades de crescimento e aprendizado, mas todas elas passam, invariavelmente, pela dor. Pensando um pouco no título do livro, como explicar o projeto arquitetônico de algo tão abstrato, de algo que invariavelmente surge sempre depois da chuva, às vezes tempestade?

Junto com o cheiro de vida que nos encanta, vindo do choque da terra escaldante com o frescor dos grossos pingos, surge no céu uma mancha multicolorida e lúdica, um sinal de reinauguração e esperança que remete à caixa de lápis de cor, novinha, recebida com entusiasmo na infância. Deste desfile de tonalidades e nuanças, nos fala Cíntia Moscovich em seu novo livro.

Numa nota colocada ao final, a autora explica: este livro foi escrito entre maio de 2001 e fevereiro de 2004. A observação corrobora a impressão de minuciosa elaboração pela qual passaram os contos. Tudo é muito coeso, às vezes duro, mas sem arestas, tudo aparado. As poucas rebarbas notadas, deixadas no caminho em aparente descuido, estão ali propositadamente: são o tempero da trama, o toque de alegoria que cintila em cômodos e desatenções, o sal da dor, enfim.

Na orelha do livro, Luis Fernando Verissimo diz algo seriíssimo, apesar de sua usual verve humorística: “Escrever bem muita gente escreve. Ou tem o dom, ou aprende, não há mistério. E apenas escrever bem não é uma arte desprezível. Se ‘apenas’ escrevesse bem, a Cíntia já seria superlativa: há coisas neste livro tão bem escritas que tiram a respiração. Mas ela é do tipo que sabe que escrever bem é só o começo, e é só o meio. O fim de escrever bem é compartilhar uma realidade inédita ou um sentimento importante com o leitor, de tal maneira que o que está escrito e como está escrito se completam, e o puro engenho do texto desaparece, dá para entender?” Precisa dizer mais? Mas como minha intenção aqui é justamente esta, digamos mais.

Dividido em duas partes, como uma opereta em dois atos, há movimentos andantes e vívidos, outros mais lentamente derramados no papel. A poesia está em todo lugar, como que oculta por detrás da mobília: “Sem que eu pedisse — sem que eu merecesse —, colocara, ao lado do bule, quindins lisos e perfeitos. E como me oferecesse sóis de gemas, a fome veio” (O tempo e a memória); “Eu me impressionava com aqueles disparates, mas ainda mais com o rosto desfocado de anjo, toda ela aprisionada numa natureza de sol vermelho, um rosto cintilante pintado aqui e ali por lugares castanhos” (Cartografia); “O outono tornara douradamente preciosas as copas das árvores, e pisávamos nas sombras projetadas nas pedras desta cidade tão meridional” (A queda do arco-íris).

O que mais impressiona na prosa de Cíntia é a capacidade de transitar da mais singela e poética observação para as mais cruentas, doloridas e áridas sensações humanas num saltar de parágrafos. No conto O escândalo das estrelas na noite, a personagem, duas linhas após experimentar um prazer ao qual se desacostumara, reflete: “Sentar junto ao marido e à filha era como ter de engolir a seco um punhado de terra, desconforto de aspereza na garganta”. Por todo o caminho há, com variações de secura, esta aspereza — chegando aos extremos mais impressionantes na segunda parte do livro.

Ao contrário de alguns autores seus contemporâneos, a análise das situações dolorosas em Cíntia Moscovich chega às profundezas, mergulha nas mais abissais, escurecidas e hediondas regiões da alma humana e de lá retorna com uma eficácia notável. Para a dor não há filtros, não há lentes que atenuem ou mascarem as fímbrias do dissabor. A autora não poupa o leitor do baque surdo que é o golpe da solitude, o arremate do abandono: “Cada pessoa é uma harmonia de solidão. Uma música interior e inaudível. O amor, porque admite a solidão, pode viver, e vive, numa harmônica irrealidade”. Pensando nesta forma de olhar, neste despudor diante do sofrimento, há também contemporâneos em uníssono (já que se adentrou ao terreno dos etâneos): Marilene Felinto, Rubens Figueiredo e Marçal Aquino.

Aqui e ali há alusões à música e às cores, mesmo que por vezes de forma negativa: o branco-e-preto e a ausência de melodia fazem sombra a “arreganhos de amarelo” e sonatas de Beethoven ou peças bem torneadas de Mozart. As metáforas sinestésicas trazem, também à mente do leitor, uma das mais enigmáticas autoras da literatura brasileira: Clarice Lispector. Cíntia Moscovich homenageia Clarice com algumas releituras de seus contos mais marcantes: Uma galinha e Legião Estrangeira estão recontados em O telhado e o violinista; Laços de família e A imitação da Rosa recriam-se em Os laços e os nós, os brancos e os azuis. Porém é este detalhe, aqui, mais um luxo. Não se trata de mera aproximação, é capricho puro da autora, quase uma brincadeira de esconder com quem conhece Clarice Lispector e relembra deste ou daquele texto ao atravessar o arco-íris de Cíntia.

Há, ainda, uma diferença fundamental: na obra de Lispector, a incapacidade de conciliação entre a vida embebida no éter da alienação e o mundo das idéias, das artes, faz de muitos textos objetos de infinitas discussões na academia e entre seus leitores, que raramente levaram ou levarão a muita coisa: para a autora, o impasse está instalado, e ponto final. Ou reticências, ou mesmo dois pontos, como Clarice costumava concluir — inconclusivamente — muitos de seus escritos.

Para Cíntia Moscovich, há na vida um equilíbrio dinâmico que permite a resolução do impasse, dos conflitos. Dos dez textos do livro, cinco terminam com um final ‘trágico’, outros cinco com luzes no fim do túnel. Não há a ilusão do final feliz insubstituível, mas nos vaivens dos acontecimentos e acometimentos, e apesar da devastação, há não o pote de ouro e os duendes, mas as cores esparramadas no céu, numa coleção de matizes bastante animadores. Percebe-se, então, a origem da diversidade: são opostos os projetos ficcionais e a filosofia que, através de sua arte, cada uma das autoras constrói. No caso de Cíntia, talvez o motivo venha da delicadeza de quem teve como avós duas Rosas.

O novo livro de Cíntia Moscovich, portanto, repleto de pausas de fração de semifusa, que podem conter tão grande tristeza, termina como um pôr-do-sol em Porto Alegre, exibindo a infinidade de possíveis cores e brilhos que a natureza sabe fazer. Termina assim mostrando um pouco do invisível exoesqueleto que dá leveza e luminosidade à arquitetura do arco-íris, atravessa bemóis e sustenidos e deságua majestosamente em sol maior.

LEIA A SEGUIR ENTREVISTA DE CÍNTIA MOSCOVICH, CONCEDIDA A ROGÉRIO PEREIRA

“Literatura me dá prazer”

A crítica tem feito aproximações de sua obra com a de Clarice Lispector. Alguns também definem sua ficção como “literatura feminina”. Isso a incomoda? Como você avalia estas leituras da crítica?
Aproximar minha literatura daquela feita por Clarice é uma lisonja e, em certa medida, uma preocupação. Claro que ninguém é inocente: não seria eu a única a não ecoar em minha produção o resultado de anos e anos de muita e aficcionada leitura — leio Clarice com devoção, repetidas vezes, tentando encontrar o que não estava antes ali. Esse susto de ler um mesmo autor sempre e sempre, e sempre ser ele novo e viçoso, não se pode apagar nem por milagre. Agora: dizer pura e simplesmente que repito Clarice, como tantas vezes li a meu respeito, é, no mínimo falta de imaginação e carência de ter mais a dizer. O crítico e o resenhista procuram, fora do texto que está em questão, referências externas que possam ajudar a elucidar o que ele, crítico ou resenhista, está querendo dizer. Sei porque, em minha profissão como setorista de livros, passo pela mesma situação. Neste sentido, dizer que tenho ecos de Clarice é perfeito. Não me incomoda, não me perturba: é lícito e bom. Dizer que a repito são outros quinhentos. Quanto à “literatura feminina”... Ai, ai, ai: aí vem o chato deste assunto de novo à tona, papo que é verdadeiro sonífero. Quando me provarem que existe isso, uma literatura fracionada dentro da própria literatura, este suposto pedaço arrancado ao todo, a gente pode conversar. É o mesmo que dizer que existe uma literatura gaúcha, ou sulina, ou meridional, ou coisa parecida. Adjetivar uma forma de expressão (feminina, negra, homossexual e quetais) é uma forma de reduzir a própria literatura. Por enquanto, sou só uma escritora mulher. Se é que isso, o fato de uma criatura fazer xixi de pé ou sentado, importa alguma coisa.

A sua produção é predominantemente de contos, mas há também o consistente romance Duas iguais. O que lhe causa mais satisfação: os desafios da brevidade do conto ou o longo caminho do romance?
Escrever o que quer que seja é o barato dos baratos, é a coisa mais prazerosa da face da Terra (não desprezando outros prazeres mundanos, claro). O conto tem o fascínio da rapidez, uma irresistível voragem de urgência e de dizer logo o que se deve dizer. Ser breve, concisa e enxuta, lidar com duas histórias — uma que se conta e uma que subjaz ao narrado — como é essencial ao conto, é um desafio que enfrento com delícia. Creio que isso, essa característica de brevidade e de ocultamento, é uma iniciação à escrita (e à leitura) do romance. Só pude escrever uma narrativa longa porque escrevi antes histórias curtas. Assim, o longo caminho do romance está, a priori, marcado pelos atalhos do conto. Muito principalmente por este esforço de prensar a linguagem, fazê-la compacta em escritura para que se derrame em significação aos olhos do leitor. As duas coisas, portanto, me dão imenso prazer. Literatura me dá prazer.

A leitura dos contos de Arquitetura do arco-íris mostra que a casa é o espaço onde pulsa a maioria das histórias. Por que a escolha da casa como ambiente para seu mundo literário?
Genial, eu não tinha me dado conta disso antes. Agorinha, antes de responder, fui dar uma volta pela casa, por essa, onde moro, do jeito que estou, seminua por causa do calor de deserto que faz nesta tarde de sábado em Porto Alegre. Falta organizar um monte de tralhas que deixei espalhadas na sala, no quarto, no pátio. Então é isso: existe algo que é meio obsessão, mas que, creio, constitui a maioria das pessoas, que é o apego — ojeriza em casos malsucedidos — pelo lugar onde se mora. E não falo de apego material. Falo do tanto que uma casa guarda de lembranças, de intimidades. Na casa da gente, as coisas realmente acontecem: aqui, tudo é de verdade, ao menos essa verdade que me importa. É como se, fora da casa, eu fosse uma estrangeira ou algo parecido, se é que me faço entender. Na minha casa, eu me viro como acho que devo me virar, só entra aqui quem eu quero que entre e fica aqui o tempo que eu quero que esteja comigo. É na casa — e agora falo de um espaço mítico ou alegórico — que a humanidade se acha em seu estado bruto. Mesmo quem mora debaixo da ponte, faz o debaixo da ponte sua casa. E quem não mora em lugar nenhum não tem sequer o lenitivo de ter um lugar para voltar — o que é uma violência. Na casa, as pessoas têm dor de barriga, dormem, comem, tomam banho, trocam de roupa. Tem gente que nasce e que morre dentro da própria casa, vê só. Por isso, creio que a casa é o ambiente para criar meus cenários e me movimentar: na casa, está de fato o drama, a necessidade de juntar as quinquilharias espalhadas para fazer algo inteiro e organizado, a humanidade que faz a gente humano. Mais do que pelas ruas da cidade ou por qualquer ambiente mais amplo, é aqui, na casa, que o mundo vem bater com todas as misérias. Aqui, tudo é como é. Fora de casa, de qualquer casa, tudo é mentira. E a literatura precisa da absoluta e pura verdade.

Na orelha de Arquitetura, Luis Fernando Verissimo diz que você escreve bem, mas que isso não é suficiente. O que é suficiente — além de escrever bem — para se tornar uma escritora atrativa ao leitor?
Escrever bem. Um ofício convocando para uma reunião de condomínio pode estar bem escrito. Não sei o que é suficiente para, vá lá, escrever bem, mas sei o que é minimante necessário: uma boa dose de imaginação, um razoável poder de fabulação, e um trato com a linguagem que tire dela a cara de ser um ofício, além de uma paciência e um tanto de neurose obcecada. Requer também um sentido de observação, ironia, cinismo e sarcasmo. Resumindo: um sujeito que escreve tem de se submeter a um ritual de alheamento, de afastamento da realidade vivida para poder recriá-la na narrativa. A escrita burocrática é transparente, lisa como um vidro de janela. Escrever literatura bem significa dar ao texto uma certa porção de opacidade: não se olha através da janela, se olha a janela em si. Entre o burocrata e o escritor a diferença é que o primeiro não sabe fazer mais do que escrever bem; o segundo está tão ocupado em refazer a ordem das coisas, em sujar a escrita protocolar, em juntar um substantivo e um adjetivo de maneira tão inédita e significativa, em fazer da tal janela a própria história, que não tem tempo de ir à reunião de condomínio. Se me dizem que eu escrevo bem, eu agradeço. É o mínimo que eu e o síndico do prédio podemos fazer. Ainda mais que sou jornalista.

No conto A queda do arco-íris, lê-se: “A literatura infelizmente não pôde resgatar a mísera desordem de meu amor por ti. A literatura, pobremente, me inventou numa ficção de ti”. Quais os limites e poderes da literatura?
Bá, tchê (como dizemos aqui). Não há limite para a literatura, nem o céu significa o fim do caminho. E o maior poder da literatura é justamente este sem-limite. No entanto, pobre daquele desavisado que pensa que tudo pode, que tudo vale na matéria literária. Como na vida, já que falamos de uma arte que é, essencialmente mimética, na literatura rala-se o sujeito que desconhece seus limites e que pensa que pode tudo. A literatura pode tudo. O escritor tem o limite de seu próprio talento.

Que tipo de literatura chama a sua atenção e ganha leitura mais atenta?
Como trabalho em jornal, justamente na parte de livros, recebo praticamente todo o tipo de coisa. Leio com mais atenção aqueles textos que começam bem, pura e simplesmente. Isto é: aquelas linhas iniciais que ficam ali, pulsando, chamando, gritando. Se um texto não consegue me cutucar desde o início, não há motivos para seguir lendo. E isso se aplica a tudo, de ensaios sobre o plantio de goiabeiras a romances. Mas sempre leio com mais complacência livros cujos autores não conheço e que estão iniciando. Meu sonho dourado é descobrir “o” cara. Neste sentido, me lembro de ter levado o maior susto da face da Terra ao abrir um livro de uma escritora portuguesa que não conhecia. Era uma barbaridade de tão bom aquele Fazes-me falta, de Inês Pedrosa. Ninguém por estes pagos tinha lido a criatura. E me orgulho de dizer que, ao menos aqui na terrinha, as pessoas passaram a ler a Inês depois que eu pedi que prestassem atenção. Uns gostaram, outros não: mas o importante é que a leram e acharam alguma coisa. Claro que ela ia ser descoberta. Mas eu gritei o “terra à vista”. Acho. Leio com atenção textos bons, aqueles que pedem para ser lidos com atenção. O resto é sujeira sobre papel.

O governo federal está empenhado em criar a Câmara Setorial do Livro, para construir uma política do livro com metas até 2022. Como você avalia esta iniciativa para tentar fortalecer o mercado do livro?
Acompanho aqui no Rio Grande do Sul a Lei do Livro, que tem a mesma filosofia em torno da qual gira a criação da Câmara Setorial do Livro em nível federal. Por dois anos, ou quase isso, estive à frente do Instituto Estadual do Livro (IEL), que tem (ou tinha: faz já um bom tempo que nosso IEL está parado) um programa genial, que levava autores aos mais remotos municípios para conversar com estudantes e outros membros daquelas comunidades. Eu mesmo, como autora, participei desse projeto. Constatação um: havia alunos que não estavam nem aí para o escritor ou para o livro, estavam na escola porque lá havia a merenda aquela, que sempre, ou quase sempre, era uma gororoba que nem o cachorro aqui de casa toleraria comer. Ninguém come livro; leitura é já uma sofisticação das necessidades de um ser humano. Constatação dois: em geral, as escolas não tinham verbas para comprar livros e manter um acervo decente na biblioteca, que estavam mais fornidas de livros didáticos do que de ficção. Constatação três: as crianças são obrigadas a ler na marra, os professores, nem eles são leitores muitas vezes. O que se deve fazer, e eu creio que se deva fomentar o mercado de livros, é dar uma situação minimamente razoável a esse povaréu. E que, se esquivando do paternalismo estatal e do eterno clientelismo das corporações, a verba destinada à compra de livros seja realmente destinada à compra de livros úteis, nunca para desencalhar estoques de editoras. Enquanto a gente não tiver um público leitor, não adianta o esforço. É fazer respiração boca-a-boca em cadáver.

Ao mesmo tempo em que o governo tenta criar uma plataforma sólida para o livro, um grupo de escritores e poetas elaborou um documento com centenas de assinaturas solicitando ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, e ao Coordenador do Programa Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas, Galeno Amorim, que os “artífices principais da criação literária”, no caso os escritores, sejam reconhecidos e tenham condições da tão almejada profissionalização. Qual a sua opinião sobre esta discussão? É possível a profissionalização em larga escala?
Huuuuum. Sei lá. Tenho medo de que sobre meus cobrezinhos de direito autoral venham cobrar algum outro imposto de classe. Mas isso é o de menos, claro. Acho que escritores têm direito à profissionalização, sim, desde que sejam realmente profissionais. É uma barra dizer quem é profissional ou não, e aí temos de ter alguns parâmetros claros. Autor de manual de xadrez é escritor? O que faríamos com uma carteirinha que nos identifica como escritores? O que o Estado poderia fazer por seus escritores? Acho que a resposta a essa pergunta se relaciona à anterior. Se a gente formar um público leitor, venderemos mais livros. Se a gente vender mais livros, pinga mais em nosso bolso de escritor. Se pinga no nosso bolso de escritor, a gente pode e deve responder por isso, exatamente como qualquer outro profissional de outra área. O que deve haver, em primeiro lugar, é respeitar o escritor como um ser produtivo. Sem essa de chamar o escritor para debater um filmezinho, coisinha básica, só uma horinha com o publicozinho, desculpa mas a gente não tem dinheiro para bancar um pagamento, mas bancamos o almoço pra ti, tá bem? Não, não tá bem. Enquanto a gente vender só idéias, e idéias valerem preço menor que o da banana, a gente nem pode pensar em profissionalização. Ou, talvez, justamente por isso se deva pensar em profissionalização. Se me disserem, por exemplo, que as pessoas vão me escutar para falar como escritora e que vão me pagar decentemente por isso, porque sou uma profissional da área, daí tudo bem, acho que tem a ver a luta. Mas se me derem uma carteirinha, me cobrarem ainda mais impostos e eu tiver direito a um sanduíche de mortadela e guaraná como pagamento por duas horas de trabalho, sinto muito. Quero o respeito que todos merecemos. Cansei de tapinha nas costas. E não gosto de sanduíche de mortadela.

O Rio Grande do Sul é um caso à parte no Brasil (fora do eixo Rio-São Paulo), pois tem um mercado editorial consolidado, muitos escritores e leitores. Enfim, possui um bom ambiente literário, se comparado com o resto do país. A que se deve tudo isso e como é participar deste processo, mesmo agora publicando por uma das maiores editoras do país?
De fato, nosso Estado tem peculiaridades muito fortes em áreas diversas. Na literatura inclusive. Acho que contribui para formar um ambiente literário favorável o fato de estarmos próximos de países como a Argentina e o Uruguai, que têm forte tradição literária, sobretudo na área do conto. Além da vizinhança com os países platinos, temos clara influência das correntes migratórias que nos formaram, como a italiana, a alemã, a judaica, a polonesa, culturas que estavam em estágio mais sofisticado que a nossa (pensemos que nosso Estado foi o último a ser “civilizado”, digamos assim. Até ontem, o pessoal daqui ainda estava metido em guerras e degolas). Além disso, temos forte componente indígena e grande contribuição dos negros, tudo isso sempre ligado a um sentido de posse da terra e da busca de formação de nacionalidade. Há também a Oficina de Criação Literária, ministrada pelo escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil na PUCRS, que, ao menos em teoria, despeja 30 novos autores potenciais no mercado por ano. E vem fazendo isso há mais de 20 anos. Eu saí dessa oficina e sei o quanto isso representa. E sei também que o Assis Brasil é um aglutinador e incentivador de nossa literatura. Temos disso: os escritores mais experientes acolhem os mais novos. Funciona assim com o Moacyr Scliar, Lya Luft, Sergio Faraco, Tabajara Ruas, entre outros tantos. Temos a Feira do Livro de Porto Alegre, já com 50 edições, a Jornada de Literatura de Passo Fundo, o Instituto Estadual do Livro. Tudo colabora para que as coisas possam dar certo. Quanto a mim, me sinto perfeitamente à vontade nesse meio, do qual me orgulho, inclusive — desculpe ser bairrista. Fui sempre acolhida, bem-tratada, tenho muitos de meus melhores amigos dentro dessa área. Talvez se trate, como acusam alguns, de uma panelinha. Mas nunca vi ninguém ser excluído. Quanto a publicar por uma editora do centro do país, é uma festa. Porque há uma contrapartida nessa coisa saudável e próspera da gauchada: a gente fica por aqui, e o resto do país não sabe da gente. Ora, quero ser lida, quanto mais gente me ler, melhor. Quero ser bem publicada, com distribuição garantida, editor que me afague, mas me trate como profissional. Tudo isso a Record vem fazendo por mim. Continuo produzindo na minha terra, continuo entre os meus, continuo com a saudável interlocução de sempre. Agora com a segurança de que posso lançar um livro e que ele estará disponível em todo o Brasil.

Como jornalista e responsável pela seção de livros do jornal Zero Hora como você avalia a atual produção literária brasileira? Quais as dificuldades para ser editora de um suplemento sobre livros?
Primeiro uma informação: estou me retirando de Zero Hora na primeira semana de janeiro. De agora em diante, penso me dedicar à literatura, ao fazer literário, sem deixar de colaborar com o jornal no qual trabalhei por dois anos e meio. Com relação à pergunta, tenho a declarar que nunca vi tanto livro ser lançado como nos últimos dois anos. Se eu deixar que os auxiliares de redação fiquem colocando livros na minha mesa sem critério, eu estarei soterrada ao cabo de dois dias. Essa produção, que vem de um ar novo que sopra no mercado editorial, é benéfica, claro, mas também tem seu lado deletério. Todo mundo publica tudo, e parece não haver muita seleção, o que torna o trabalho muito mais difícil. Claro que não me arvoro a decidir o que é bom ou ruim, não tenho essa pretensão, mas preciso fazer meu trabalho em níveis mínimos de qualidade. Como ler tudo o que me chega? Ao contrário do setorista de música, que escuta um CD em 40 minutos, um livro demanda horas e horas de leitura. Falando em música, também a editoria de livros está numa enrascada. Os jornais têm de vender, atendem a seu público. A música tem um apelo muito grande, todos têm um CD player em casa, tem gente disposta a pagar mais de um salário mínimo para assistir a um espetáculo da Norah Jones, então temos de dar matéria sobre música e capa para a Norah Jones. Ou sobre cinema, olha só o que estréia toda a semana nos cinemas. Este é o drama que é meu e que também é do editor do caderno de variedades: onde enfiar tudo o que deve ser dado? E há outro problema, que é o de lidar com as vaidades dos colegas de escrita. Nunca nada está bom, querem o nomezinho e a fotinho deles estampada no jornal. Se o que fizeram não serve nem presta, se gastaram papel para nada, isso não sabem escutar. Talvez nem eu queira saber de críticas negativas. Mas, pelo menos, não fico atordoando o jornalista, que tem todo o direito do mundo de não gostar do que eu escrevo. O bom da coisa toda é ver livros bons, competentes, bonitos e sérios chegarem à redação. De aplaudir de pé. O resto deveria mesmo ser silêncio.

A internet já se consolidou como um amplo espaço para a divulgação da literatura — principalmente a produção dos novos autores, por meio dos blogs. Mas também vemos uma banalização da escrita pelo excesso e pela baixa qualidade da produção. A internet é uma saída para quem não consegue editar seus livros em papel ou não passa de um labirinto de amontoados sem muita importância?
Tudo que é bom é mau. Não se pode, de jeito nenhum, desprezar a internet como espaço de divulgação de literatura e, muito melhor, como um ambiente de interlocução. Tampouco se deve fazer da internet a salvação da lavoura, coisa que cai no extremo oposto, uma espécie de messias que chegou para redimir. Há produção no meio virtual. Claro que, no meio de tanta coisa, existe o dispensável, o datado, o chato, o nada a ver. Mas há, por outro lado, gente que tem o que dizer e que diz, sim, e que inclusive salta para a materialidade do livro porque foi aprovado no teste dos leitores internautas — e se eu fosse citar os casos bem-sucedidos, por certo esqueceria alguém que não merecia ser esquecido. Excesso por excesso, também existem muitos livros. O tempo, que é sábio, vai separar o joio do trigo.

Você pensa no leitor quando escreve? Por quê?
Penso, sim, todo o tempo. Por quê? Porque, apesar de eu ser minha primeira leitora, não escrevo para mim. Escrevo para que os outros me leiam, não para satisfação onanista. Tenho um projeto literário, que forçosamente inclui leitores. Meu leitor ideal não tem um rosto definido, não tem identidade conhecida. Mas é um leitor que deve compreender o que escrevo, que deve usufruir da leitura tanto quanto eu da escritura. Este leitor tem um gosto literário muito parecido com o meu, com a diferença que ele sempre quer algo que eu ainda não posso dar. Estou sempre correndo atrás. Minha vaidade não chega à ingênua auto-suficiência, não é vaidade de ser humilde muito menos de supor que nem vaidosa sou. Existe um sujeito que vai ler e que, mesmo com ressalvas, vai gostar do que eu leio. E que vai me garantir que eu possa seguir escrevendo.

Como se formou a Cíntia Moscovich escritora? E de que maneira o jornalismo ajuda ou atrapalha na construção de sua obra?
Não sei lá muito bem. Tudo começou com a leitura, não sou original nem nisso. Li, li, li, desde pequena, como se a leitura pudesse me dar um norte, uma referência. Comecei a escrever. Primeiro eram poemas, umas coisas horrorosas, que me causavam desgosto e frustração. Quando, na Oficina do Assis Brasil, percebi que podia escrever prosa, foi um descortínio de alumbramento. Isso foi em 1995. Comecei tarde, aos 36 anos, porque não sabia como começar. Depois, foi um caminho só de ida. O jornalismo, a priori, não incomoda muito menos ajuda. Mas, pensando bem, o jornalismo de redação, aquele de fazer jornal diário, com o sentido de se estar numa equipe e ter de participar de toda a edição — inclusive domingos e feriados, ainda ter de fazer plantões para acompanhar a final do Big Brother Brasil e cobrir a tarefa do colega que saiu porque tinha de buscar os filhos no colégio —, é uma máquina de moer carne. Por isso, porque todo o meu fôlego era empatado na redação, decidi a me arriscar e vir para minha casa escrever. Acredito que eu tivesse muito mais a dar se desde o início eu me dedicasse à literatura, coisa que aconteceu somente agora, em vias de me desligar do jornal. Aqui, com tempo, estou certa de que vou poder ler todos os livros que não li e que vou escrever todas as matérias que não escrevi. E ainda vai me sobrar tempo para fazer ficção.

Quais autores têm lugar privilegiado em sua biblioteca e dialogam constantemente com sua obra?
São vários os autores do coração. Tem a Clarice, como já falamos, mas tenho também Borges, Calvino, Singer, Jeanette Winterson. Há aqueles que participam de forma indireta, como Shakespeare, que é autor ao qual sempre se volta. E há os gaúchos. E os paulistas, cariocas, mineiros — uma miríade deles. Sou herdeira de uma tradição, e é complicado afirmar que tais e tais autores têm lugar privilegiado nas minhas estantes. Por trás dos meus queridos do coração, há aqueles que eram os queridos dos queridos dos queridos. Mas se a coisa empaca, volto àqueles autores ali de cima. Eles sempre me estimulam e sempre acho uma brecha quando acho que tudo está perdido.

Como é o seu método criativo?
E essa, agora. Como é meu método criativo? Vou tentar responder sem parecer ridícula. Eu escrevo quando sei que vou ter tempo para escrever, quando sinto que tenho algo para escrever. Já fui mais obcecada e já tentei escrever todos os dias. Não deu: não houve tempo ou vontade. O jeito era ler todos os dias. Leio todos os dias, então. Mas isso, me dei conta, não basta para criar, não é só dos livros que vive a literatura. Havia algo mais, que não era intencional, mas que eu cumpria por instinto — isso eu soube depois, agorinha mesmo para ser exata. Compreendi que estou escrevendo mesmo quando não estou escrevendo: as menores coisas têm a ver com minha literatura. Entendi que, quando me interesso em saber como funciona o motor de um filtro de aquário ou quando leio o manual de instruções da máquina de lavar, estou acumulando informações para escrever. As coisas têm uma maneira de funcionar que é inquietante. Tudo o que está dentro, tudo que é íntimo e que não se dá à vista, me chama. Sem inquietação, não consigo criar coisa nenhuma. E sem o fascínio de descobrir como as coisas funcionam e como elas são por dentro, não posso ser inquieta. Quando vou escrever, quando me sento aqui, é como se estivesse cheia de alguma coisa, um sentimento que pode ser disparado por uma cena na rua, uma frase num livro, uma idéia que veio num momento de ócio. E tenho de saber que não serei interrompida, que estou só, que não há ruídos, que o sutiã não aperta, que a temperatura está boa. Se vou escrever, vou só escrever. Preciso de concentração, de estar atenta, uma atenção que é suave mas constante, que é boa mas insistente. Daí, tudo o que está dentro, tudo o que eu sei, fica ali, à disposição (eu disse que era meio doido, não falei?). Depois, é reescrever e reescrever. Quase sempre, o que parecia uma maravilha é uma rematada besteira. E se eu não estou convencida, como vou querer que aquele leitor, o ideal, se convença?






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