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01/02/2005 - Estado de Minas, por Carlos Herculano Lopes
Pampas rompem fronteiras

Pampas rompem fronteiras
Escritores do Sul do País extrapolam seus territórios e têm livros publicados por grandes editoras nacionais. Destaque para o Rio Grande do Sul, em maior escala, e para o Paraná


Carlos Herculano Lopes





Divulgação / Renato Stoduto







O poeta Fabrício Carpinejar acredita que a passionalidade seja a vocação do Sul

De uns tempos para cá, vem acontecendo uma verdadeira explosão da literatura do Sul no restante do País, especialmente aquela feita pelos novos escritores do Rio Grande do Sul, em maior escala, e, também, do Paraná. Autores até então restritos às fronteiras gaúchas, como Cíntia Moscovich, Fabrício Carpinejar, Marcelo Carneiro da Cunha, Juremir Machado da Silva, Luís Antônio Giron, Luiz Paulo Faccioli, Daniel Galera, Letícia Wierchowski, só para ficar nestes, estão sendo publicados por grandes editoras do eixo Rio-São Paulo, como a Record, a Companhia das Letras, a Objetiva, Bertrand Brasil, entre outras.

Uma das explicações para esse fenômeno, que tem feito com que os olhos do Brasil se voltem para as letras dos Pampas, é dada pelo professor e ensaísta Flávio Loureiro Chaves, atual coordenador do programa de pós-graduação em letras da Universidade de Caxias do Sul. De acordo com ele, que é autor de Érico Veríssimo: o escritor e seu tempo, no qual traça a trajetória do autor de O tempo e o vento a partir dos anos 50 e 60, do século passado, houve uma geração literária muito forte no Rio Grande do Sul, da qual eram expoentes, além do próprio Érico, autores como Dionélio Machado, Mário Quintana, Reinaldo Moura, Ciro Martins etc, que estabeleceu parâmetros altos, fazendo com que nada que surgisse em seguida estivesse no mesmo patamar de suas obras.

"Foi necessário então que transcorresse mais de meio século para que se desse uma renovação do processo literário gaúcho, em relação a esse padrão de excelência. E isso está ocorrendo agora, com um novo espaço histórico sendo aberto para expressões originais", diz Loureiro Chaves, que entre os novos expoentes da literatura dos Pampas cita, além do poeta Fabrício Carpinejar, Assis Brasil, com seus romances históricos, e ainda as novelas de Cíntia Moscovich. São autores que, de acordo com ele, "já não padecem da inibição provocada pelos grandes textos escritos por nossos autores dos anos 50 e 60 do século XX". De certa forma, também, segundo o professor, isso ocorreu na literatura brasileira como um todo. Ninguém que pertenceu à geração pós-Guimarães Rosa e Clarice Lispector foi capaz de criar obras que se igualassem às deles.

Autonomia Quem também está atendo a essa avalanche literária do Sul é o romancista e crítico literário José Castello, que já há mais de dez anos está vivendo em Curitiba. Para o escritor, que é autor de Fantasma, existe no Rio Grande do Sul um sentimento muito saudável, que é o de preservar a cultura e a autonomia locais. E se isso, a princípio, pode ser visto como uma coisa fechada e regionalista, na verdade não é bem assim, pelo menos em se tratando das letras. "No Rio Grande, hoje, faz-se uma literatura pluralista e sofisticada, que tem produzido escritores de estilos próprios e inconfundíveis, como João Gilberto Nool, Lya Luft, Moacyr Scliar, entre outros, todos de vôo próprio, cujo trabalho é pautado pela diferença", afirma Castello. Dos novos, ele cita a poesia de Fabrício Carpinejar, autor, entre outros, de Cinco Marias.

Já no caso do Paraná e, especialmente, de Curitiba, que segundo ele é uma cidade muito introspectiva, há muita gente produzindo boa literatura, embora ela ainda não tenha alcançado a mesma visibilidade da gaúcha. "Apesar de a maioria dos grandes escritores daqui, como Dalton Trevisan, Cristóvão Teza, Wilson Martins, Valêncio Xavier, Wilson Bueno, entre outros, publicarem seus livros em editoras do Rio e São Paulo, surgiram, nos últimos anos, alguns catalisadores, que vieram ajudar a combater a dispersão: o suplemento Rascunho, que, hoje, é uma grande aventura literária, e a Travessa dos editores, dirigida pelo escritor Fábio Campana, que edita a excelente revista Etecetera", afirma José Castello. Ele cita, ainda, no Paraná, a literatura de Miguel Sanchez Neto e Décio Pignatari, um paulista que vive em Curitiba.

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Cíntia Moscovich estreou em Porto Alegre com o livro "No reino das cebolas"

Uma das autoras gaúchas que começa a alcançar ressonância nacional é Cíntia Moscovich, que estreou em 1996, lá mesmo em Porto Alegre, com o livro de contos O reino das cebolas. Há algum tempo, a Editora Record, que está investindo pesado nos novos autores do Rio Grande do Sul, lançou mais dois livros da escritora: o volume de contos A arquitetura do arco-íris e o romance Duas iguais. Vivendo em Porto Alegre, ela afirma que sempre existiu uma efervescência literária muito grande no seu Estado, reforçada há cerca de 20 anos, a partir da experiência bem-sucedida de uma oficina mantida por Assis Brasil na PUC Rio Grande do Sul. "Vários autores da minha geração, como Letícia Wierchowski, Amilcar Bettega e eu, que, agora, começam a alçar maiores vôos, iniciaram-se nessa oficina", afirma Cíntia Moscovich.

Para ela essa explosão da nova literatura gaúcha em nível nacional, que começou há pouco mais de um ano, deve-se, também, em parte, ao enfraquecimento das próprias editoras da terra e, ainda, a um nicho de produção literária muito forte que existe por lá e estava precisando se expandir. "Quando Luciana Villas-Boas, da Record, ficou sabendo disso, pegou um avião lá no Rio e veio nos buscar", conta a escritora. Na sua bagagem, Luciana levou, além de Cíntia Moscovich, autores como Marcelo Carneiro da Cunha, Luiz Paulo Faccioli, Juremir Machado da Silva, Luiz Antônio Giron e outros, todos com trabalhos lançados pela editora carioca.

Preparando-se para publicar seu novo livro, que irá sair em abril pela Bertrand Brasil, o poeta Fabrício Carpinejar concorda com Cíntia Moscovich em relação à Oficina Literária de Assis Brasil, que, segundo ele, ajudou, e muito, na formação desses novos autores gaúchos. "Somos uma geração de garra, que não se acomoda com o livro, porque estamos mais preocupados com a própria literatura. Também queremos nos fazer compreender, nos fazer sentir e provocar sentimentos", afirma Carpinejar, para quem tudo no Rio Grande do Sul acontece de forma exagerada. "A passionalidade é nossa vocação", finaliza.


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