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07/12/2005 - Diário de Pernambuco
Coletânea revela arco-íris existencialista de Moscovich

Diário de Pernambuco / Data: 7/12/2004
Coletânea revela arco-íris existencialista de Moscovich

Record lança livro de contos da escritora gaúcha e coloca no mercado edição revista do romance Duas Iguais

Augusto Pinheiro

Literatura "da exceção", como a própria escritora Cíntia Moscovich sugere em entrevista ao DIARIO, pode definir parte de sua escrita - que enfoca minorias discriminadas pela sociedade, como judeus e gays. Mas o termo não deve ser usado como um rótulo para reduzir sua literatura, até porque ela vai além desses temas e investe em diversas facetas do ser humano.

Integrante da chamada Geração 90, de (bons) autores que surgiram nessa década, a gaúcha acaba de lançar Arquitetura do Arco-Íris (Record), coletânea de dez contos. Todos são narrados por personagens femininos, de diferentes idades - da criança à idosa - e classes sociais, com problemas relativos a suas realidades distintas. Com tramas inventivas e uma escrita rica nas construções e no vocabulário, Cíntia consegue prender o leitor em enredos como o da menina judia que salva uma galinha e da filha que sai de casa porque não aguenta mais o clima de dor com a morte do pai.

"Tento me colocar na pele de cada uma das personagens", diz Cíntia, que nega - qualquer tachação de "literatura feminina". "É um termo redutor, não se pode classificar a escrita pela mão que é feita. Não tem gênero. Mas acho que existe o olhar feminino, pois a mulher tem uma percepção de mundo distinta da do homem".

A riqueza de idéias, descrições e definições aparecem em frases como "Beatriz sofrera a infância com a terrivel madurez de um adolescente e deciftara a adolescência com a impudica infantilidade de um adulto. Uma menina grande, cheia de exigências primárias e de supérfluos extraordinários", como escreve no segundo conto, Cartografia. Cíntia revolta, emociona, cria identificações. É uma escritora para ler e sentir, comumente comparada a Clarice Lispector, autora que retoma sempre em suas leituras.

O componente autobiográfico também está presente ("mente o escritor que diz que não tem"). Cíntia é judia de origem russa, então muitas histórias de sua família inspiraram sua literatura. "Existe também urna pegada judaica no livro. Um pouco do humor que sempre vi, com auto-ironia e auto-gozação. O judeu se diverte às custas da desgraça, que nunca é pouca", afirma.

A editora Record também acaba de reeditar Duas Iguais, romance de Cíntia originalmente publicado em 1998. A autora fez uma revisão da obra e reescreveu alguns trechos da história da relação amorosa entre duas adolescentes em plena ditadura brasileira. "Queria escrever o tema de uma maneira legal. Tenho amigos gays, e sei que existe uma segregação grande. Juntei também a questão dos personagens judeus", diz. A época em que se passa o livro foi também a da adolescência da escritora. "Veio naturalmente, já que foi um periodo de exceção e eu estava falando de coisas de exceção, como a homossexualidade".

Para Cíntia, "literatura é drama". "É falar dos problemas humanos, das coisas que estão acontecendo. A minha inspiração para essa história foi a situação que aconteceu com um casal de mulheres aqui em Porto Alegre. Uma delas estava muito doente e não podia usar o plano de saúde da parceira".

Editora de livros do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, Cíntia tem outros dois livros lançados, ambos de contos, O Reino das Cebolas (1996) e Anotações Durante o Incêndio (2000). Participou também de antologias, corno Geração 90: Manuscritos de Computador e a portuguesa Putas: Novo Conto Português e Brasileiro, e já prepara um novo romance, sobre a imigração judaica e o choque de culturas.



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