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09/05/2009 - Zero Hora, Cad. Cultura. Por Carlos André Moreira
Uma mãe menos santa

09 de maio de 2009 | N° 15964AlertaVoltar para a edição de hojeLIVROS


Uma mãe menos santa


Romances nacionais recentes abordam os aspectos mais sombrios e menos idealizados da clássica figura maternaContrariando a frase de caminhão, mães são várias. A temática da maternidade foi tratada de diferentes formas na literatura, incorporando elementos do imaginário de cada comunidade. Em uma sociedade patriarcal e de formação religiosa historicamente dominada pelo catolicismo, como a brasileira, grandes romances foram escritos contrapondo o herói burguês de aspirações românticas – ou simplesmente inadequado à realidade em que vive – com a presença autoritária ­do pai/patrão, símbolo da ordem estabelecida, não por acaso também historicamente repressora no Brasil. Às mães, contudo, foram reservados na ficção brasileira tradicionalmente papéis muito aparentados com o imaginário dominante desde os tempos coloniais – vinculando maternidade e santidade.

Os grandes conflitos se davam com o genitor de sexo masculino, e mesmo em obras transgressoras como As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, os danos causados pelas mães têm raiz mais no descumprimento da missão materna, na inação ou leniência, do que na mãe como sujeito de uma ação efetiva. Mesmo um agnóstico cerebral como Erico Verissimo vai enxergar no feminino as virtudes da coragem sábia e resignada nas figuras fortes que povoam o ciclo O Tempo e o Vento (em contraposição a uma representação muitas vezes antipáticas das figuras masculinas). Relações abusivas entre mãe e filhos vão ganhar voz mais frequente na ficção nacional a partir dos anos 1970, em obras como a de Lya Luft – cujos romances As Parceiras e A Asa Esquerda do Anjo põem a nu o tanto de violência que se encontra no exercício dos papéis familiares de convivência. Moacyr Scliar vai tangenciar o tema aproveitando para fazer humor com o estereótipo da mãe judia, nutridora obsessiva – a clave em que Scliar opera é mais suave e desprovida de rancor que a de um Philip Roth em Complexo de Portnoy, por exemplo, afinal, como dissemos, as reações aos estereótipos se dão de forma diferente de acordo com a proposta artística do escritor.

No geral, contudo, a tônica da literatura nacional (eco de uma predisposição da literatura universal, a bem dizer) é voltar-se para o pai – a crítica feminista sempre ressaltou que a própria condição da maternidade imposta era (mais) uma arma com a qual o patriarcalismo poderia subjugar a vontade feminina. Com a atual realidade feminina no mercado de trabalho, o foco da representação maternal se transfere do sagrado (a “santa mãezinha” de inspiração religiosa) para o campo da eficiência heroica (não poucas vezes o entretenimento se debruça sobre a “supermulher” polivalente que “equilibra maternidade e carreira profissional”). E é justamente em meio a esse cenário que vamos encontrar, no vale-tudo da pós-modernidade, representações desapiedadas sobre o papel da mãe. Três romances brasileiros publicados nos últimos três anos vão lançar sobre a figura materna um olhar que, se não chega a ser integralmente de reprovação, estão longe da veneração sentimental de outros tempos: Por que Sou Gorda, Mamãe?, de Cintia Moscovich (2006); Cordilheira, de Daniel Galera (2008); e O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho (2009).

Por que sou Gorda, Mamãe?, é uma perfeita contraposição da literatura de conflito voltada ao pai, a começar por seu modelo, a Carta ao Pai, de Kafka. Em vez da tirania patriarcal declarada da obra do escritor checo, a protagonista do romance de Cíntia Moscovich, uma escritora que revê a relação com a mãe ao mesmo tempo em que tenta perder os 22 quilos adquiridos em quatro anos, vivencia uma opressão mais plena de matizes e complexidades: a criança feia que não está à altura da mãe elegante e com ares de grande dama; a adolescente que encontra na liberação sexual um instrumento de rebeldia contra a moral vigente representada na figura da mãe; a mulher que desafoga na comida as frustrações de uma vida vivida como resposta à figura inescapável da mãe; todas etapas que a protagonista vai desnudando em sua crua reflexão à medida que vai se livrando dos quilos perdidos. A equação “mulher neurótica + dieta” é problemática porque pode ser mal compreendida como um arremedo de Bridget Jones – tudo o que o livro não é. Não se trata de um livro mulherzinha sobre “a fome de amor na modernidade”, e sim de uma investigação dolorosa sobre o amor como fome.

Já O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho, constrói sua trama a partir da negação da “sagrada vocação materna” – somando-se a isso a estranheza de o livro se passar na Rússia, o que dota a história de uma sensação iminente de desastre na opressiva atmosfera de São Petesburgo. O centro de O Filho da Mãe é o encontro de dois jovens perdidos nas ruas da antiga cidade imperial, ambos marcados pela covardia das respectivas mães. O checheno Ruslam é filho da russa Anna – que acompanhou o marido de volta até a Chechênia e fugiu tão logo teve o filho. Depois de perder o pai e os demais parentes nas duas guerras da Chechênia, o jovem Ruslam embarca para São Petesburgo em busca da mãe, a quem nunca viu – a essa altura já com uma nova família. Já o russo Andrei é filho de um biólogo brasileiro ex-comunista exilado em Moscou. A mãe e o pai separaram-se quando ele nasceu e o pai voltou para o Brasil. Anos depois, Andrei conhece a rotina de abusos no exército do país – em parte pela covardia da mãe. Ciente da selvageria dos quartéis russos (um país no qual suspeitas de assassinato recaem sobre os órgãos do próprio Estado), Andrei havia tentado escapar do serviço militar por todos os meios possíveis para um rapaz de classe média-baixa: o estudo, a corrupção, o suborno e um falso atestado médico. Quando estava prestes a conseguir, foi contrariado pelo padrasto, oficial da marinha, para quem a experiência do exército era necessária para “formar o caráter” de um russo de verdade. A mãe, embora lamente pelo destino do filho, é fraca demais para contrariar a vontade de seu homem – e Andrei é deixado à própria sorte e tem de se alistar.

Na história contada por Galera, em Cordilheira, Anita é uma jovem escritora que estreou na literatura com um romance que teve boa recepção crítica – mas a perspectiva de uma carreira na literatura a enfada. Está tomada por um novo e obsessivo projeto: ter um filho com o namorado de longa data, Danilo. Anita é uma personagem representativa de uma juventude que quer ter o direito de errar e experimentar caminhos sem a necessidade de cumprir as expectativas de terceiros. O filho em si é um detalhe, uma tentativa de suplantar um vazio que o livro, habilmente, dá a entender que não seria aplacado com a realização das aspirações da jovem.

Anita já lançou um livro, mas no momento em que os demais começaram a encará-la como escritora, ela se desinteressa dele. Em um tempo em que a maternidade como vocação não é mais exigida de mulheres da idade e da classe social a que pertence, é justamente esse o momento em que Anita decide que o sentido de sua vida é a maternidade, a gestação de um ser que a ame incondicionalmente, como seu pai falecido a amava. Galera não cita, mas é inevitável pensar no ensaio de Freud sobre a feminilidade, no qual o fundador da psicanálise identificava o anseio pela maternidade como uma manifestação do complexo de castração. Com sabedoria de autor, entretanto, Galera não deixa que nada na narrativa de Cordilheira garanta que Anita não vá se entediar ou se desinteressar pela maternidade se conseguir concretizá-la.

Porque ser mãe não é vocação. É uma tarefa delicada para a qual algumas pessoas não têm vocação alguma.



CARLOS ANDRÉ MOREIRA


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