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03/112004 - Bravo!, por José Castello
Lembrar para esquecer

TÍTULO

Lembrar para esquecer



OLHO

Livros de Cíntia Moscovich e Livia Garcia-Roza transformam a memória numa mentira requintada e bela. Por José Castello



TEXTO

Dois livros, uma delicada reunião de contos de Cíntia Moscovich e um correto romance de Livia Garcia-Roza, retomam, com sensibilidade, a experiência da literatura intimista. Ambos se desenrolam a partir de inegáveis memórias afetivas e sensações reservadas, ou de sua simulação. Lembrar, sim, mas lembrar até do que não ocorreu e só para esquecer – esse é o salto que transforma as reminiscências em matéria de literatura. Ao contrário, a simples transcrição do que se passou, na esperança vã de reter a verdade, além de só interessar à vaidade de quem escreve, não configura uma criação.

Ainda que pura mentira requintada, os dois livros transmitem aquela deliciosa impressão da história exposta ao pé do ouvido, com sinceridade e coração aberto. Trabalham com vozes interiores, ecos que, verdadeiros ou falsos, caracterizam o que a tradição insiste em chamar de “literatura feminina”. Grande engano: basta tomar o exemplo de Clarice Lispector. Dita autora de literatura confessional, Clarice fez uma literatura que, no entanto, não deixa uma pista sequer sobre suas referências, não abre a guarda, em momento algum, de sua privacidade.

Os contos de Cíntia Moscovich ultrapassam, em muito, os clichês do feminino. “Não há escolha: estamos presos ao livre-arbítrio”, diz, por ela, o escritor judeu Isaac B. Singer já na epígrafe do primeiro relato. Por mais que um escritor se apegue às normas, estará condenado ao inferno da escolha pessoal, e é com o fardo, mas também a alegria do livre-arbítrio, que Cíntia trabalha.

Às voltas com sua identidade de judia, uma menina salva uma galinha que, presa na área de serviço, esperava, infeliz, a chegada de seu destino de ave – que é morrer para compor a ceia do Yom Kippur. Depois de perder o pai, uma jovem decide que chegou a hora de sua liberdade, mas não resiste à rudeza do mundo e volta para a mãe. Apaixonada por um cego, uma mulher define sua preferência pelo invisível. Outra, envolvida com o professor mais velho, um tradutor de Borges, nele descobre um tipo insuspeitado de beleza.

Depois da morte do amado, uma jovem rememora o que provou da felicidade. No inferno de um amor secreto, uma mulher se vê às voltas com a matéria das coisas, que é sempre precária e lastimável. Levando a mãe até o aeroporto, uma filha se depara, enfim, com o vazio. Outra velha mãe sofre de alucinações, fala com as paredes e já não sabe mais dizer em que medida é dona de si. São fatos modestos, experiências fugidias, que parecem insuficientes para um relato, mas que, nas mãos de Cíntia Moscovich, se transformam em puro ouro.

Mais seca e clássica, Livia Garcia-Roza segue, em seu romance, um caminho semelhante. O livro traz as memórias de infância de Leninha, uma filha de pais separados. O pai, Edilberto, homem de posses, namora uma mulher fútil, Miriam. Envolvida com astrologia e com drogas, a mãe, Helena, restringe sua vida afetiva, como diz a filha, a um “namorado no computador”. Ela recebe seus clientes em casa, para o desenho de mapas astrais. O mais assíduo deles, Seu Wanderley, é um homem doce que, por conta de uma velha ferida, parece imune às desordens do real.

Tarô, numerologia, astros e outras fixações contemporâneas formam o cenário em que a menina sobrevive e no qual a morte, sempre traiçoeira, não para de rondar. Ela se apega a uma boneca, Matilde, na verdade um manequim de loja. E ao sonho, inusitado, de possuir um pavão. Leninha narra sua história em ritmo lento, com as minúcias e as cintilações que costumam compor a realidade das crianças. É num mundo iluminado, ainda que indecifrável, que ela se move.

Ao desfiar as dificuldades da menina com o mundo, Livia, na verdade, trata do fardo do escritor em sua luta, sempre desigual, com a linguagem. É de acontecimentos comuns – uma festa de aniversário, a morte de um amigo querido, a monotonia da vida na fazenda, a primeira menstruação – que ela obtém aquilo que a vida tem de mais provocador. Seu romance expõe a força de uma literatura apegada às nuances da existência e ao inferno das pequenas coisas.



LEGENDA
De cima para baixo, Lívia e Cíntia: além dos clichês da “literatura feminina”



Os Livros

Arquitetura do arco-íris, de Cíntia Moscovich (172 págs., R$ 26,90). A palavra que veio do sul, de Livia Garcia-Roza (208 págs., R$ 28,90). Ambos lançados pela editora Record.





TRECHO 1

“Foi aí que aconteceu: a galinha me olhou. Um olho de esperança, como se eu tivesse algum poder messiânico. E as pupilas pretas da galinha, com um espanto de cera preso nas pálpebras amendoadas, pediam qualquer gesto redentor da criança que eu era. Amor de salvação era coisa de adultos. Mas houve um momento em que a bondade me ultrapassou, porque um dia eu seria mãe, e porque era filha e neta e irmã e sobrinha. Acocorada, repeti os mimosinhos e afaguei a crista sangüínea e tenra, a galinha deixando-se acariciar como se fosse um gato ou um cachorro. Como se não fosse uma galinha. Alguma coisa, em mim e nela, acontecia, algo que eu não chegava a entender a olho nu. Sei hoje que a galinha foi acometida de uma esperança difícil e torta, mas ainda assim esperança”. – Arquitetura do Arco-Íris



TRECHO 2

“Mamãe saiu do quarto e, voltando ao computador, desligou-o. Avisei que Marisa tinha telefonado, ela fez hum-hum e disse que queria conversar comigo. E, sentando no sofá, me fez sentar também e pegou minhas mãos; fungou, antes de dizer que não voltaria a fazer o que tinha feito. Andava com péssimos trânsitos, mas eles deviam sair em breve, e nas progressões seus aspectos eram geniais: conjunções, sextis, trígonos... Que eu não precisava mais me preocupar e que ela desejava ser uma boa mãe para mim, e era uma pena que não conseguisse, e as lágrimas deslizaram dos seus olhos e pararam perto dos buracos do nariz. E ali ficaram. Me soltei de suas mãos e fui buscar os guardanapos de papel em cima da mesa. Enxuguei o rosto dela e a beijei. Nos abraçamos, e ficamos quietas. Senti calor, mas achei melhor não me mexer. Uma caída na outra, ouvindo um coração bater junto com o outro, igual ao relógio de oito na parede da sala”. – A Palavra que Veio do Sul









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