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22/07/2006 - Portal Literal, por Flávio Carneiro
As escritoras da nova ficção brasileira

As escritoras da nova ficção brasileira



O crítico Flávio Carneiro explica o que diferencia as autoras que começaram a publicar romances e contos a partir dos anos 90 da geração anterior



Flávio Carneiro 22 / 07 / 2006



Os homens que me perdoem, mas quero falar das mulheres. São elas que estão batendo um bolão no campo da ficção brasileira produzida nos últimos dez ou quinze anos. Não me atrevo a buscar uma explicação sociológica para o fato, mas o certo é que ele existe: nunca, em nossa história literária, houve uma presença tão marcante de escritoras de tamanha qualidade como na narrativa dos anos 90 e deste início de século.

A marca da ficção brasileira atual é a diversidade. Ou, mais que isso, a convivência pacífica entre as diversas vertentes, sem o embate característico de outros períodos, como, por exemplo, o dos primeiros modernistas, nas décadas de 20 e 30. Talvez devesse acrescentar a este um outro aspecto importante de nossa ficção contemporânea, ressaltando o papel desempenhado pelas mulheres na construção da narrativa brasileira.

Apontar nomes é sempre temerário e quem o faz está a um passo de cometer sérias injustiças. De todo modo, ao leitor talvez interessem algumas sugestões de leitura. Pensando nisso, gostaria de destacar algumas das escritoras que, para usar a expressão de Luiz Ruffato, "estão fazendo a nova literatura brasileira". Ruffato, aliás, é justamente o autor de duas belas antologias de escritoras contemporâneas (publicadas pela Record, em 2004), reunindo, ao todo, nada menos que 55 autoras!

Não chegarei a tanto. Minha lista é bem mais modesta e, certamente, incompleta. Já de início, gostaria de destacar um fato que considero sintomático: as melhores escritoras brasileiras da atualidade são aquelas que abandonaram velhos chavões feministas e apostaram numa outra fórmula. Fórmula, esta, que investe menos na ficção engajada, politicamente correta, do que no trato com a linguagem em si, buscando um apuro formal que dê conta das novas necessidades de expressão num mundo que já não admite conflitos maniqueístas, como capitalismo x comunismo, patrão x empregado, direita x esquerda e, claro, homem x mulher.

Numa das edições da FLIP (Festa Literária Internacional de Parati), a escritora espanhola Rosa Montero já dizia que não entendia por que mulher precisava escrever sobre a experiência feminina e homem não precisava se prender à experiência masculina. Quando um homem escreve, ela dizia, é sobre a "condição humana". Quando uma mulher escreve, completava, o leitor espera que seja sobre a "condição feminina".

Pois as escritoras brasileiras atuais já se livraram desse peso. E mesmo quando a temática diz respeito aparentemente apenas ao universo feminino, como, por exemplo, no excelente Vésperas, de Adriana Lunardi (Rocco, 2001), a ficção se estende a algo mais, alcançado a tal "condição humana" a que se referia Rosa Montero. Em seus contos, Adriana Lunardi remonta o momento anterior à morte de nove mulheres notáveis, como, entre outras, Virgínia Woolf, Dorothy Parker e Ana Cristina César. E o faz de forma precisa, alternando pontos-de-vista narrativos, apostando na sutileza, no lirismo forte (quase trágico, eu diria) e numa linguagem apurada, cristalina, como poucas vezes se viu em nossa prosa de ficção.

Uma outra Adriana trilha caminho semelhante. Trata-se de Adriana Lisboa, autora que já assumiu de vez seu lugar em nossa ficção, com uma produção de romances e contos que prima pela regularidade e pela qualidade. Seja pelo viés do drama familiar, como em Sinfonia em branco (Rocco, 2001), seja pelo gesto criativo da reescritura, como em Um beijo de colombina (Rocco, 2003), seja, ainda, pela exatidão e certa beleza triste dos breves contos de Caligrafias (Rocco, 2004), Adriana Lisboa vai construindo uma obra que chama a atenção para o fato de que invenção não é sinônimo de transgressão tresloucada, como acreditam alguns autores e autoras da novíssima geração.

Pelo contrário, o que algumas das escritoras atuais, como as duas Adrianas, parecem dizer é que o caminho pode ser outro: o de uma escrita que, sob a aparência de linearidade, de simplicidade, esconde uma sofisticação de linguagem que nada fica a dever a alguns de nossos maiores clássicos.

E ainda que se possa observar, em algumas das novas autoras, certos toques de denúncia, em especial do lugar ocupado pelas minorias, o que sobressai, de fato, é a arquitetura da escrita, para usar uma palavra do belo livro de contos de Cíntia Moscovich, Arquitetura do arco-íris (Record, 2004). Aqui, a cultura judaica serve de matéria para a criação de contos tocantes, marcados pela ambigüidade, pela memória, apontando as feridas mas sem cair no lugar-comum.

O leitor que se deixar levar pelo que possa parecer panfletário na ficção de Cíntia Moscovich vai passar ao largo de suas qualidades e perder, assim, o que nela há de melhor. O mesmo se aplica aos contos, romances e narrativas para crianças e jovens produzidos por Sonia Rodrigues e à ficção contundente de Ivana Arruda Leite. Tanto no citado livro de Cíntia quanto em Eu te darei o céu: e outras promessas dos anos 60 (Editora 34, 2004), de Ivana, e Do que os homens têm medo (Objetiva, 2003), de Sonia, sob a camada mais evidente do posicionamento ideológico surge uma ficção que busca afinar a todo instante seus instrumentos, buscando, e conseguindo, alcançar um campo que se estende para além do combate entre ideologias.

Outra boa autora surgida na década de 90 e em plena produção na atualidade, e que já merecia um espaço maior do que aquele que atualmente ocupa junto à crítica e ao público em geral, é Ana Teresa Jardim, que passeia pelo conto e pelo romance – inclusive o policial, com o ótimo No fio da noite (Nova Fronteira, 2001) – com a mesma desenvoltura, investindo sobretudo no cotidiano dos habitantes das metrópoles.

Das estreantes, destacaria as promissoras Paloma Vidal e Lúcia Leão. No seu livro de contos, A duas mãos (7Letras, 2004), Paloma espreita a intimidade de homens e mulheres, no Rio e em Buenos Aires, em histórias bem costuradas, nas quais se encenam situações-limite, desafios. Já Lúcia Leão, que surge também com um livro de contos, Ensaios a dois (7Letras, 2002), desenvolve narrativas que abordam sobretudo a temática amorosa, num estilo firme, pendendo para o lirismo e, em alguns momentos, para o fantástico.

Outras novas ficcionistas brasileiras merecem destaque, e sugiro ao leitor que procure saber um pouco mais sobre elas. Poderia citar, por exemplo: Gisela Campos (com As idéias todas – Record, 2000), Cláudia Lage (A pequena morte e outras naturezas – Record, 2000), Adriana Falcão (A comédia dos anjos – Planeta, 2004), Daniela Versiani (A matemática das formigas – 7Letras, 2000), além da já consagrada Patrícia Melo, que também começa a publicar nos anos 90.

Nestas e nas outras autoras citadas, reitero o já dito: livres da necessidade de levantar bandeiras – já que as pedras foram bravamente quebradas por toda uma geração anterior, envolvida na luta política pela valorização do espaço feminino num mundo de base patriarcal –, as escritoras do Brasil atual podem se lançar a outros vôos, e nisso mostram uma competência ímpar, montando um leque de ótimas opções para quem queira se aventurar pelo mundo da ficção, seja ela de que estilo for.

E como havia dito no início e gostaria de reforçar, a lista é incompleta e certamente injusta, não só pelas naturais limitações de qualquer crítico, fadado a ser sempre parcial, como pelo fato de que não pude ler ainda outras autoras que provavelmente poderiam estar aqui. Tratam-se apenas de sugestões de um leitor para outros leitores, interessados quem sabe em conhecer um pouco mais sobre o que está sendo produzido por nossas ficcionistas nos dias de hoje.


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