Críticas publicadas:

03/02/2007 - Zero Hora, Cultura, 03/02/2007, por Celso Gutfreind
Do caso à obra

Exibindo conteúdo de 03 de fevereiro de 2007. Edição nº 15139




Do caso à obra
Em uma abordagem psicanalítica, o mais recente livro da gaúcha Cíntia Moscovich, Por que Sou Gorda, Mamãe?, funciona como metáfora de neuroses privadas e coletivas
CELSO GUTFREIND




Em Por que Sou Gorda, Mamãe? (Record, 256 páginas, R$ 38,90), Cíntia Moscovich escolhe como tema a obesidade; não o transtorno como um conceito geral, mas a sua própria obesidade. E conta uma história, que é a sua, e a sua história pode ser lida como variações em torno dessa pergunta direta que nomeia a narrativa. A destinatária da questão é a mãe, porém, de história em história, chega-se à riqueza humana de outro personagem na vida da autora, que é o pai. E é assim que Por que Sou Gorda, Mamãe? também pode ser lido como uma analogia ao clássico acerto de contas de Franz Kafka com o pai, na longa e dolorida carta que escreveu a ele. A mãe, no caso, ocupa o lugar do marido, mas a necessidade expressiva de filho é a mesma.

O que poderia ser uma pergunta, ou um relato de vida, ou mesmo um caso clínico à espera de um bedelhar psicanalítico, segue em frente com naturalidade e altivez. O que poderia ser um acidente ou um equívoco literário foge desse risco. E entre a pergunta e a reposta, ou entre o relato e a leitura, ou, ainda, entre o caso clínico e suas possíveis interpretações, existe uma linguagem com suas opções pela forma e suas obsessões inegociáveis com o conteúdo. E me parece justo aí que os sentidos comecem a se multiplicar, sem resposta à vista e, portanto, com qualidade.

Porque Cíntia conta sua história sem escrúpulos, sem aparentes defesas. Cíntia, como personagem de Cíntia, diz o que precisa ser dito, seja para quem for. E é capaz de dizer para si mesma que é um ser de traços deformados, untado de dobrinhas ridículas no corpo, ou questionar a mãe a respeito de cada atitude aparentemente maluca ou odiosa em sua alma. O conteúdo é odioso, mas expressado com estilo. Porque Cíntia, falando de Cíntia, utiliza uma linguagem com recursos que transcendem a perigosa armadilha de um jogo de perguntas e respostas. Cíntia conta uma vida, mas guarda o cuidado de não ser direta, embora sendo o tempo todo. O que media Cíntia e sua vida - e no trato de vidas humanas, mediação é preciso - é uma linguagem repleta de imagens, ritmo, poesia. Se a narrativa pode ser lida como carta, a carta pode ser lida como poema, e a metáfora sobrevive ao caos familiar. Há um cuidado na escolha da primeira palavra, da palavra seguinte, da frase, e o texto flui conforme o tema do capítulo, que pode ser o entardecer de Porto Alegre ou o inverno da Bessarábia. Há símbolo e, assim, continência de vida psíquica e esperança.

Em havendo poesia, não há mais espaço para uma eventual explicação do elogio à força do pai ou da crítica à fraqueza da mãe. A poesia garante a continuação da vida e, sobretudo, a abertura dos sentidos e a subjetividade. Nova pergunta: entre tantos defeitos apresentados no texto para a mãe invasiva e neurótica, não estaria aqui a qualidade de haver embalado a filha a ponto de garantir a poesia de um texto e de uma vida, como preconiza o psicanalista Daniel Stern? Afinal, hoje é sabido que, sem um bom começo de interações precoces corporais, não há narrativa ou linguagem que se criem. Pois aqui estão criadas.

Mas há mais, a nosso ver. Por que Sou Gorda, Mamãe? conjuga o binômio linguagem bem apurada e conteúdo bem vivido. Também é justo aí que o relato de uma vida deixe de ser o relato de uma vida para se tornar o relato de muitas; a obesidade deixa de ser um transtorno individual (clínico, biológico, psicológico) para se tornar imagem ou metáfora de uma comunidade inteira, no caso a judaica; se aqui há transtorno, é cultural também. Cíntia sugere, como um bom simbolista, que algo há entre o excesso de comida e a falta, entre a guerra da mesa e a da história, entre a mãe dela e a mãe judia.

Nessa hora, o bedelhar psicanalítico pode ser atual e não selvagem. Porque onde há vida (curiosidade, perguntas), quem procura encontra uma linguagem que o expressa, e o resultado é aberto. Cíntia começou perguntando, como em um encontro analítico. Cíntia continuou procurando, como em um encontro analítico. E Cíntia acabou encontrando não uma resposta, mas uma linguagem, como em um encontro analítico; não um encontro sério e interpretado, mas uma brincadeira, como em um encontro analítico mais sério ainda, porque autêntico.

As relações entre judaísmo e psicanálise, ou entre neurose e judaísmo, são evidentes nesse livro, assim como nos textos de Freud e muitos de seus sucessores, a ponto de, ainda hoje, defender-se a tese de que, sem a neurose judaica e universal do criador da psicanálise, a psicanálise não teria sido criada.

O final do livro de Cíntia pode frustrar a expectativa do começo, no sentido de que não há um sentido para a pergunta inicial. A idéia é que a pergunta feita com afeto e vivência, como no caso, demanda pelo menos mil sentidos possíveis. É isso que dá, a nosso ver, uma aura de obra aberta a essa narrativa aparentemente tão autobiográfica, assim como o encontro analítico, absolutamente autobiográfico, também se constitui, se bem conduzido, em uma obra aberta a outras vidas possíveis.

Aqui parece bom tentar repetir, ritmicamente, que o encontro da linguagem garante beleza, dissonância, lirismo, tristeza e humor. São bonitas as descrições da chegada da primavera no sul do Brasil, dando o direito da obesidade à copa das árvores e não às mulheres. São dissonantes os desencontros de Cíntia com a mãe. São líricos os encontros de Cíntia com o pai, os reencontros com a mãe. É triste e pungente a cena da vó de Cíntia enterrando o filho e reconhecendo que, por vezes, não há amparo possível. É engraçada, de um humor terrível (triste, judaico), a cena em que as tias obesas, sentadas no banco de trás do Ford Farlaine 500, conseguem destruir a máquina possante do carro com a máquina mais pesada de seus corpos.

Há hoje uma pá de analistas, que inclui gente como um Antonino Ferro, um Roy Schaffer, um René Diatkine, um Serge Lebovici, dando o direito à psicanálise de ser literária no sentido de compor uma obra aberta (à la Umberto Eco), mesmo se valendo da banalidade de vidas aparentemente tão prosaicas. Se a pergunta é sincera, se a vida foi vivida ou morrida com alguma intensidade, encontra-se a linguagem (a poesia) e se atinge o humor, o lirismo, a metáfora; a cura?

É isso o que também faz Por que Sou Gorda, Mamãe?. Sem nada responder, vai simplesmente abrindo espaços para o pensamento e o afeto, trazendo um consolo bem mais difícil que o conselho, porque se trata de oferecer a capacidade de ignorar e perguntar ainda mais. Ou, sem querer, pois que narrando, vai ensinando a brincar com o trágico e a rir do irremediável. Nesse ponto, outra conversa natural que o livro oferece para a pauta em psicanálise é a valorização, por um lado, da transmissão transgeracional da neurose (da obesidade) e, por outro, da possibilidade de narrar (espaço transicional, de Winnicott), como a única, verdadeira e modesta cura.

Por que Sou Gorda, Mamãe? sugere ainda, com simplicidade, brabeza e doçura, que a vida pode ser interessante nela mesma, na morte revisitada ou, juntando tudo, na literatura.

* Psiquiatra da infância e da adolescência e escritor, autor de O Terapeuta e o Lobo, entre outros livros





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