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23/04/2005 - O Globo _ Prosa & Verso (por José Castello)
Vozes distintas - A literatura sem enquadramentos

Vozes distintas - A literatura sem enquadramentos

José Castello

Volto sempre ao mesmo, e definitivo, critério, absolutamente pessoal, quando tenho que decidir sobre a qualidade de um livro: penso no impacto, ou, ao contrário, na indiferença que senti durante a leitura. Livros só existem na cabeça do leitor; livros fechados não passam de um punhado de papel cheio de letras.

Ao contrário da poesia brasileira de hoje, em geral cerrada em si mesma, e refém de releituras, citações e tradições, nossa prosa queima, viva, nas mãos do leitor. Ninguém sai serenamente de um romance de João Gilberto Noll, de Raduan Nassar, ou de Marcelo Mirisola. Alguma coisa sempre choca e perturba quando lemos um livro de Raimundo Carrero, de Cristóvão Tezza, de Chico Buarque, de Sérgio Sant’Anna.

Colisão com o quê? Creio que com o mundo particular, e inesperado, que cada um deles descortina. Impacto: é que ali somos, de repente, lançados. Hoje, caminhos diferentes são praticados por escritores muito diferentes entre si, sem que se possa apontar uma tendência dominante. Os grandes narradores surgidos a partir dos 70 não estão preocupados com o espírito de escola. Como classificar autores como Milton Hatoum, Amílcar Bettega Barbosa, Bernardo Carvalho, Silviano Santiago, Fernando Monteiro, Luiz Ruffato? Nada têm em comum, a não ser o fato de serem prosadores.

Existe, contudo, um grupo mais juvenil que continua a se pautar — mal de poetas — pela idéia fixa da transgressão. Mesmo escritores já consagrados, como Bernardo Carvalho, se guiam pela velha tradição de romper com a tradição. No caso de Bernardo, me parece, este é o último obstáculo para que ele se torne, de fato, um extraordinário escritor. Seu melhor livro, “Nove noites”, é também o que mais se afasta da obsessão pelo experimento e, é bom acrescentar, o que mais se aproxima de sua experiência de jornalista.

Prefiro aqueles que, como Sérgio Sant’Anna, se obrigam, a cada livro, a romper consigo mesmos. Por isso, sempre que me perguntam sobre a “nova prosa brasileira” me contraio, um pouco indisposto. Nessa pergunta, vem encravada a esperança, ingênua, da descoberta de uma nova escola.

Escoteiros, e não escritores, andam em grupo. Penso em autores jovens, e solitários, como Joca Reiners Terron, Jorge Cardoso, ou João Paulo Cuenca. Em outros, mais experientes, mas igualmente aferrados à própria solidão, como Bernardo Ajzemberg, Cíntia Moscovich, Rubens Figueiredo e Lívia Garcia-Roza. Como alinhá-los? E isso, se possível for, tem algum interesse?

O que a idéia de uma “nova literatura” realmente significa? Perguntando de outra maneira: o que a literatura de Terron tem a ver com a de Cuenca? Em que um romance de Ajzemberg se parece com uma narrativa de Cíntia Moscovich? Aos inspetores de escola, a constatação pode trazer desesperança. A mim, não. É justamente na impossibilidade de fixar padrões e delimitar tendências, é na resistência ao qualquer enquadramento que está, me parece, a fertilidade da prosa brasileira.

Penso em Marcelo Mirisola, com sua escrita de aparência suja e incorreta, mas muito refinada, um escritor cujos livros provocam tanto mal-estar quanto os romances curtos, mas mortais, de João Gilberto Noll. Penso no modo livre com que Luiz Ruffato, Amílcar Bettega Barbosa, Luis Antonio Giron e João Paulo Cuenca, cada um a seu modo, se põem a escrever. Em particular, em talentos ainda não muito conhecidos, como Michel Laub, Nilza Rezende, Altair Martins e Tatiana Salem Levy. Leiam seus relatos, são muito bons. Como classificá-los, como enquadrá-los? Talvez essa impossibilidade se deva, antes de tudo, a seu modo desprendido, e nada servil, de agarrar o mundo.

Infelizmente, eles são exceções na prosa mais jovem, dominada, ainda hoje, é verdade, por um modelo parecido com aquele que, nos anos 70, norteou os poetas da “geração marginal”. Não penso só na escolha (muitas vezes, imposição) das pequenas casas editoriais, mas também no apego ao cotidiano, à confissão direta e abundante, à linguagem oral — que agora é, sobretudo, a linguagem da internet.

Mas penso, ainda, naquele outro grupo, jovem também, que faz o movimento oposto, isto é, que pretende ir da escrita para as telas — de cinema, ou da TV. Nesse caso, Patrícia Melo é o grande paradigma. Pois prefiro a postura de um “escritor tardio”, e que pratica um gênero menosprezado, o romance policial, como Luiz Alfredo Garcia-Roza, que só começou a publicar depois dos 60 anos. Melhor que os meninos, ele não perde de vista o que a literatura tem de específico. Muitas vezes é mais sábio esperar.

Uma prosa de fissuras e arrebatamento

A melhor prosa brasileira investe, hoje, na fragmentação, na perplexidade, nos sentimentos fortes e, como já notou o mais esperto de nossos jovens críticos literários, Manoel da Costa Pinto, se aproxima muito da poesia. Um romance de Noll produz a mesma espécie de perturbação e de elevação que a leitura de um poema de Drummond, ou de Vinicius. Mais que isso: nos obriga a perguntar em que medida ele não “é”, também, um poema.

Mesmo quando trabalha com a chamada linguagem prosaica, como nos casos exemplares de Cristóvão Tezza e de Bernardo Ajzemberg, essa prosa se apresenta cada vez mais quebradiça e esfumaçada. Os autores de hoje são, provavelmente, menos arrogantes. É uma literatura de fissuras e de arrebatamento, e não de claridade e de ação.

Felizmente, e enfim, nossa prosa é, hoje, mais cosmopolita e menos folclórica. Se a referência ao mundo contemporâneo está sempre presente, ela é cada vez mais turva, mais ambígua, menos precisa — o que suspende as certezas do leitor, que já não pode mais confiar nem em quem narra, nem em quem escreve. Lançados no mesmo desamparo, escritor e leitor estão, enfim, em pé de igualdade. E aqui a coisa começa a funcionar.

É, por isso, uma ficção cheia de impurezas e que não suporta nem o beletrismo, nem o experimentalismo — que, no fundo, são esnobes e iguais. Um emaranhado de vozes, e de estilos, e de perspectivas que, no fim das contas, atesta a força de uma literatura.
JOSÉ CASTELLO é jornalista

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