Críticas publicadas:

02/07/2008 - Folha Online
Veja perfil de Cíntia Moscovich (Participação na Flip 2008)

Veja perfil de Cíntia Moscovich
da Folha Online

Natural de Porto Alegre, Cíntia Moscovich é uma autora que mistura a melancolia do trágico de suas situações com o humor que se autoparodia, típico da tradição judaica da qual faz parte. E a referência judaica não é gratuita: em "Por que Sou Gorda, Mamãe?" (Record, 2006), a autora elege, à moda de Woody Allen, a figura da mãe como a grande "castradora", eterno adjetivo do imaginário judaico, mesmo quando voltado ao universo feminino, como é o caso aqui.

Divulgação

A escritora Cintia Moscovich, que participa da Flip-2008, em Paraty

Invertendo a fábula retórica de Franz Kafka (1883-1924), no autobiográfico "Carta ao Pai" (Cia. das Letras, 1919), onde o aspecto cruel da infância e adolescência do jovem judeu em uma Praga dominada pela cultura germânica, mimetizada no pai, Moscovich opta pela via humorística do relato --em certo ponto do livro, e mesmo o título sugere isso, fica clara a paródia feita aos livros de auto-ajuda. Mas, onde Kafka apenas tocava levemente no judaísmo, aqui há um choque direto, as referências são mais claras e menos esparsas.

Retrato de sua condição de judia e de mulher, a autora busca na literatura uma maneira de exorcizar essa transmissão sanguínea, entrecruzando memória e tradição com invenção e ficção, estratagema peculiar à literatura judaica. É a auto-ironia à toda força, mas nesse caso, mais evidenciada devido ao particular feminino, que é explorado com propriedade e sem exageros verborrágicos.

Sua reunião de contos "Arquitetura do Arco-Íris" (Record, 2004) ganhou o prêmio Jabuti e deu hoje à autora a visibilidade merecida. Sempre trabalhando com opostos, Moscovich opera uma verdadeira arma de fogo narrativa, mas toma o cuidado de escolher para onde atira --e como atira. Sua violência verbal se esconde no impalpável das relações familiares cada vez mais sem liga, sem material de amarra.

Na mesa 5 da Flip, Cíntia Moscovich debaterá com a inglesa Zoë Heller e com a portuguesa Inês Pedrosa a função [se é que possível definir esse termo em literatura] de uma literatura capitaneada por mulheres nos dias de hoje. Há uma confluência, um ponto em comum entre as diferentes gerações presentes no debate? Aquele leitor que busca a resposta para tais perguntas ou que pretende pensar a respeito (isto é, pensar a atualidade, pensar o feminismo hoje etc.) com certeza não deve deixar de prestigiar o debate.

Fonte: Flip; Record



<<voltar