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16/06/2005 - Revista 18, por Moacir Amâncio
Amálgama de descomedimentos

Amálgama de descomedimentos

Moacir Amâncio lê livro de contos de Cíntia Moscovich e encontra um universo complexo de notações psicológicas, nas histórias de três gerações de imigrantes judeus


Olho 1: Moscovitch é neste livro, sobretudo, escritora das notações psicológicas sutis, com aberturas para o humor, a ironia e a complexidade das emoções infantis


Norman Mailer faz em um de seus ensaios a defesa do romancista, em detrimento da figura do contista. Segundo ele, em resumo, o contista prova que é bom num texto curto, presumindo que a extensão exija pouco tempo para realizá-lo. Acertou uma vez é suficiente, enquanto o romancista precisa provar o talento todo dia, ao longo de meses ou anos, caso contrário seu livro não se sustentará. Mailer gosta das frases de efeito, mas dessa vez apenas revela um equívoco, que não é exclusivo dele: mede as coisas pela quantidade. Alguém pode escrever um bom conto de estalo, mas nunca por acaso. Esse estalo só virá com a prática minimalista da observação da vida e da montagem literária. É um domínio nem sempre aberto ao romancista – nele se instala a gaúcha Cíntia Moscovich, autora de Arquitetura do Arco-íris (Record, 171 páginas).
Não se trata de um primeiro livro, mas o leitor não precisa conhecer as obras anteriores para saber disso. A firmeza e o ritmo das frases e a unidade da série de contos atestam maturidade artística. Frases bem calibradas revelam a busca de ajuste do termo ao clima – Moscovitch é neste livro, sobretudo, escritora das notações psicológicas sutis, com aberturas para o humor, a ironia e a complexidade das emoções infantis, com seu amálgama de descomedimentos e fantasias – de resto, ensaio doloroso para a vida adulta. De início, a autora demonstra gosto e jeito para a construção de intrigas. No entanto, isso desaparece com rapidez nas histórias seguintes, a trama cede terreno aos momentos de concentração psicológica expressos com elegância e pontualidade, mantendo sempre a boa urdidura das narrativas.
O livro é um projeto e assim deve ser lido. Todas as histórias incluídas são necessárias na dialética do universo criado pela ficcionista, que parte da temática judaica de uma família imigrante até a terceira geração: o encontro com o anti-semitismo potencializado pela perversidade infantil é a medida do mundo também num sentido alegórico, pelo seu conteúdo universal. O humor, o drama, a comoção se sintetizam na esplêndida figura da bobe, a avó, em defesa da neta agredida de fato e simbolicamente. Aí está lançada a questão do desajuste, do mundo às avessas, certo para todos, menos para os “eus” que povoam os contos de Moscovitch. O título O Telhado e o Violinista é uma referência à cultura ídiche transplantada para o sul do Brasil e já interessa a todos que se preocupam com a literatura de imigração no país. Interesse que se acrescenta ao aspecto literário.
Como indicação de que se trata de um conjunto planejado e não de uma coletânea de textos avulsos, temos o retorno à questão familiar judaica no último conto, Bonita como a Lua, talvez de inspiração autobiográfica, em que a narradora fala sobre a paixão pela escrita e os pequenos desastres de sua vida, resolvidos enfim no pequeno milagre que é a literatura – o poema de Drummond sobre o gauche pode ser ouvido em surdina. Essa história também se inscreve no mesmo circuito da imigração, com outros componentes, o chinês e o francês, mais o idioma inglês, num cenário em que o nacional se dilui. Há um momento especialmente divertido, em que a escritora faz um jogo (página 158) com a palavra “esquisito” usada em seu sentido primeiro, de delicado, delicioso, referindo-se a guloseimas e o atualmente usual, de estranho – os petiscos são oferecidos pela professora chinesa. É o humor dentro do próprio idioma se abrindo em conotações.
Essas narrativas são experiências de sintonia fina e cada leitor elege suas ligações preferidas. Numa primeira leitura destacam-se, por exemplo, textos como Um Oco e Um Vazio, sobre a iniciação feminina, o amor platônico entre uma jovem e o homem velho “órfão” do filho para sempre “desaparecido” pela mãe (quem será aquele homem jovem com quem a personagem feminina se relaciona sexualmente? – a pergunta fica tensa no ar solitário do cemitério israelita), a volta dos assuntos de família no centro, talvez, da melhor história do volume, esse antológico Os Laços e os Nós, os Brancos e os Azuis, de ressonâncias machadianas e onde a autora se realiza a cada frase, construindo seu conto em torno da sutileza de um reflexo. A força de sugestão está na tônica de seus contos. Sim, os contos de Moscovich são contos. A redundância da frase é só aparente quando a definição do gênero se torna ela própria juízo de valor: temos aqui uma rara contadora de histórias.

Moacir Amâncio é professor de língua e literatura hebraica da USP e autor de Contar a Romã e Óbvio (poemas), publicados pela Globo e Travessa dos Editores, além de outros títulos.



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