Críticas publicadas:

30/12/2006 - Folha de S. Paulo, Ilustrada, por Manuel da Costa Pinto
VIVER ENGORDA

MANUEL DA COSTA PINTO

Viver engorda
Cíntia Moscovich usa neurose da obesidade como mote para romance que mistura memória e invenção

TUDO CONSPIRA contra o novo livro da gaúcha Cíntia Moscovich. O título sugere um manual de auto-ajuda contra os excessos de fim de ano. O tom confessional lembra um diário de adolescente. A verdadeira literatura, porém, resiste a tudo, até mesmo aos impulsos suicidas de uma escritora que finge se desviar de sua implacável vocação ficcional.
Estrutura e conteúdo podem lembrar a "Carta ao Pai", de Kafka. A exemplo do autor judeu-tcheco, que se dirige ao "pater familias" para expor a chaga que o condena à errância literária, Moscovich elege a mãe como leitora ideal de seu relato. O tom de "Por que Sou Gorda, Mamãe?", contudo, está mais para Woody Allen -a começar pela figura melodramática da matriarca e pela hipocondria ("esse pânico ritual muito próprio dos judeus").
O elemento deflagrador é apresentado no prólogo, que firma com os leitores um pacto ficcional: tudo o que virá a seguir é matéria autobiográfica costurada de modo a explicar como a autora se deixou dominar por um velho fantasma -a obesidade-, engordando 22 quilos em quatro anos.
Entre visitas ao endocrinologista e academias de ginástica ("confrarias da adiposidade" que aguçam o sentimento de exclusão), Moscovich vaza os acontecimentos desse "romance familiar dos neuróticos" (para citar outro judeu que dissecou a dinâmica afetiva do recalque e do ressentimento).
A história da Vovó Magra (que carrega as marcas da diáspora e de uma paixão irrealizada), a morte prematura do pai (fazendo com que a adolescência da protagonista fosse seqüestrada pelo "terror amoroso" da mãe) e o microcosmo da comunidade asquenazita de Porto Alegre compõem um cenário imantado pela língua ídiche, pelas tradições religiosas e culinárias (um cardápio de varenikes, guefiltefish, borscht e outras iguarias do Leste Europeu).
Aquilo que se transmite de geração em geração, porém, é menos palpável. "Eu queria tocar de uma vez no miolo duro da vida", diz em certo momento essa escritora que, na esteira de Clarice Lispector, destrincha cada movimento da consciência para estar perto do coração selvagem das coisas. Nessas lembranças familiares, importa sobretudo o modo como os papéis vão se espelhando e as palavras deslizam numa correia de transmissão simbólica, que é também uma espécie de grilhão.
"Continuar vivendo é algo que pode tornar uma pessoa alheia de si mesmo. Viver engorda." A obesidade é o "correlato objetivo", a metáfora viva dessa existência cuja mecânica consiste em se desfigurar para tapar seus buracos.
Ocorre que isso também define uma poética que deverá perpetuamente "purificar a memória em invenção", suturando as fissuras do ser com uma "cerzidura que, embora invente nos pontos muito miúdos e caprichosos da memória, me dá a sensação de um arranjo ordinário e discrepante, eterna precariedade, eterno improviso".




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