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05/10/2004 - Diário Catarinense
Coreografia dos gestos cotidianos

Florianópolis, 05 de outubro de 2004. Edição nº 6748

Literatura
Coreografia dos gestos cotidianos
Ninguém pode saltar sobre a própria sombra nos contos do novo livro de Cíntia Moscovich, Arquitetura do Arco-Íris
MANUEL DA COSTA PINTO/ FOLHAPRESS/DC/SÃO PAULO




Em O Telhado e o Violinista, primeiro conto do livro Arquitetura do Arco-Íris, de Cíntia Moscovich, uma menina ouve da vizinha o impropério: "Judia suja". A frase inaugura em sua vida as memórias do povo judeu e do anti-semitismo, que a avó e o pai lhe explicam.

Mas a tradição também tem os seus holocaustos. Quando chega o Yom Kippur (Dia do Perdão), a menina quer interromper os ritos religiosos e impede que a avó sacrifique uma galinha - que logo dá à luz um pintinho que se torna o centro da vida doméstica.

A vizinha anti-semita, investida do espírito dos cossacos que realizavam "pogroms" no Leste Europeu, seqüestra o pinto, gerando uma briga rocambolesca que culmina com a oração "Shemá Israel", recitada pela família ao redor do cadáver do galináceo.

Ao final, quando a filha pergunta por que aquilo havia acontecido, o pai responde: "Às vezes não existe por quê" - ecoando pateticamente a frase que o escritor italiano Primo Levi ouviu de um guarda da SS em Auschwitz: "Aqui não existe por quê".

Em Cartografia, a mecânica repetitiva do cotidiano catapulta a protagonista para fora da vida familiar. A casa enlutada pela morte do pai, a mãe que alterna audições de um vinil de Caruso a uma "ladainha constante sobre a infelicidade que lhe tocava no mundo", compõem um ambiente submerso num desespero sem comoção: "No rosto de minha mãe, uma cartografia de desgraças".

A protagonista rompe com essa resignação monótona. No estudo da literatura e no apartamento que divide com uma amiga, descobre simultaneamente um mundo e uma sexualidade alternativos - até o momento em que reconhece, nos traços da mulher que a abandona, a mesma "cartografia de desgraças" cuja força centrípeta a conduz de volta à casa materna e a uma desolação que se afigura como destino: "Agora, além de órfã de pai, eu era como minha mãe: viúva".

O resumo desses dois contos, pequenas obras-primas de ironia e sensibilidade, não estraga em nada as surpresas contidas no novo livro de Cíntia Moscovich (que também acaba de reeditar, pela Record, o romance Duas Iguais). Sua literatura poderia ser classificada como "feminina" - e estão lá, para comprovar isso, contos como Bonita como a Lua (narrativa autobiográfica e bem-humorada sobre uma menina desajeitada nas aulas de piano e balé, mas com talento para a escrita) ou Um Oco e um Vazio (impressionante relato de uma cena de coito, que evita qualquer palavra associada a sexo).

Mas se a sua percepção de mundo é feminina, o é apenas na medida em que ninguém pode saltar sobre a própria sombra.

Pois Cíntia Moscovich faz da coreografia dos gestos cotidianos, dos arrebatamentos e melancolias de suas protagonistas, um ponto de fuga a partir do qual organiza a realidade.

Por trás de cada vivência afetiva (sempre muito intensa nos contos de Arquitetura do Arco-Íris) e das cicatrizes e nostalgias de sua herança judaica, há um controle da emoção em proveito daquilo que é comunicável; se Moscovich consegue comover sem ser piegas, isso acontece justamente por que ela retira da matéria-prima ficcional as regras que disciplinam sua expressão, tornando-a "necessária".

Nesse sentido, os contos mais bem realizados são Fantasia-Improviso e O Arco-Íris à Meia-Noite. Neste, uma velha senhora que perde a memória desenvolve, pela oração, uma espécie de comunicação direta com Deus - que a narrativa do conto acompanha na forma de uma escrita epifânica.

Naquele, o encontro da protagonista com um pianista cego se desdobra num jogo de reverberações: se a música representa a troca do "mundo das aparências por compensações exclusivas à esfera do invisível", o contato erótico restaura as aparências pelo tato mas também faz ver que "o avanço de duas pessoas no querer" se faz "às cegas", que o desejo, assim como a cegueira, cancela o livre-arbítrio.

Em Fantasia-Improviso, as palavras -como a música- harmonizam a desordem dos afetos, dão inteligibilidade ao mundo sensível. O que, aliás, pode ser uma definição para a literatura.

Arquitetura do Arco-Íris, de Cíntia Moscovich. Record (Rio de Janeiro) 178 págs. R$ 26,90






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