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20/03/2005 - Paralelos
Aquarela íntima


Aquarela íntima
por Ronize Aline


A escritora espanhola Rosa Montero diz que todo escritor tem seus fantasmas. São personagens, detalhes ou situações que o perseguem e aparecem em seus livros sem que, muitas vezes, ele mesmo se dê conta. No seu caso, são os anões. Também Cíntia Moscovich tem seu fantasma: um arco-íris que de forma onipresente permeia seus textos. Mas um arco-íris metafórico (embora apareça de forma nominal), cujas matizes não são de cores, e sim de sentimentos, num degradê que colore obras como Duas Iguais e Arquitetura do Arco-Íris (olha o fantasma aí mostrando a sua cara!).

Amor, prazer, alegria, medo, angústia, dor e ódio. Esses são os tons do arco-íris de Cíntia, mas nele os sentimentos nunca são planos, têm nuances, camadas, ora são opacos, ora cintilantes. A alegria, por exemplo, nunca vem sozinha. Há sempre um peso a acompanhá-la, algo como um prenúncio. E a autora faz uso dessas nuances para, sem constrangimentos, pintar com cores marcantes a voz feminina. Suas personagens estão sempre fazendo alguma travessia, de criança a mulher, da vida à morte, do amor ao ódio.

Duas iguais é um romance lançado pela primeira vez em 2000 e republicado pela Record. Poderia-se alinhá-lo à tradição dos ‘romances de formação’ (Bildungsroman), da qual fazem parte “Relato do artista quando jovem”, de James Joyce, “O apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger e “O encontro marcado”, de Fernando Sabino. Construído a partir de uma vertente feminina desses romances, Duas Iguais acompanha os anseios de Clara na sua trajetória de adolescente a adulta. Mulher, judia, apaixonada pela melhor amiga: Clara vai formando o seu ‘eu’ frente a todos os obstáculos que essas condições costumam enfrentar.

Num misto de romance e diário íntimo, o texto preciso de Cíntia marca alguns ritos de passagem: a descoberta atropelada do amor, a percepção do preconceito, a morte do pai, a perda da inocência. A personagem nos lembra a todo momento que não há amor sem medo nem mudança sem dúvidas. Clara está cheia delas e as expõe numa linguagem confessional e despudorada, variando de interlocutor ao longo da narrativa, ora conversando com o leitor ora com Ana, sua amada amiga.

Arquitetura do arco-íris é uma coletânea de contos que, em sua maioria, repete a linguagem confessional feminina e o faz com absoluto controle dos sentimentos que a compõem. Sentimentos esses que parecem cordas de violão tensionadas ao extremo e que, a um toque desconcertado, podem se romper. Por isso, é com muito cuidado que Cíntia vai construindo personagens que parecem estar sempre na iminência de uma perda. Não há como fazer perdurar os momentos, os sentimentos, que são como areia por entre os dedos escapando contra a nossa vontade.

Os contos demonstram a nossa fragilidade ao querer controlar os eventos e nossa incapacidade em lidar com suas conseqüências. Mas, assim como a autora é capaz de jogar a decepção no colo de seus personagens de forma tão delicada que quase parece camuflar a dor, também, com a mesma delicadeza, coloca o deslumbramento, a surpresa ao alcance de suas mãos. E, com sua matéria-prima preferida, os sentimentos, Cíntia demonstra como esses são capazes de atropelar os ritos sociais. No encantadoramente sofrido “O telhado e o violinista”, uma menina judia descobre da pior maneira o que é ser uma menina judia. Já em “Fantasia-Improviso”, a relação da personagem com um músico cego aponta para a ‘cortesia piedosa’ que costumamos ter com os deficientes. Muitas vezes Cíntia fala de situações incômodas, que gostaríamos de esconder debaixo do tapete, mas o faz colorindo-as com sua aquarela íntima. E isso faz toda a diferença.


Duas Iguais
Cíntia Moscovich
Record, 2004
253 páginas


Arquitetura do arco-íris
Cíntia Moscovich
Record, 2004
171 páginas


RONIZE ALINE

Ronize Aline nasceu em 1970, em Rio do Sul (SC), e desde 1988 mora no Rio de Janeiro. É jornalista, escritora, professora universitária e doutoranda pela Coppe/UFRJ. Atualmente mantém o blog Palavra&Tal em www.ronizealine.blogger.com.br



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:: março 20, 2005 12:08 AM




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