Críticas publicadas:

29/10/2004 - O Globo/Segundo Caderno
Entre ficção e realidade

SEGUNDO CADERNO

Rio, 29 de dezembro de 2004 Versão impressa


Entre ficção e realidade


Muitos foram os livros políticos lançados em 2004. Por meio das palavras, discutiu-se a situação das mulheres no Islã (como em “Lendo Lolita em Teerã”) ou os impasses da política americana, como em “Cadeia de comando”, que denunciou as torturas no Iraque. No Brasil, publicaram-se novas obras sobre Getúlio Vargas, por causa dos 50 anos do suicídio, e sobre o golpe militar de 64, devido ao aniversário de seus 40 anos. O jornalista gaúcho Flávio Tavares se destacou, com sua visão lúcida e prosa saborosa, em livro que contribui para melhor se compreenderem a História do país e os limites do homem diante do poder. Além disso, 2004 foi um ano de boas novidades na literatura, como “A louca da casa”, da espanhola Rosa Montero, que conquistou os brasileiros com seu humor e sagacidade, e “A noite do oráculo”, no qual Paul Auster reitera o poder das palavras para se traçarem os rumos do destino. Entre os brasileiros, Alberto Mussa, Cíntia Moscovich, Eucanaã Ferraz são alguns dos nossos autores que vêm compondo o novo e vital mapa da ficção e da poesia no país.

LENDO LOLITA EM TEERÃ, de Azar Nafisi (A Girafa): Celebra o poder libertador da literatura e ensina sobre a vida e resistência das mulheres no Irã revolucionário. A professora de literatura leu e discutiu durante dois anos obras proibidas da literatura ocidental com ex-alunas.

RUA DO MUNDO, de Eucanaã Ferraz (Companhia das Letras): Na coletânea de poemas, o autor carioca faz a poesia se reencontrar com o cotidiano, mas sem ceder às facilidades da linguagem coloquial. Livro para não se deixar de acreditar nos versos.

O ENIGMA DE QAF, de Alberto Mussa (Record): O autor carioca, depois de “Elegbara” e “O trono da rainha Jinga”, voltou a lançar um instigante livro, em que intercala uma novela de amor passada nos tempos pré-islâmicos a histórias de conhecimento e aventura no mundo árabe.

STALIN — TRIUNFO E TRAGÉDIA, de Dmitri Volkogonov (Nova Fronteira): A biografia, em dois volumes, preenche uma lacuna na historiografia do líder soviético e apresenta uma visão clara, documentada e dura da carreira do ditador e da própria União Soviética no período.

ANTONIO CANDIDO, obra completa (Ouro sobre Azul): A editora começou neste fim de ano a reedição da obra completa do celebrado crítico literário, em volumes que dão unidade gráfica à sua produção. Na primeira leva, saíram seis títulos, um deles com textos ainda inéditos em livro.

ARQUITETURA DO ARCO-ÍRIS, de Cíntia Moscovich (Record): A gaúcha autora do belo romance “Duas iguais” reafirma seu talento com esses contos, narrados por diferentes vozes femininas e marcados pelo cuidado com a linguagem.

CADEIA DE COMANDO, de Seymour Hersh (Ediouro): O respeitado jornalista americano denunciou, em reportagens na revista “New Yorker” — ampliadas no livro — as torturas feitas por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. E mostrou que o governo dos EUA sabia do fato.

A LOUCA DA CASA, de Rosa Montero (Ediouro): Um dos nomes de maior sucesso da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, a autora espanhola escreve sobre a literatura, seus escritores e a criação nesta obra reflexiva e mista, que é romance e ensaio.

A NOITE DO ORÁCULO, de Paul Auster (Companhia das Letras): O autor americano, que também veio ao Brasil este ano para a Flip, lançou um romance labiríntico, no qual o protagonista, um escritor em crise, acredita que escrever possa fazer as coisas acontecerem no futuro.

O DIA EM QUE GETÚLIO MATOU ALLENDE, de Flávio Tavares (Record): Jornalista político por 40 anos, Tavares escreve, a partir de suas memórias, saborosas histórias de poder. O livro começa com um inesperado encontro, na China, do jovem Tavares com o então senador do Chile Salvador Allende. Era setembro de 1954 e Tavares lhe conta sobre o suicídio de Vargas. Aquela morte, escreveu o autor, “deu-lhe o sentido de que só o sacrifício eterniza o poder”. Além de Allende e Getúlio, há capítulos sobre outros personagens, como JK, Guevara e De Gaulle. Para ver a História com novos olhos.




<<voltar