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23/03/2007 - Revista 18 (fev/mar/abr 2007)
"Carta à mãe", por Berta Waldman

“Carta à mãe”


“O Criador não pode estar em todos os lugares, por isso criou as mães.” (Ditado judaico citado no romance)


A primeira impressão que se tem diante do título do recém-lançado livro da escritora gaúcha Cíntia Moscovich Por que sou gorda, mamãe? (Rio de Janeiro, Record, 2006) é que se trata de um manual de auto-ajuda. Mas não é. Também não se trata de um diário de adolescente. A autora arrisca criar um (falso) apelo para o leitor que busca respostas aos diversos tipos de problemas voltados ao corpo e à alimentação, tão em voga nos dias que correm, e afastar os que se interessam por boa literatura. Mas por que criar uma expectativa que não se cumpre? Talvez para introduzir, desde o início, ao lado do tom grave e introspectivo, o humor que vinca o texto, um humor próximo ao de Woody Allen, onde não faltam neuróticos, uma mãe hipocondríaca e excessiva, uma filha implacável consigo mesma, e cenas com personagens gordos, verdadeiros “desastres genéticos”. Talvez, ainda, para incluir os leitores no aprendizado da frustração que sobra sempre que se passa a vida a limpo, porque os filhos não são como os pais gostariam, estes não são como os filhos esperam, os casais não se completam nunca de forma absoluta. Afinal, se viver engorda, também frustra.(Ou engorda porque frustra?) O que o romance oferece é matéria autobiográfica que retoma uma história de mãe e filha, ampliada para avós e avôs, irmãos, tias, exílio, amor, escritura, judaísmo e necessidade de transmissão. É num passado recriado pela memória que a autora-narradora busca alguma resposta que explique as razões de sua gordura.
Sua interlocutora é a mãe. Como se trata de um acerto de contas e como a autora a elege como sua destinatária, o texto lembra o clássico Carta ao Pai , de Franz Kafka, embora o tom e o alvo sejam diferentes. O elemento deflagrador do romance é apresentado no prólogo onde a escritora-narradora revela a catástrofe de haver engordado 22 quilos nos últimos quatro anos:

“Nos últimos quatro anos de vida, meu corpo se revoltou: inchei, como se, por dentro, quisesse caber em mim. Por fora, passei a não caber em mais nada.
Botões se recusavam a se encontrar com suas casas, os dentes metálicos dos zíperes se rebelavam contra o encaixe, faixas, cadarços, tudo encurtou.”(p.16)

É à mãe que a narradora endereça seu pedido de ajuda. “Que a senhora me ajude a palmilhar esse território metafísico das recordações. Que me ajude a mandar essa dor embora. Quero voltar a ter um corpo” (p.19)

A narradora começa num ponto de interrogação: Por que sou gorda, mamãe? E o romance é a procura de respostas para essa pergunta.
Assim, a questão que centraliza os desdobramentos do texto é o lugar da comida numa família judaica ashkenazita determinada. Nela, o ritual da comida é sagrado. A precisão da hora do almoço, hora do jantar, a abundância de alimentos, tudo funciona como a contrapartida da fome passada no shtetl, onde a sopa de beterraba e o mameligue (espécie de mingau) formavam o cardápio possível. O apetite e a voracidade ancestral passa da geração dos avós imigrantes para a geração dos pais e chega aos filhos, onde se inclui a narradora. O lugar da comida e seu papel preponderante nas reuniões familiares é algo que pode ser estendido à comunidade judaica em geral, e isso é tão verdadeiro quanto mais próximo se está daqueles que tiveram que emigrar devido à pobreza, ao anti-semitismo, transferindo para cá a hipertrofia da fome, do medo e um vazio indefinido a ser preenchido.
Ao tratar de alimentos, o romance lida também com as lembranças, ambos triturados e transformados em escritura. É na sua superfície que se desenovela uma história protagonizada pelas avós (a Avó Magra, a Avó Gorda), os pais e os filhos, contada em português (idioma da nova pátria), mas tendo o ídish (indicador da origem judaico-européia, e o passado) como pano de fundo, sinalizando um processo de transmissão e também de reterritorialização. Assim, comida, língua e escritura são elementos interligados e juntos recompõem um “romance familiar”, para usar a expressão de Freud, esse outro judeu que dissecou, em âmbito doméstico, a dinâmica afetiva do recalque e do ressentimento.

“Não me lembro quando comecei a comer feito gente grande. Nunca mais parei./.../ Demorei a me acostumar com o tamanho de meu corpo. Com o comprimento de minhas pernas e braços e, principalmente, com a circunferência de minha cintura – compacta. Nas fotos de quando eu tinha meus dez ou onze anos, apareço tão desajeitada quanto redonda. Carpins brancos, sapatos vulcabrás pretos, blusa volta-ao-mundo branca e uma saia, plissada, de tergal azul-marinho, na qual a costureira, dona Idália, havia gasto metros de tecido.” (p.37)

A auto-imagem da narradora, o ódio do próprio corpo, é visível na forma como se enxerga e os nomes que se atribui: “baleia”, “demônio”, “elefante”, “melão”, “diabo inchado”. Ela aprende da mãe que o corpo carrega a morte por ser sede de doenças que róem por dentro; a menina herda a hipocondria da linhagem feminina da família (mãe e avó) que omitem o amor ao corpo vivo, matéria que não deveria padecer as dores do espírito. São essas dores que provocam peregrinações por médicos, a evocação de doenças e remédios, além do gozo deslocado que daí decorre, que nem as sessões de psicanálise a que a mãe se submete resolvem.
A desaprovação da mãe em relação à filha manifesta-se em diferentes níveis: seu casamento com um “gói”; ter ficado com o “melhor imóvel” depois da morte do pai; ter se tornado escritora, quando era destinada a médica ou advogada; ser egoísta e não dar a atenção que “a mãe merece”; enfim, o desajuste é geral contraponteado apenas pela intervenção do olhar positivo e bondoso que o pai lança à filha, sheine meidele (menina bonita). Mas a morte prematura do pai reforça a relação atritada entre mãe e filha e aumenta as demandas não cumpridas de ambos os lados.
Geração nascida em outra língua e outra terra, a história da Avó Magra que carrega as marcas da diáspora e a vivência de um amor frustrado é um marco na formação da neta. Sua chegada ao Brasil, a vida na Romênia, a desobediência do bisavô em servir na guarda do czar, a saga, enfim, de uma família que se desloca para um longínquo país, desembocando na colônia de Quatro Irmãos, no sul do Brasil, onde tudo é novo, diferente, amedrontador. São dali os relatos fantásticos, como o do índio que falava ídish, que as crianças gostavam de ouvir. As diferentes gerações distanciam-se também pela falta de um idioma comum; os filhos e netos não são falantes do ídish, embora ele circule em âmbito doméstico, para nomear as comidas, elogiar, agradar, xingar. Por outro lado, a geração de imigrantes não tem o português como seu idioma. Circulam no romance palavras em ídish, principalmente as referentes à comida: “varenikes, beigales, mondales, knishses, strudels, iuchs, kasha, rossale, borscht, guefiltefish, chrein, kishke, kreplach, tzimes;” fazia-se comida para um exército, tudo porque “a cozinha é a matriz do afeto de nossa gente” (p.49). Então, como não comer, se comendo agradava à mãe, à avó? Como não comer, se a comida aplaca as ansiedades? Como não comer, se a gordura era sinal de saúde?

“Às sete da manhã, mal se pulava da cama, e uma nuvem aromática e úmida já tinha invadido a casa. As panelas ferviam galinhas, as cebolas se atiravam à fritura; as lâminas das facas trituravam ramos de tempero verde, colheres de pau puxavam refogados nas caçarolas, batalhões rechonchudos de almôndegas se alinhavam nas tábuas de carne, ao lado de um fornido regimento de varenikes, que logo iam encontrar seu destino na água pelando. No bairro inteiro, cedinho, frio ou calor, chuva ou sol, mãos zelosas estripavam peixes, recheavam pimentões, cortavam ovos duros, mexiam guisados, lavavam arroz, arrancavam folhas dos ramos de louro”. (p.48)

A atenção ao alimento transparece nesse fragmento em que sua elaboração se reproduz no ritmo de frases bem lapidadas, fundindo memória e genealogia na referência ao preparo de pratos da cozinha da Europa Oriental, incumbência da geração de imigrantes radicados no Brasil.
Quanto ao uso do ídish, ele é circunscrito a um léxico familiar, isto é, uma palavra desencadeia o mesmo efeito nos membros da família, como se fosse uma senha. Às vezes, a narradora empaca na palavra que falta, que esqueceu ou que desconhece. É o caso da palavra “liberdade”. Na imaginação de seu avô, ainda na Romênia, no Brasil haveria liberdade.

“O avô teria dito isso, essa palavra que, em íidiche, não conheço e que em português é difícil de usar. A esperança de liberdade também é um meio de transporte. Que só anda para a frente.
Será que não saber como se diz liberdade em íidiche cega o olhar adiante?” (pp.58-59)

É justamente a palavra que falta, a tentativa de enunciar o indizível que funciona no texto de Cíntia Moscovich como um ponto virtual que guia sua linguagem. A palavra “plena”, em contrapartida, está nos ditos e frases feitas, que funcionam, no romance, como cápsulas de filosofia do senso comum a serem transmitidas de geração a geração. Elas deixam de fora o “resto”, o que é impalpável, enquanto deslizam formando uma corrente de transmissão, que une, mas também aprisiona. Cito alguns exemplos de ditos que circulam no romance, tanto no discurso da personagem-narradora, como no discurso das personagens:

“Para que o milagre aconteça, é preciso não esperar por ele.” (p.89)
“Avós e netos se dão bem porque têm um inimigo em comum.” (p.99)
“O amor é o banquete da existência; viagens são a sobremesa.” (p.101)
“Qualquer idiota tem motivos para queixas; o difícil é rasgar o véu da existência com alegria.” (148)
“Os verdadeiros mortos são aqueles que não são lembrados.” (p.151)
“O Criador não pode estar em todos os lugares, por isso criou as mães.” (p.151)
“A diferença entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites.” (p. 188)

Como se trata de um romance autobiográfico em que a escritora-narradora faz um acerto de contas consigo mesma e a catarse da difícil relação com a mãe, a escavação arqueológica da história familiar cria um certo entendimento ao ressaltar o modo como os papéis familiares se desdobram e se espelham. Acompanhando o entendimento, diminuem as garfadas na dieta da narradora, que, ao final do romance, já quase perdeu os 22 quilos adicionais.
“Continuar vivendo é algo que pode tornar uma pessoa alheia de si mesmo. Viver engorda (p.246).” A obesidade é a metáfora viva dessa existência cuja mecânica consiste em se desfigurar para tapar seus buracos. Evitando a completude e assim tapar os buracos do relato, cuidando em não criar enxertos na memória, o texto de Cíntia Moscovich é descontínuo, não linear, sem gordura e cheio de graça. Bom saber que a escritora assumiu, afinal, seu ofício integralmente, o que é, com certeza, um ganho para a literatura brasileira.



Berta Waldman


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