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05/11/2006 - Zero Hora (Caderno Donna), por Larissa Roso
"Se mãe fosse anjo..., a terra seria um paraíso"

Livros
Se mãe fosse anjo...a terra seria um paraíso
LARISSA ROSO




Não bastasse a balança acusar 22 quilos excedentes - e o peso que sobra pode aterrorizar uma mulher muito antes de alcançar os dois dígitos -, ainda havia a hipocondria, a culpa pela comilança, o martírio de ter que se restringir a compras em lojas de tamanhos generosos, a melancolia, o temor de que o corpo disforme não despertasse mais o desejo do marido, a mágoa com a mãe. A mãe. Esse era o maior problema.

Por que Sou Gorda, Mamãe? (Record, R$ 38,90), que tem sessão de autógrafos na Feira do Livro no próximo sábado, às 19h30min, é o segundo título em narrativa longa da porto-alegrense Cíntia Moscovich, que estreou no gênero com Duas Iguais (1998). Arquitetura do Arco-Íris (2004), no rastro do reconhecimento nacional, rendeu também à escritora o terceiro lugar na categoria Contos e Crônicas do Prêmio Jabuti e a colocação entre os 10 finalistas do Portugal Telecom, ambos no ano passado. Escolada no conto, Cíntia deu início ao mais recente trabalho traçando planos para uma novela, abertamente inspirada em Carta ao Pai, de Franz Kafka. Com o título inicial de Cartas à Mãe, o texto de Cíntia se estendeu, e empilharam-se ao longo de seis meses as tentativas que não a agradavam.

- O livro tinha virado pura desgraça, um acerto de contas com minha própria mãe. Não que ela seja uma bruxa: ela é apenas mãe, o que já basta para incomodar uma filha. Corri para a terapia. Consegui o que eu queria: falaria dela nas sessões e faria literatura de ficção fora. Só assim pude me divertir e escrever com prazer - conta Cíntia, em uma conversa por e-mail que começou em Budapeste, na Hungria, e terminou em Bucareste, na Romênia, em viagem de férias iniciada depois de participar da Copa da Cultura, em Berlim, no mês passado.

A mãe da ficção, sem nome, é a destinatária de um extenso desabafo da filha, que se propõe, na ânsia de se livrar dos 22 quilos, a escrever para descobrir o motivo de ter engordado tão desmesuradamente. O título pode dar a idéia de um texto mais leve, mas, ainda que entremeado por humor aqui e ali - dieta alimentar, afinal, pode se encaixar na fôrma do "tem que rir para não chorar" -, fica claro que a tônica é outra. O livro marca um recomeço para a personagem, escritora, que quer ajustar contas, entender laços familiares e rever momentos desde a infância - e nesse intuito se encaixam tarefas bem-humoradas, como esquadrinhar a genealogia dos gordos antepassados, e desafios mais ásperos, como rever os episódios em que a mãe se trancava no quarto por dias, ruim "dos nervos".

- Minha mãe sabia que eu estava escrevendo um livro sobre algo que envolvia, de um jeito ou de outro, a minha própria história. Era claro para ela, como sempre foi, que eu não faria maiores comentários. No entanto, sei que sempre houve essa espécie de terror em ter uma filha escritora - diz Cíntia. - Acho meio estranho e raro quando alguém só tem nobreza e bons sentimentos na sua família. Ou alguém está mentindo ou é tapado a mais não poder.





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