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04/02/2007 - O Globo, Prosa e Verso, por Miguel Conde
Uma história marcada pela fartura narrativa

‘Por que sou gorda, mamãe?’ é pródigo em momentos que comprovam o grande talento de Cíntia Moscovich




Por que sou gorda, mamãe?, de Cíntia Moscovich. Editora Record, 256 páginas. R$38,90




Miguel Conde

Anarradora de “Por que sou gorda, mamãe?”, novo livro de Cíntia Moscovich, é uma escritora em busca da leveza diante de um peso que se impõe. Um regime de emagrecimento e a revisitação do próprio passado, os dois eixos da narrativa, são suas tentativas de emancipar-se — do destino genético que lhe condena à gordura, dos desacertos afetivos que embaralham seus sentimentos. O esforço para descobrir, em meio ao que herdamos, aquilo que de fato nos pertence, ou mesmo o que desejamos para nós, é o que inicia o movimento desta escrita.

O conflito entre destino e arbítrio, que o romance põe em cena, parece também ter se desenrolado nos bastidores, isso é, na relação mesmo da escritora com a obra. O modelo inicial para o livro, diz Cíntia, era a devastadora “Carta ao pai”, de Franz Kafka. Modelo abandonado porque se tornou opressivo, inibidor — pesado em demasia. No próprio gesto da escritora, de afastamento do passado canônico e procura de alguma liberdade criativa, estão de certa forma ensaiados os dilemas de sua protagonista.

Vocação de fabuladora e estilista se reafirma

Há um núcleo de tristeza em “Por que sou gorda, mamãe?” que parece não se ajustar ao título quase farsesco, à capa colorida, à jocosidade de algumas passagens. “O ruim é que a gordura nubla qualquer senso de humor”, observa a narradora, e por vezes parece que a própria escritora luta para permitir que sua vocação humorística afirme-se diante de um tema por demais amargo.

Embora a tensão entre ironia e dor não seja jamais resolvida (e deveria?), o talento de fabuladora e estilista da autora se reafirma aqui de maneira contundente, numa escrita marcada principalmente pela fartura e pela generosidade: imaginativa, poética, narrativa. É ao deixar de lado o ressentimento e a mágoa (seu mote inicial) que “Por que sou gorda, mamãe?” encontra seu melhor destino. Aí, o livro transborda de histórias algo irreais, às vezes patéticas, sempre comoventes. Do tipo que escritores menos vocacionados passam uma vida tentando escrever.

A beleza das histórias de Cíntia Moscovich, é bom registrar, não provém do culto aborrecido (porque solene) à “delicadeza do cotidiano”, mui difundido nas letras nacionais. Nos momentos em que se volta à descrição das variações do tempo e do crescimento das plantas, tentando mais deliberadamente ser poética, sua prosa perde em força e interesse. Esses trechos, em geral situados no começo dos capítulos, parecem mais um aquecimento para o que de fato importa: os episódios familiares, ao mesmo tempo um tanto fantásticos e absolutamente convincentes, delicados sem pieguice, recordados pela narradora. O périplo do bisavô da Europa oriental para o Brasil, sua amizade com um índio no Sul agreste, a frustrada paixão de sua avó por um violonista uruguaio, uma ida da família ao restaurante, a visita à casa da vizinha que estoca mantimentos compulsivamente, o desastroso transporte de suas gordíssimas tias no Ford Fairlane de seu pai. Em todas essas narrativas, há um olhar ao mesmo tempo compassivo e irônico sobre as peculiaridades do espírito humano. A força expressiva de cada uma dessas histórias chega a conferir a “Por que sou gorda, mamãe?” um leve ar de coletânea temática de contos.

A reconstituição da história familiar ganha no livro contornos psicanalíticos. A gordura, imagina a narradora, é apenas a expressão mais visível de uma inquietude que precisa ser curada pela palavra. A escrita, exploração das origens desse mal, será uma tentativa de restaurar e organizar a consciência: “O passado só existe porque existe a memória, e a memória é traição: tanto subtrai quanto acrescenta, tanto rasga quanto emenda. (...) Talvez por isso tenha me dedicado à ficção, que é a última possibilidade de juntar um fato ao outro e tornar íntegro o faltante”, escreve a narradora. É preciso saber do que se sofre para deixar de sofrer. Mas, claro, as coisas não se resolvem tão facilmente assim.

Na própria idéia de origem, afinal, há uma limitação. Ela é aquilo de que não se pode escapar. Se o gesto que dá início ao livro é a expressão de um inconformismo, da vontade de mudar, a história que daí resulta expõe, contraditoriamente, exemplos de resignação: do bisavô, que aceita o desterro com fatalismo, da avó, que não se casa com seu amor, do pai da narradora, que atura o temperamento difícil da mãe. Para cada um deles, haverá uma compensação, mas não a felicidade sonhada e ideal.

Inteligência mundana
e maliciosa

Há uma certa sabedoria nessa história, em que o desejo de desfazer os limites vem acompanhado do reconhecimento de que nem sempre eles serão contornáveis. Lucidez é a palavra que melhor definiria essa percepção, e é também o termo empregado pela narradora para justificar seu gosto pelos ditados judaicos: “As máximas da nossa gente são páginas de sarcasmo escritas com a pena áspera da lucidez”, diz. Elas demonstram que, mesmo para aquilo que parece mais insuportável, há uma reação possível, nem que esta seja apenas o riso. “Avós e netos se dão bem porque têm um inimigo em comum”, é um dos ótimos ditados invocados pela narradora para comentar a difícil relação com sua mãe (e, nesse caso, a da sua mãe com sua avó).

A inteligência mundana e afetuosamente maliciosa dessa frase é também uma marca do estilo de Cíntia Moscovich, e aí percebe-se não só seu tributo a uma longa tradição de escritores judeus, mas ainda o débito mais direto com Isaac Bashevis Singer (uma herança eletiva e declarada da escritora). Embora os registros sejam diferentes, o tema da migração e da busca pelas origens como forma de reparação lembra ainda o também excelente “Caim”, de Márcia Denser, publicado meses antes. Lançado no fim de 2006, “Por que sou gorda, mamãe?” é um dos acontecimentos mais notáveis de um ano que em si já esteve bem acima da média recente da literatura brasileira.


Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: Prosa & Verso Tamanho: 1044 palavras
Edição: 1 Página: 3
Coluna: Seção:
Caderno: Prosa & Verso



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