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12/02/2005 - Caderno de Cultira, Zero Hora (RS)
A densidade do arco-íris de Cíntia

Literatura
A densidade do arco-íris de Cíntia
O escritor e crítico de literatura Flávio Carneiro comenta o livro de contos Arquitetura do Arco-Íris, da autora porto-alegrense Cíntia Moscovich, um dos lançamentos mais elogiados do ano passado. Segundo ele, as histórias focadas no universo de meninas, moças, mulheres e velhas têm traços de "uma leveza que em nada compromete a densidade dos contos - bem pelo contrário, só faz realçá-la"
FLÁVIO CARNEIRO/ Escritor, autor de Da Matriz ao Beco e Depois (1994) e O Campeonato (2000), professor de Literatura




Nenhuma explicação científica pode dar conta de algo como um arco-íris. Se em meados do século 17 Descartes conseguia finalmente defini-lo - em Discurso Sobre o Método -, a tradição oral, sob a forma de lendas e crenças, tratava de manter a riqueza simbólica do fenômeno. Riqueza que a arte, sob formas diversas, naturalmente incorporou. Signo do sonho (como o sabia Kurosawa), colocado entre a realidade e a imaginação, o arco-íris supera sua explicação física e se configura sobretudo como símbolo de transição, de passagem. Se passamos por baixo dele, mudamos de sexo (menino vira menina, menina vira menino). Arco-celeste e arco-de-deus, sol e chuva, imagem e reflexo, humano e divino, o arco-íris é sempre aquilo que se encontra entre.

É neste campo, tão propício à ambigüidade, que a escritora Cíntia Moscovich monta a firme e delicada arquitetura de seus contos. Enquanto a primeira parte do livro investe em personagens como a criança e a mulher jovem, a segunda se concentra na maturidade e na velhice. Daí a possibilidade de leitura dos títulos de cada parte - Dispersão da luz: arco-celeste e Espectro solar: o arco-de-Deus -, a primeira apontando para a dispersão, para a luz que nasce e se espalha, a segunda sugerindo a proximidade com o divino, o encontro com a morte (ou os seus fantasmas).

Fugindo, contudo, da armadilha de uma estruturação maniqueísta, a autora soube inserir, numa e noutra parte, um mesmo fio, a funcionar como ligação entre elas e, dessa forma, relativizando qualquer oposição mais radical. E tal fio é justamente aquele ao qual o arco-íris está normalmente associado: o de um rito de passagem. Assim, tanto na primeira quanto na segunda metades do livro, temos histórias que encenam a dor e a alegria da aprendizagem, da iniciação em um novo ciclo.

Também por isso, os contos vez ou outra ecoam a voz de Clarice Lispector, que Cíntia Moscovich soube incorporar à sua (quem sabe como forma de homenagem), na elaboração de uma escrita original. Ao mesmo tempo que são recorrentes no livro certos traços marcantes da obra de Clarice - a "epifania" do cotidiano (a revelação surgindo de onde menos se espera), a introspecção, o universo feminino, e até mesmo certas predileções, como a da jovem apaixonada pelo professor, o desnorteante contato com um homem cego (aqui, comendo castanhas) ou o mistério rondando o ovo e a galinha -, há também traços muito próprios, como o humor, o lirismo e certa fluência narrativa.

São sobretudo estes traços que dão à prosa de Cíntia Moscovich uma leveza que em nada compromete a densidade dos contos, bem pelo contrário, só faz realçá-la, à medida que torna ainda mais tocantes os momentos retratados.

A tudo isso se alia um outro fator, já ambíguo por natureza: a memória. Ao utilizar, na feitura das histórias, elementos de sua biografia, a autora se firma ainda mais na idéia de passagem sugerida pelo arco-íris. Sua origem judaica, sua formação acadêmica, pessoas marcantes de sua família são alguns dos dados da realidade transmudados para a ficção, figurando assim - pela criação de um objeto entre o real e o imaginário - a arquitetura do arco-íris anunciada no título.

O livro tem início com um conto antológico, no qual comparecem todos os aspectos apontados: O Telhado e o Violinista. Narrado em primeira pessoa, num discurso que às vezes assume o tom maduro da narradora, às vezes reencena o olhar infantil de quando tudo se passa, o conto remonta ao primeiro contato com a discriminação. "Judia suja" são as primeiras palavras da história, pronunciadas por outra criança, até então uma amiga. A narradora depara, então, com um peso ancestral e não sabe o que fazer com ele, "porque uma menina de nove anos apenas tem nove anos."

E nem o tema do preconceito nem o da morte, mais para o final do conto, serão tratados de forma estereotipada, como também não o serão o da saída de casa, em Cartografia, a velhice, em Os Laços e os Nós, os Brancos e os Azuis, ou a loucura, em O Arco-íris à Meia-Noite.

Em todos eles, corre uma espécie de rio silencioso, subterrâneo, levando sensações e descobertas, conduzindo os personagens de um plano a outro de suas vidas, numa espécie de intensidade para dentro, íntima. Todo rito de passagem, no livro, se dá em silêncio. Os contos se assemelham ao músico cego de Fantasia-improviso, homem de poucas palavras, "preferindo a intimidade do piano às conversas". Daí a recorrência, no livro, da palavra "silêncio", e também de outras duas: "partida" e "espera".

Silenciosos, atentos (sempre prontos, à espera), os personagens têm em comum o fato de estarem de partida. Partem, claro, sem sair do lugar, viajando ora ao passado, como em A Queda do Arco-íris e Bonita como a Lua, ora a uma promessa de futuro, como em O Tempo e a Memória, ora a algum espaço indefinido, nebuloso, onde algo está prestes a acontecer, como se lê em O Escândalo das Estrelas da Noite.

No conto Um Oco e um Vazio, a menina (ou já seria, a estas alturas, uma mulher?) acorda de um sono curto e sobressaltado e percebe que o homem ainda está ali, ao seu lado na cama, dormindo, nu. Embora pareça tudo igual, ela sabe que algo aconteceu naquele pouco tempo, desde o momento em que ele virou de costas para ela e adormeceu. Sabe que, justo nesse intervalo, "fez-se o movimento das miudezas."

É este mesmo movimento, breve e impactante, real e irreal como um arco-íris, que conduz as histórias do livro.






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