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26/6/2008 - BR Press /por Guilherme Bryan
Pra Porto Alegre e tchau

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Quinta 26/6/2008 10:39:24
LITERATURA – Pra Porto Alegre e tchau

Guilherme Bryan*/Especial para BR Press
(BR Press) - Cíntia Moscovich é uma das convidadas da oitava Festa Literária Internacional de Parati (Flip), que acontece 02 a 06/07, na cidade histórica fluminense. A escritora participará da mesa que terá como tema a intimidade feminina na literatura.

Uma das expoentes da Geração 90, a escritora gaúcha parece ser perfeita para abordar esse assunto. Afinal, o que se percebe em sua obra é um olhar feminino bastante particular e profundo. Isso se confirma com o lançamento do ótimo Mais ou Menos Normal (Publifolha, R$ 19,90, em média), que integra a coleção Cidades Visíveis, com obras de Antonio Risério, Fernando Bonassi e Adriana Lisboa.

O início de Mais ou Menos Normal é avassalador: “Porto Alegre é uma cidade estranha. Aliás, muito estranha. Deve ser a única cidade no mundo que tem uma ponte com árvores plantadas”. A história é protagonizada por Gaia, filha de um casal de hippies, que, enquanto sofre por imaginar-se adotada, se envolve com dois amigos, sendo que um deles tem o genial nome de Prefácio e o outro é filho de um importante ministro, que sofre um atentado.

Como uma espécie de teia que entrelaça o romance há um pouco da paisagem, da história e da cultura pop da capital gaúcha, e muito da linguagem regional, mesmo que sem se valer da presença constante de gírias.

Vencedora do Prêmio Jabuti pelo livro de contos Arquitetura do Arco-Íris, Cíntia Moscovich é dona de um texto que envolve o leitor de modo inesperado. Parece haver uma liga indestrutível entre os parágrafos, frases e palavras. Por isso, torna-se quase impossível largar esse livro por um instante que seja. Em troca, o leitor parece desvendar um pouco de um universo cheio de mistérios e boas surpresas.

Cíntia Moscovich comenta, a seguir, a quebra de seu medo de livros por encomenda, da cultura gaúcha e da participação na Flip 2008.

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Qual é a sua expectativa com relação a participação na Flip 2008, numa mesa que tem como tema as intimidades femininas na literatura?

Cíntia Moscovich – Tenho muita expectativa com relação a essa atividade, à mesa em que estaremos três mulheres conversando. Creio que o importante é a troca de idéias, entre as autoras e delas com o público presente. A riqueza é isso, o encontro, a possibilidade de conversar. A Flip tem proporcionado isso, o diálogo. É precioso.

Quais foram os maiores desafios de se realizar um livro par a coleção Cidades Visíveis? Imagino que havia alguns aspectos temáticos que você deveria seguir, não?

Cíntia Moscovich – Sim, havia sim. O editor me incumbiu de fazer da cidade de Porto Alegre personagem do livro, coisa que acho que consegui. Também deveria haver o uso de linguagem local. Tudo isso, claro, sem tornar o livro uma peça isolada e exclusiva para leitores do Sul. O desafio foi esse: lançando mão de aspectos locais, não cair na armadilha de um texto que ficasse cifrado ou datado. Como gente existe em toda a parte e como de uma forma ou de outra as cidades se parecem, busquei os valores humanos e comuns, que valem aqui ou em qualquer outra parte.

Por se tratar de uma encomenda, em algum aspecto você sentiu que sua criação de certo modo ficou mais amarrada e perdeu com isso? Por quê?

Cíntia Moscovich – Talvez a princípio tenha achado um pouco mais difícil. A literatura é algo essencialmente livre, e eu, confesso, tinha um pouco de preconceito com relação a encomendas. Tudo caiu por terra, no entanto. Descobri que se pode fazer literatura mesmo com algumas diretrizes: é só organizar o pensamento. Também me dei conta de que gente é gente. O drama humano, pensando bem, não é nunca original. Um drama humano vale para qualquer quadrante do globo. O que eu tinha era medo de encomendas. Já não tenho mais.

Em Mais ou Menos Normal, você mistura uma ficção com informações referentes à paisagem e história de Porto Alegre. Porém, pelo fato da narração ser da adolescente Gaia, fica-se com a impressão de que ela é extremamente bem informada a respeito da cidade, o que talvez não fosse condizente com a idade que possui. Você concorda?

Cíntia Moscovich – Não, não concordo. Mesmo porque me orientei pela minha sobrinha Gabriela, que tem a mesma idade da Gaia. Crianças são crianças, não são burras, desavisadas ou desorientadas. Também descobri isso, e não creio que sejam só os adolescentes porto-alegrenses que conhecem super-bem sua cidade.

Um dos aspectos fascinantes de Mais ou Menos Normal é que, sem se valer de gírias, você consegue transmitir a linguagem regional gaúcha de modo muito saboroso. Até que ponto essa atitude é consciente e como a avalia?

Cíntia Moscovich – Não sei avaliar. Não sei mesmo. Enquanto escrevia, eu tinha a “voz” de todos os meus conhecidos na cabeça. Aquele era o tom, aquela era a prosódia que devia orientar a fala, narração e descrição. Eu tinha muito medo das gírias, que nascem hoje e morrem amanhã. Ao menos em teoria, livros duram e perduram. Acho que foi o “tom” da fala porto-alegrense, digamos assim, que me ajudou. E muito obrigada pelo elogio.

Você também cita muitas bandas gaúchas no livro, como Acústicos e Valvulados e Tom Bloch. Há uma espécie de bairrismo nisso ou é um modo de valorizar grupos que só conseguem fazer sucesso no resto do país muito depois de já serem consagradas no Sul?

Cíntia Moscovich – Juro que nunca pensei nisso. Mencionar essas bandas foi natural: era um livro sobre Porto Alegre, não era? E quem me lembrou de alguns nomes foi a filha do meu editor, o Arthur Nestrovski. Alguma delas, como o Acústicos e Tom Bloch, sou fã de carteirinha. E não é porque são gaúchas. É porque são boas.

(*) Guilherme Bryan é autor do livro Quem Tem Um Sonho Não Dança - Cultura Jovem Brasileira nos Anos 80 (Record, 2004).



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