Críticas publicadas:

28/12/2005 - Capitu, por Manuel da Costa Pinto
Flutuações e retomada

28/12/2004

Flutuações e retomada

Edson Cruz
de São Paulo, especial para o Capitu

Os depoimentos abaixo são bem representativos do ano que se passou no mercado editorial e literário brasileiro. Um recorte que nos revela as dificuldades e esperanças geradas neste ano conturbado e agitado. Lê-se pouco no Brasil, é o que dizemos todos. Vende-se abaixo do que poderíamos e lança-se menos do que deveríamos, é mais um chavão. Mas, de maneira geral, parece-me que há alguma esperança. Muita coisa boa continua sendo produzida e lançada no mercado. A distribuição ainda é precária e os preços (cá entre nós) são altos. Como bem aponta o editor Claudio Varela, o fim das taxações sobre o livro, decretadas pelo governo, podem (e devem) mudar o panorama nos próximos anos. É o que todos esperamos.

Pelo visto estão todos se organizando, até os escritores estão abrindo canais de conversação com o poder. E isto é bom. Mas, como comenta o também editor, Angel Bojadsen, é triste ver uma livraria de rua fechando suas portas. Principalmente quando ela é na sua rua. A reflexão toda é muito bem-vinda, pois quem está do outro lado do fio é o leitor. E falando nesta "entidade" que muitas vezes é de difícil apreensão, notei que não o convidamos para esta discussão. É isso mesmo, leitor! Esquecemos de você. Mas ainda é tempo. O ano não acabou totalmente. Então, deixe suas opiniões e comentários em nosso blog antes de se esquecer de quem é no porre de passagem de ano. Ok?


MANUEL DA COSTA PINTO

O ano de 2004 foi marcado por duas comemorações importantes: os 450 anos da cidade de São Paulo (que catalisaram o primeiro semestre, com lançamentos de livros e eventos) e os 40 anos do golpe de 64. Um dos fatos mais importantes da história recente do país, o golpe é um divisor de águas, que assinala o colapso de um projeto nacional e nos joga de chofre nas tensões da pós-modernidade (entendida como fracasso do projeto moderno, racionalista, iluminista etc.). No entanto foi pouco tematizado literariamente. Daí a importância de três romances, lançados nesse ano, que representam as cicatrizes pós-64: “O Fantasma de Luis Buñuel”, de Maria José Silveira, “Não Falei”, de Beatriz Bracher, e “Na Teia do Sol”, de Menalton Braff.

Como acontece todos os anos, houve estréias notáveis e algumas confirmações de autores que se consolidam como vozes fortes na literatura brasileira contemporânea: no primeiro caso, destacaria Verônica Stigger (“O Trágico e Outras Comédias”), Marcelo Ferroni (“Dia dos Mortos”) e Maria Esther Maciel (“O Livro de Zenóbia”); no segundo, Paulo Rodrigues (“Redemoinho”) e Cíntia Moscovich (“Arquitetura do Arco-Íris”, na minha opinião, o melhor livro de 2004). Isso na prosa; na poesia, não me lembro de alguma estréia de forte impacto, apenas de livros que dão continuidade a trabalhos poéticos já conhecidos (e reconhecidos): uma antologia de Age de Carvalho (“Seleta”), a reunião, acrescida de um livro inédito, da poesia de Heitor Ferraz (“Coisas Imediatas”), um volume semelhante, também reunindo livros anteriores e poemas inéditos de Claudio Willer (“Estranhas Experiências e Outros Poemas”), e dois livros de Frederico Barbosa (“Brasibraseiro”, em parceria com Antonio Risério, e a antologia “A Consciência do Zero”).

Manuel da Costa Pinto, Jornalista escreve a coluna “Rodapé” do jornal “Folha de São Paulo” aos sábados.



ANGEL BOJADSEN

O ano de 2004 foi um ano de grandes flutuações. Maio a agosto foram preocupantes, depois, na medida em que íamos adentrando o segundo semestre, as coisas ficaram um pouco mais positivas. O mercado do livro sempre reage com defasagem: quando a economia vai mal, a cadeia do livro ainda se mantém um pouco, devido a seus nichos de mercado bastante consolidados. E quando há retomada econômica, demoramos um pouco mais, pois infelizmente neste país o livro não é um bem essencial.

Um toque alvissareiro é que depois de algum tempo de flutuação, o governo federal acabou encampando, em diálogo com o setor livreiro, algo que se assemelha a uma política para o livro, com a formação da Câmara Setorial do Livro e da Leitura, a desoneração da cadeia do livro de PIS/Pasep e Cofins, o engajamento de todo o setor do livro no Ano Ibero-Americano da Leitura a ser anunciado em 21 de dezembro pelo presidente Lula, e alguns outros sinais, como uma correção de rumo positiva nas compras do MEC.

Resta que ficamos entristecidos a cada vez que uma antiga livraria de rua fecha as portas, e isso ocorre quase diariamente, são o balão de oxigênio de que o ramo precisa. Capilaridade para a difusão do livro e da leitura é algo fundamental. E nesse sentido ainda estamos no aguardo de uma política mais orgânica e de longo alcance por parte do Ministério da Indústria e do Comércio. Alguns passos foram feitos no BNDES, gostaríamos que houvesse continuidade de política.

Nossa entidade, a LIBRE, se comprometeu a fazer sua parte. Além de colocarmos as Primaveras dos Livros sob a égide da leitura e de seu aprendizado, estamos elaborando com agências do governo federal uma caravana da leitura, por meio da qual iremos com editores e autores, além de livros, claro, a um certo número de assentamentos de sem-terra.

Destacaria ainda no ano os três primeiros colocados do Prêmio PortugalTelecom, todos com suas qualidades, mas definitivamente acho literatura de primeira o Macau, de Paulo Henriques Britto. Não lembro de uma única contestação a este prêmio, e não é toda dia que isso acontece.

Angel Bojadsen, Presidente LIBRE - Liga Brasileira de Editoras



PAULO JORGE

2004 considero como o ano da retomada de crescimento editorial no País. Pela necessidade de sustentabilidade muita inovação e planejamento em novos investimentos no mercado livreiro. Mais seriedade pelas editoras e mais sensibilidade nas livrarias. Só não cresceu neste mercado quem estava endividado. Para que seja sustentada essa situação neste ano de 2005, sugiro mais afinidade leitor-livraria-editora, com atitudes de ganho em conjunto, prestígio para o livro, este que sempre encantou e encantará nosso melhor convidado: O Leitor.
Boas Leituras

Paulo Jorge é um dos proprietários da Lector Livraria



CLAUDIO VARELA

Nosso atual mercado editorial é insuficiente ao tamanho e a importância do país, houve uma queda de 48% no faturamento das editoras entre 1995 e 2003, performance similar à quantidade de exemplares vendidos, que caiu pela metade conforme Fábio Sá Earp, do Grupo de Pesquisa em Economia do Entretenimento da Universidade Federal do Rio, a pesquisa mostra também que cada uma das 13 maiores editoras do mundo vende sozinha mais que todas as editoras instaladas no país juntas.

É por conta desse decréscimo que ocorre a seleção natural da competência onde só as empresas mais profissionais e antenadas conseguem sobreviver, e foi neste ano que grandes redes do país alteraram sua política comercial diminuindo as compras e aumentando as consignações, situação que vem a penalizar o pequeno editor que se não tiver fôlego financeiro ou errar a mão na edição engordará a lista de empresas que quebram antes de completar 2 anos de vida.

Nem tudo são trevas, foi justamente em 2004 que enxergamos a luz no fim do túnel para o mercado editorial, o anúncio feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci, decretando o fim de qualquer tipo de taxa ou imposto sobre o livro no Brasil, pode e deve mudar toda a história do mercado editorial para os próximos anos.

Claudio Varela é sócio da Varelabooks representação, que é responsável pela atuação comercial em todo Brasil de 6 editoras, é proprietário e editor da Sapienza editora, com linha editorial voltada para auto-ajuda e qualidade de vida.





Leia também:
Confira nosso Balanço das Letras de 2004

Próxima matéria:
Confira nosso Balanço das Letras de 2004


blog capitu
Participe você também dos debates do site Capitu


Opine, interfira, sugira!
Sua expressão é livre como um bumerangue. Participe!


<<voltar