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03/02/2007 - Prosa Online, O Globo - Entrevista a Miguel Conde
Cíntia Moscovich fala sobre seu novo livro

Cíntia Moscovich fala sobre seu novo livro
Em "Por que sou gorda, mamãe?" (Record), seu novo livro, Cíntia Moscovich conta a história de uma escritora que revira o passado de sua família para entender os motivos de sua gordura e dos desacertos afetivos com sua mãe. Nessa exploração, ela recorda episódios algo fantásticos e comoventes onde a diáspora é um tema constante. O romance, diz Cíntia, nasceu como uma tentativa de reelaborar a "Carta ao pai", de Kafka. Mas só depois que ela abandonou esse modelo o livro pôde ser escrito. A resenha sai esse sábado no Prosa & Verso. Leia abaixo a entrevista que a autora deu ao blog.


Como seu livro dialoga com a "Carta ao pai", de Kafka? Ela foi apenas uma inspiração inicial, ou algo além disso?



A idéia inicial era, de fato, fazer um jogo de espelhos com a "Carta ao Pai". Eu voltaria àqueles temas universais e perenes, apoiada numa bengala literária de luxo — Kafka. O drama surgiu quando a bengala começou a se desfazer feito macarrão na água fervente (desculpa a imagem chinfrim e oportunista). Vi que minha intenção era uma rematada besteira. Eu teria de me ombrear a um monstro sagrado que, mesmo numa carta dura, triste, desesperançada, consegue chegar ao nível do sublime. De repente, além de reverência, passei a nutrir um medo místico, como se ele estivesse espiando por cima do meu ombro ou viesse me puxar os pés de noite. Também havia a minha própria mãe, mãe judia em tempo integral, que, contra minha vontade, se havia tornado a mãe do livro. Mesmo que os episódios não correspondessem aos fatos da vida de viver, aquela mãe era a minha. Uma tortura. Então, os dois judeus, Kafka e a mãe, montaram um circo de horrores nos meus dias. Resolvi ir para a terapia. A intenção era deixar minha mãe no consultório, o que acabou acontecendo. Durante as sessões de escrita, a mãe da personagem passou a ser outra. Mesmo assim, Kafka continuava a me perseguir. O escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, que me acompanha sempre, me sugeriu um novo título, o que agora batiza o livro, e uma nova direção — eu podia ser mais leve. Coloquei Kafka de volta no altar dele e parei de incomodar o coitado. Livre desses espectros, comecei a me divertir escrevendo. Claro que minha mãe não gostou nadinha de eu ter feito um livro com esse título, ainda por cima narrado em primeira pessoa. Mas ela aceita bem o fato de eu fazer ficção. É a primeira a dizer que quem confunde autor com narrador é burro. Ela me diz que se recusa a ler o livro, que eu sou muito "sem-vergonha" escrevendo. Mas é uma maneira higiênica de nós duas sermos mãe e filha. Foi um alívio.






Porque você escolheu a gordura como a conseqüência visível dos conflitos afetivos da narradora?



Gordura é algo evidente: usá-la como recurso narrativo cabia nos meus propósitos. Gordura é delação da dor, é angústia feita matéria. Além disso, gordura é também um troço muito, mas muito, ridículo. Minha idéia era de que os conflitos internos gerassem algo mais do que tristeza, algo que fosse engraçado e trágico — como todos os dramas. Em resumo: eu queria me divertir um pouco com o outro lado da tragédia. Como sou da turma dos "fortinhos", aproveitei minha liberdade autorizada. No livro, à medida que os conflitos vão indo embora, o corpo da narradora começa a reagir e sair de seu estado alterado. Ou seja: há uma evidência física que indica o alívio interno. Na vida também é assim, não é?.



Um tema freqüente em seu livro são as tensões entre destino e livre arbítrio. Em que medida, e de que maneira, na sua opinião, o homem pode ser livre?



Usando uma expressão bem gaúcha: tchê barbaridade, que pergunta! Num leque que vai da filosofia à auto-ajuda. Eu acho que o livre-arbítrio é uma piada de mau gosto do Criador ou da natureza, o nome que se quiser dar. É muita responsabilidade para um ser humano gerenciar sua própria vida. É inegável, no entanto, que a humanidade se funda na escolha, na vontade e na tesão de realizar. Acho que, apesar de ser uma piada infame, o arbítrio é a única forma de liberdade. A gente não escolhe o início ou o fim da nossa história, que é o destino comum dos seres. O miolo do enredo, esse a gente tem obrigação de criar, sem direito a rascunho — só se é livre no meio das duas pontas da vida, nascimento e morte. E a gente só é livre se tem alegria, desejo e misericórdia. Os personagens, coitados, têm o destino traçado. Lamento por eles, mas é minha expressão de liberdade. Tem uma frase muito boa do Isaac B. Singer a respeito: "Não há escolha: estamos presos ao livre-arbítrio". O livre-arbítrio é uma gaiola de ouro. Mas nunca deixa de ser gaiola.



Desde que Freud interpretou o mito de Édipo como expressão de um traço universal da formação humana, muito tem sido dito sobre o ódio dos filhos pelos pais. Existe também um ódio dos pais pelos filhos?



Certamente. Se eu não acreditasse nisso, já teria me atirado de cima da ponte. A grande sacada de Freud, acho, foi revelar a ambigüidade das pulsões. Mães não são anjos de puro desvelo, filhos não são nenês inocentes a vida inteira. Mãe é gente, filho é gente. A santa com avental sujo de ovo e amor no coração é uma imagem de calendário. Um filho que só fosse bom e querido seria uma lesma pegajosa. Os conflitos são essenciais, nenhum é descartável, as pessoas se fazem o mal necessário para a vida. Problemas, brigas, conflitos fazem parte do jogo. Na verdade, os filhos são uns monstros criados a mingau de aveia; depois, eles se tornam mães e pais e revelam o diabinho que vive neles. Normal. Normalíssimo. E creio que o problema realmente filosófico é matar ou não os pais ou os filhos da gente. Num plano metafórico, é claro. Essa morte é necessária para que a vida do outro inicie.






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