Críticas publicadas:

27/julho/2005 - Aplauso Brasil, Oscar Bessi Filho
As linhas e entrelinhas de uma arquiteta do arco-íris

As linhas e as entrelinhas de uma Arquiteta do Arco-Íris






17:39 27/07


Oscar Bessi Filho, para o Aplauso Brasil


MONTENEGRO - Gaúcha de Porto Alegre, Cíntia Moscovich é contista, romancista e mestre em teoria literária, além de jornalista. É autora dos livros Arquitetura do Arco Íris, Duas Iguais, O Reino das Cebolas e Anotações Durante o Incêndio. Foi diretora do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. Em 1995 ganhou o Concurso de Contos Guimarães Rosa, da Rádio France Internationale, em Paris. Teve textos de sua autoria publicados em antologias e coletâneas e foi traduzida para o inglês.


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A escritora Cíntia Moscovich tem uma trajetória recente, mas de sucesso. Seu primeiro livro, O reino das cebolas, lançado em 1996, reuniu contos com temáticas e técnicas narrativas que vão do fluxo de consciência ao conto sem personagem. A obra, em sua grande parte, conta com textos produzidos na Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, e ganhou indicação para o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.

Em 1998, Anotações Durante o Incêndio traz um conjunto de onze contos, nos quais a autora percorre as mais variadas possibilidades narrativas. No mesmo ano, lançou o delicioso Duas Iguais, relançado em 2004 pela Record, romance que conta a história de um amor homossexual sem recorrer a engajamentos ou a um manual de bons modos. Duas adolescentes, Clara e Ana, se envolvem, convivendo numa escola judaica, fato que gera uma série de confrontos. Enquanto Ana se auto-exila em Paris, Clara penetra, pouco a pouco, nos umbrais do mundo adulto. Por força das circunstâncias, Clara e Ana voltam a se encontrar. O livro venceu o Prêmio Açorianos e Narrativa Longa em 1999.

Em Arquitetura do Arco-Íris, suas estréia na Record, Cíntia transcende suas origens judaicas e transita da mais singela observação às mais cruentas, doloridas e áridas sensações humanas. O livro é considerado um dos melhores lançamentos de 2004 pela crítica especializada.

Abaixo, a entrevista que Cíntia Moscovich gentilmente concedeu a Oscar Bessi Filho, do Aplauso Brasil (http://www.aplausobrasil.com/ ):

Aplauso Brasil: Cíntia, o leitor que te acompanha – inclusive em teu blog – sabe do fluir produtivo intenso que te insere – justamente - no restrito clã de autores consagrados em nossa literatura. Ou seja, o ofício de escrever está naturalmente em ti, e há muito. Freqüentaste a Oficina Literária do Luís Antônio Assis Brasil, correto? Foi aí teu começo? Até que ponto isto foi determinante em tua carreira como escritora? Aconselhas oficinas aos que pretendem se iniciar na aventura da escrita?

Cintia - Sou oficineira do Assis, sim, da turma 17, entre os anos de 1995 e 1996. Pode-se dizer que meu começo foi lá, naquelas aulas das terças-feiras, as melhores de minha vida. Foi um mundo novo, com o perdão do clichê, além de ter interlocução preciosa de meus colegas. Lembro que o Assis, durante a oficina, me disse que eu já era uma escritora e, até hoje, ele afirma que minha carreira teria deslanchado, mesmo sem freqüentar suas aulas. O Assis, sempre generoso. Talvez eu deslanchasse mesmo, mas demoraria, por baixo, um período de tempo insustentável. A oficina atalhou o caminho, aquele de experimentar, de se aprender com as faltas e as besteiras. Claro que sigo com faltas e besteiras, mas pelo menos, tento me esquivar delas com o olho que me deu a oficina. Eu sugiro a oficina sempre, e tenho uma oficina eu mesma. Creio que a grande vantagem de um laboratório de escrita é a reunião de gente que ama a literatura e que está disposta a aprender. E a lição máxima da oficina é aprender a ouvir e a conviver com pontos de vista que às vezes discordam daqueles que a gente acalenta como filhos. Não tem jóia maior para um autor do que a dúvida, a incerteza que semeia a humildade, virtude maior de um autor. Mais do que certezas, a oficina inquieta e desacomoda. E enche a gente de dúvidas. A prepotência da certeza é abalada no cotidiano das aulas. E a humildade vem de se estar disposto a aprender e ouvir a opinião alheia.

Aplauso Brasil: A produção literária está trazendo uma constante e crescente diversidade, uma amostra disso é o livro Geração 90: Manuscritos de Computador, do qual participas. Teus contos se destacam pela linguagem cuidadosa, um erudito que passa a léguas do pedante, mostrando um lapidar cuidadoso, denso e que se fortalece na própria língua, além da magia do que se conta. Como tu vês o nosso caminhar literário, em termos de estilo? Determinadas inovações que se pretendem literatura, transformando a linguagem - vide algumas práticas de internet – são válidas? E poderão se impor sem prejudicar a arte escrita?

Cintia - Não sei te responder, porque o que se vê é muita coisa boa mesclada a muita coisa ruim. Mas isso, bom ou ruim, é opinião minha e pode não pertencer ao reino da verdade ou ao gosto comum. Eu tento, na medida do possível, atender a meu próprio apelo estético, mas não posso impô-lo aos outros, muito menos tecer juízos de valor com base no que gosto e não gosto. Creio que tudo é possível, e tudo é mesmo possível, se a gente, na internet ou em qualquer outro meio, conseguir um resultado bom e satisfatório. E o bom e satisfatório vai ser balizado pela opinião dos leitores. O que mais me chateia não são as tais inovações de que falas, e que são sempre bem-vindas. O que me chateia mais do que tudo é gente escrevendo para seu próprio umbigo, sem ter na mira um leitor. É uma armação meio esquizofrênica: escreve-se para si mesmo, uma independência que deve existir, claro, mas que nunca deve ser absoluta. Assim, eu acho que a internet, e os blogues de maneira geral, são um campo a ser explorado. A gente aprende a escrever escrevendo, a gente inova ao escrever. Mas a grande transgressão é contar uma boa história. Do jeito que for. Mas que seja boa.

Aplauso Brasil - O Reino das Cebolas, teu livro de estréia, já, de cara, ganhou indicação ao Jabuti, o mais prestigiado prêmio da literatura nacional. Isso te surpreendeu? Como é arrancar assim, já de forma contundente e vitoriosa? Antes de lançá-lo, sobrevivia alguma dúvida em relação à chegada da Cíntia escritora? E depois?

Cintia - Bem, acho que já te respondi em parte a pergunta. Mas, de fato, a indicação ao Jabuti e algumas resenhas elogiosas me pegaram de surpresa. Mesmo porque custei muito a me considerar uma escritora — considerar-se escritor é um peso danado, sabia? A indicação ao Jabuti e algumas resenhas me assinalaram um bom caminho. Eu podia perseguir a carreira literária. Mas, para isso, tinha de sair do primeiro livro, sair do susto de já ter iniciado algo, quando pensei que a vida inteira eu estaria tentando. E, claro, a vida inteira eu estou tentando e tentando. O início foi assombroso. E o assombro continua, mesmo porque se é obrigado a se superar a gente mesmo. O grande livro está sempre por vir, sempre é futuro, nunca é agora, o que se fez e se publicou é o ensaio para alguma coisa que vá se inscrever na biografia da gente como a famosa obra-prima. A pergunta de sempre é: e agora?

Aplauso Brasil - Uma belíssima história de amor é retratada em Duas Iguais, na relação homossexual entre Clara e Ana situada numa comunidade judaica de Porto Alegre. Mesmo trabalhando conflitos múltiplos, o livro surpreende pela isenção, pela espontaneidade com que flui sem se fazer doutrinador ou militante. O amor é mostrado de forma natural, como todo e qualquer amor, e talvez esteja aí seu grande e mágico segredo. O que te estimulou a escrevê-lo? Causou-te algum problema (polêmica) sua receptividade? Considerou tua mensagem compreendida pela crítica?

Cintia - Comecemos pelo final. Não tinha lá uma mensagem para ser compreendida. Eu queria escrever, e escrever uma história de amor, se possível, coisa difícil, porque sempre se topa com o clichê, com o tom choroso. Um amor homossexual no seio de uma comunidade judaica era a chance de falar de amor. De falar de gente, que era o que me interessava. Diluindo o drama em vários dramazinhos, como é a vida da gente, eu podia fazer algo melhor, fazer da minha escrita algo parecido com a existência. O livro foi bem-recebido, a crítica gostou, os leitores gostaram, felizmente. Houve alguns problemas de comunicação, de as pessoas confundirem o narrador com o autor. Sofri assédios, pedidos de participação em eventos de militância homossexual. Sem ter a menor tarimba para a coisa. Mas, como não queria deixar de atender aos convites, tratei de usar a lógica e o bom senso. Logo me livrei da aura de expert em homossexualidade, porque sempre consegui ultrapassar o gueto e fazer ver que a humanidade é maior do que indivíduos isolados. Com minha família, foi mais fácil. Foi só reunir irmãos, mãe e marido e avisar que vinha chumbo grosso. A mãe, claro, saiu com as mãos na cabeça, se lamentando. Meus irmãos falaram que eu não tinha jeito mesmo. E meu marido falou que, por ele, tudo bem. Eram as únicas pessoas a quem devia explicação. Depois, me convenci que só tenho compromisso com meus leitores.

Aplauso Brasil - Já citaste Lya Luft e Clarice Lispector, Machado de Assis e Assis Brasil como tuas influências. Além de, é claro, Moacyr Scliar. Com este, nitidamente, tens mais que afinidade literária: há a questão judaica como intersecção entre a vida e a obra de ambos. Consideras que, em Arquitetura do Arco-Íris, quando acabas transcendendo as marcas de tua origem (proposital para a estréia numa grande editora nacional?), é justamente onde esta relação de afinidade fica mais evidente?

Cintia - É difícil dizer. Acho que o autor, qualquer um, está marcado por suas leituras e pelo peso da herança do Ocidente. Não é uma relação sempre aparente, mas é determinante. Não segui um projeto de me "descolar" de minha origem ao escrever "Arquitetura do arco-íris". O que aconteceu foi que, na busca de novas possibilidades, os assuntos se ampliaram, os narradores ficaram mais assanhados, a mão mais livre para escrever. E que fique claro: não tenho nenhum problema de ter influência deste ou daquele autor. Quero é ter afinidade com meus amados, e com outros que ainda não amo.

Aplauso Brasil - Quem é Cintia Moscovich, a Arquiteta do Arco-Íris? O que te faz sorrir, o que te irrita? Como acontece a tua criação? O que os leitores podem esperar, para correrem às livrarias, em futuro breve?

Cintia - Bem. Fui guindada ao posto de arquiteta, vê só isso. Mas aceito, no sentido de ter construído, bem ou mal, uma estrutura narrativa. Isso me alegra, me seduz. Sentar e escrever e poder montar um mundo são coisas que me alegram sobremaneira. Assim como me alegra o convívio com pessoas queridas, aquelas relações de troca nas quais os afetos imperam. E nas quais o bom humor está presente. O que me irrita profundamente é a prepotência e a incapacidade de rir. O mundo está cheio de pessoas que se levam tão a sério que perderam a capacidade de achar humor nas coisas. Me irrita profundamente isso, de as criaturas se acharem o centro do universo e não darem a mínima para aqueles que estão junto, no mesmo espaço e no mesmo tempo. Gente mesquinha, que invade a privacidade alheia, que faz com que a necessária solidão seja interrompida porque elas precisam de alguma coisa, que tem de ser já, agora, depois não dá. Isso me cansa um pouco. Agora, estou numa tarefa meio complicada, que me impus a mim mesma, que é uma Carta à mãe, baseada na "Carta ao pai", de Kafka. Não que queira me comparar com o gênio, mas quero fazer algo que possa dizer ao coração de quem tem mãe. Trabalho penoso, longo, meio dramático demais. Assim que eu conseguir sair da minha biografia e fazer ficção, comemorarei.

Saiba mais sobre a autora e sua obra em:
http://www.cintiamoscovich.com/
http://www.record.com.br/
http://www.lpm.com.br/








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