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21/01/2007 - Estado de S. Paulo - Caderno 2 (por Moacir Amâncio)
Está tudo em ordem. Só dói mesmo quando a gente ri

Está tudo em ordem. Só dói mesmo quando a gente ri
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m Por Que Sou Gorda, Mamãe?, a metáfora da obesidade dá humor ao drama de judeus em busca de um lugar para morar

Moacir Amâncio



Em Por Que Sou Gorda, Mamãe?, da escritora gaúcha Cíntia Moscovich, a história gira em torno do mais impossível dos amores: o amor entre mãe e filha. Ele existe, está presente de modo avassalador, mas só se dá no conflito surdo ou manifesto. Não se trata apenas de uma história ora divertida ora reflexiva sobre um dos assuntos prediletos de todas as mídias, é também um romance alegórico sobre a existência contemporânea e provavelmente o mais brilhante exercício de humor judaico da literatura brasileira.

Moscovich narra o caso de uma garota gaúcha descendente de imigrantes e que recebe toda a carga do que representa a vida de judeus originários da Europa Oriental em busca de um lugar onde a vida fosse possível. Tudo ainda está muito próximo: os pogroms, as fugas, o fim de uma época que terá seu selo máximo na Shoá, o Holocausto e o recomeço em pontos diversos do globo, incluindo o Estado de Israel. Mas a história se passa no sul, onde instituições judaicas humanitárias criaram colônias agrícolas para os que se dirigiam ao Brasil.

É um começo de aculturação confusa e, claro, cômica, pelas trapalhadas e também pela entrada do folclore local na imaginação daquelas pessoas e descendentes, que só podem ser entendidos em sua integridade quando vistos dentro do novo cenário. A carga dos traumas encontra seus herdeiros e neles se instala: a expressão se configura na superalimentação. É simples, se eu e meus pais não tinham direito o que comer, nada faltará aos meus filhos. No entanto, a autora sabe como fazer disso uma metáfora de alcance amplo.

Entre outras coisas, Moscovich demonstra, com a leveza da mão de mestre, como o anti-semitismo não fica no tempo e no espaço, mas se transforma e continua a atormentar suas vítimas de modo sutil e permanente. Um ponto inicial pode ser este: se eu e meus antepassados passamos fome, meus filhos não passarão. E tome comida. Parece banal, apenas parece. Com isso desencadeia-se o processo e toda a memória do horror vem à tona no próprio corpo das personagens.

O processo se dá de modo irreversível: as pessoas começam a engordar. Elas, assim, se revelam objetos manipulados incessantemente, presas de uma cadeia nos dois sentidos. E sem saída. Há paliativos, os regimes, que na verdade não passam de outra ala do mesmo inferno. Vejamos: se não são discriminadas por serem judias, são discriminadas por serem obesas. Nisso, Moscovich vai além da narrativa de tom étnico para atingir a dinâmica do universal. Sempre haverá o excêntrico para que a idéia do centro se autojustifique.

O drama corre, como disse, entre dois pólos, mãe e filha. Esta vê naquela a agente encarregada de atormentá-la a partir da elegância insuportável e inatingível - isso impede que a filha de início perceba a vítima sob disfarce. Tudo conspira, a comida é a obsessão mais freqüente. A cena em que uma tia de São Paulo aparece em Porto Alegre com um pacote de arenques comprados em liquidação e... podres, é hilariante e, claro, pungente, no melhor estilo. Há aí uma sugestão estimulante: toda a família dentro do Ford todo-poderoso do pai faz com que o carro se desmonte. O carro, orgulho do produtor simpatizante de Hitler, não resiste ao peso da massa de vítimas. Está tudo bem, só dói quando rimos.

O que está por trás de tudo isso vem revelado num dos capítulos finais, a respeito de uma família vizinha que levou o efeito do campo para dentro da casa com janelas vedadas, onde continuam ocultando sua agonia, pois nada daquilo acabou. Enquanto os moradores da frente simplesmente estufam. Está tudo bem, só dói quando a gente ri.

Moacir Amâncio é autor de Contar a Romã e Óbvio


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