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05/11/2006 - Zero Hora, Caderno Donna. Entrevista por Larissa Roso
"Gordura é dor"

Livros
"Gordura é dor"




Donna ZH - A mãe que você enxergava antes do livro e a que vê agora são a mesma pessoa?

Cíntia - Minha mãe é e sempre foi a mesma pessoa. O que acontecia antes de chegar à forma que me satisfez era que minha mãe era a mãe do livro! Isso era uma desgraça. Eu queria fazer ficção, não fazendo autobiografia o tempo inteiro. Por isso fui para a terapia. E eu não sou maluca de colocar a bunda na janela, contando minha vida para todo mundo. E na boa: se eu tivesse uma mãe como a do livro, eu me atirava debaixo de um ônibus. Minha mãe é cruel, como todas as mães, mas nem tanto assim, né?

Donna ZH - O que deu errado na relação das duas personagens?

Cíntia - Nada deu errado. Tudo aconteceu conforme o figurino. As pessoas são mães e filhas e tudo o mais porque têm de ser e porque nada deveria ser diferente. As criaturas têm uma cota de contrariedade e de conflitos no mundo que deve ser preenchida. No caso das duas personagens, elas encarnaram seus papéis da forma mais correta possível, sem dissimulação ou panos quentes. Elas viveram aos tapas e beijos como quaisquer outras mães e filhas na face da terra.

Donna ZH - Você disse que ser mãe já basta para incomodar uma filha. Diz a convenção que mãe é sagrada. A do livro fica bem longe disso?

Cíntia - Mãe é mãe, ninguém toca. A convenção, no entanto, é muito terrestre. Se mãe fosse anjo, a terra seria um paraíso. Mas acho que todo mundo gostaria de ter uma mãe que só tivesse o cabelo branquinho, o avental sujo de ovo e dissesse lindas palavras de amor. Esse é o ideal de perfeição da maioria dos filhos. O fato é que não se pode viver sendo filho de fada. A mãe ensina também a maldade, a picardia, a baixaria. A coisa aquela, desculpa pelo clichê, do mel e fel. Convenção por convenção, vamos usá-la a nosso favor...

Donna - A mãe da ficção não tem nome. Ela é um pouco de cada uma, cada uma é um pouco dela?

Cíntia - É, é isso. Nomear um personagem é, para mim, como isolá-lo dos demais mortais. Algo muito exclusivo e singular. Para mim, essa mãe nunca teve um nome, embora seja uma personagem única, que passou a viver comigo. Fui recolhendo relatos de vários filhos e filhas sobre suas mães - os mais sórdidos que consegui espremer (recorri a chantagem da grossa, em alguns casos. Fiz o que pude. As pessoas detestam contar os podres de suas mães).

Donna - Quem a conhece nota muitas semelhanças entre elementos e personagens da sua vida e o livro. O autor tem que dar muitas explicações quando escreve um livro como este? "Ó, ela é ela, eu sou eu"?

Cíntia - Autor sofre uma beirada. Meu tormento era justamente não ficar me confessando em público, mesmo porque a história da minha vida é muito chata e medíocre. A vida das pessoas é muito previsível, tudo é mais ou menos parecido, quando não igual. Mesmo que os fatos do livro não sejam os da minha vida, eu precisava me convencer disso. Sei que minha intenção não vale absolutamente nada, amanhã todo mundo vai jurar que conhece minha história de fio a pavio. Azar, já me acostumei.

Donna ZH - O excesso de peso está muito associado a dor e frustração na narrativa. A gordura é causa e também conseqüência do sofrimento. Quilos a mais e felicidade são duas idéias que se repelem sempre?

Cíntia - Gordura é dor, embora comer seja um dos prazeres da vida. Certo, estou generalizando, mas acho que os gordos são uns sofridos, que comem as mágoas com chocolate e batata frita. Uma mulher gorda é o inverso do desejo, do prazer. O problema é que comer alivia, e se entra na maior arapuca, na mais ordinária delas.

Donna ZH - As lembranças carinhosas ficaram quase todas reservadas a uma das avós, que normalmente encarnam o protótipo da doçura e da amabilidade. Ela foi o que estava previsto: avó, apenas. Já a mãe acumulou a função de pai a partir de certo momento. Não existe também mérito em meio a tantos erros dela?

Cíntia - É claro que houve mérito da mãe, e muito, que é o que sempre acontece. Mas, no caso do livro, essa aceitação e esse amor incondicional só vêm ao final, quando muda a visão da narradora. Quando ela pára de se queixar, quando fica mais leve. Antes, ela é só filha. E é meio cínica para ficar achando tanta coisa boa e querida numa mãe só. Ela quer o direito a se queixar e a não ser uma boa menina.

Donna ZH - A protagonista às vezes se transforma na mãe da mãe. Essa inversão é inevitável a partir de certa altura, mesmo que a mãe tenha falhado?

Cíntia - É inevitável a gente se transformar na mãe da mãe. Comigo às vezes acontece de a mãe querer inverter os papéis, mas eu sempre rejeito e acho que é cedo para essa brutalidade. Eu quero minha mãe sempre mãe. Creio que, no caso da personagem, embora a mãe tenha falhado, se é que se pode dizer isso, o papel materno foi justamente o de ensinar essa espécie sagrada de piedade para a filha, a contingência de amar uma pessoa mesmo antes de nascer. Por mais que a filha enxergue na atuação da mãe o supra-sumo da crueldade, existe apenas o mal bom e necessário. A narradora não é ruim ou cruel. E vai fazer o que todas fazemos: pegar a mãe no colo, encher de beijos e mimos.

Donna ZH - Por que Sou Gorda, Mamãe?, feitas as contas, rendeu mais alegria ou aflição?

Cíntia - Dizem que a dor do parto é esquecida para que a mulher tenha mais filhos. Exageros à parte, é muito bom ver a carinha do nenê quando nasce. Ainda não vi o livro pronto, mas, quando enviei os originais, senti as contrações. Não há nada tão pessoal quanto um livro. Só mesmo um filho.

Donna ZH - E a mãe da Cíntia?

Cíntia - A mãe? A mãe é uma mãe judia, amorosa e tinhosa, como são todas as mães, judias ou não. É tudo de bom que uma filha poderia querer. A mãe é uma fofa e... (Olha, eu estou em Bucareste, longe, na terra de onde veio parte de minha gente, e não consigo falar em mãe agora. Dá uma saudade que nem conto. Posso mandar um beijo para ela aqui?)

Donna ZH - A dedicatória do livro para a dona Geni vai dizer o quê?

Cíntia - Vai ser assim: "Para Geni Moscovich, mãe amada, que sempre se preocupou com o que eu comia".






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