Críticas publicadas:

07/11/2008 - Público (Lisboa), por Eduardo Pitta
Arquitectura do arco-íris

O que é que leva um editor português a publicar como Arquitectura do Arco-Íris um livro que se chama, de facto, Arquitetura do Arco-Íris? A minha liberdade de utilizar a forma portuguesa em detrimento da brasileira não muda o que outros escrevem. Cíntia Moscovich (n. 1958) escreveu “arquitetura” como se escreve no Brasil, e o editor português, vá-se lá saber porquê, grafou a palavra de acordo com a norma portuguesa, tendo ainda adaptado à nossa sintaxe o conteúdo da obra. Ora, por criteriosa que seja a adaptação de Cláudia Duarte, não há volta a dar ao facto de que desse modo deixamos de ouvir a fonética original.

Cíntia Moscovich não é propriamente uma desconhecida em Portugal. Participou do colectivo Putas, antologia de contistas portugueses e brasileiros que a Quasi publicou em 2002, e o romance Duas Iguais saiu há dois anos na Bico de Pena. Com livros publicados desde 1996, num espectro que vai da literatura para a infância às novelas eróticas, sem esquecer o judaísmo ou a condição feminina, Cíntia Moscovich tem dividido a actividade literária e o jornalismo com a docência em teoria da literatura. No intervalo, dirigiu o Instituto Estadual do Livro. A origem judaica é um Leitmotiv recorrente, estando mesmo representada com um conto em Jewish Writing in the Contemporary World: Brazil (2000, University of Nebraska Press). Tal como neste livro, em que um provérbio e a epígrafe de Isaac Bashevis Singer — «Não há escolha: estamos presos ao livre-arbítrio» — dão o tom exacto. Num país como o Brasil, em que a tradição do conto é muito forte, e a fasquia muito alta, Cíntia Moscovich integra, com diferente grau de conseguimento, a geração que tem em Bernardo Carvalho, Fernando Bonassi e André Sant’Anna os melhores exemplos.

O telhado e o violinista, conto que abre o volume, faz um trocadilho irónico com o filme que Norman Jewison fez em 1971. Começa com um insulto: «Judia suja.» Quando o ouve da boca de outra criança, a menina de nove anos sente a vulnerabilidade da sua condição: «Fiquei ali, parada, paradinha, olhando para a menina, que, subitamente, se tornara dona de uma voz tão impositiva que se assemelhava à verdade. Sem sabermos, ela ou eu, obedecia a velhas tradições — era um conhecimento com que os ruins já nascem.»

Dividida em duas partes (Dispersão da Luz: O Arco-Celeste / Espectro Solar: O Arco-de-Deus) de cinco contos cada, a colectânea não alinha o passo com o ar do tempo. E se há nela um propósito de alegoria não é com certeza o das trocas sociais sob o signo do politicamente correcto. Ao contrário, Cíntia Moscovich traça um mapa de reminiscências não diria biográficas, porém nítidas: «Na poltrona ao meu lado estava um homem, que se fixava na mesa de centro com o olhar bem límpido e muito aberto. [...] Não sei se era um homem belo; beleza, não sei. No perfil de linhas rectas havia substância de ossos e resistência de músculos; o queixo revelava-se um pouco débil para tantos ângulos.» O guionismo é uma tentação? Há muito que a literatura, ou grande parte dela, foi contaminada pelo método (é maior o ganho que o prejuízo). Cíntia Moscovich não escapa à regra, salvo quando a intromissão de tiques culturalistas amolece a trama. Mas Borges é o avatar de duas ou três gerações obrigadas a marcar ponto... Isso leva a que O tempo e a memória use e abuse do argentino, numa luta inglória com Ficciones.

A segunda parte tem Inês Pedrosa a abrir: «[...] Ensina-me a tua morte que em vida apenas pude surpreender.» As pequenas intrigas familiares, esses relatos do quotidiano sem história, pontuados pelo zunido da «varejeira a bater insuportavelmente azul contra a vidraça», afectos envergonhados ou apenas displicentes, défice de surpresa e júbilo no ofício de viver, casas, muitas casas (os fantasmas, as sombras), infância perdida, tudo isso Cíntia Moscovich capta com subtileza e propriedade. Mas desconfio bem que a adaptação do original à norma portuguesa tenha retirado força ao discurso.


Trocadilhos irónicos e tiques culturalistas, in Ípsilon, 7-11-2008, p. 47. Três estrelas e meia. [A edição do jornal em papel omite a minha assinatura porque um problema na gráfica fê-la cair. Conferir em O Público errou.]
Etiquetas: Crítica literária



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