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23/01/2010 - Zero Hora, Caderno de Cultura
Susto, lucidez e transcendência (sobre Clarice Lispector)


Susto, lucidez e transcendência


O essencial para se ler e se usufruir de Clarice é que o leitor não entre em pânico e que desista de encontrar platitudes e lugares comuns em seu textoQuem lê Clarice Lispector por primeira vez leva um susto – e isso, o susto, pode significar, por um lado, uma empatia imediata e fascinada ou, pelo lado contrário, sentimentos de incompreensão, de ceticismo e mesmo de profunda ignorância, não raro tudo isso junto.

Certo é que, mesmo para o leitor mais dedicado e experiente, haverá aquele momento em que a linguagem e a estrutura do texto clariciano se tornarão por demais cifrados e duros, de um escuro ininteligível e quase hostil. Assustadores. Porque Clarice é mesmo, como se costuma dizer, difícil, exigindo concentração por inteiro e disponibilidade intelectual sem restrições.

Não que para desfrutar ou para entender a obra de um autor se necessite conhecer previamente sua biografia; muito pelo contrário, texto é texto e autor é autor. Mas é bastante crível que a história pessoal de Clarice tenha se imiscuído em sua literatura ou que, de forma inversa, ela se tenha reconhecido na palavra escrita, fato que não seria incomum no universo autoral. Uma coisa é certa: escrevendo, Clarice tentava, como se fosse possível, conciliar linguagem, estrutura, lucidez e transcendência. Tamanho era seu empenho no trabalho de escrita e tanta era sua capacidade de abstração, que terminava seus livros física e animicamente exausta. Também assim, comovido e emocionalmente cansado, o leitor de Clarice chega ao fim de qualquer uma de suas obras.

Filha de judeus fugidos da Ucrânia, a autora recebeu ainda na Europa o nome de Chaya – que significa “vida” – e foi registrada como Clarice na nova pátria. Chaya-Clarice compreendia bem o iídiche falado por seus pais, embora, a exemplo de todos os imigrantes, a família se comunicasse em português – tinham urgência de ser brasileiros. Mulher de beleza exótica e de modos sofisticados, Clarice sofria de um problema de articulação de fala e pronunciava os erres com dificuldade. Volta e meia a confundiam com uma estrangeira, confusão que ela, por divertimento ou ironia, fazia questão de alimentar.

Trabalhando sem recorrer a esquemas programáticos, seguindo a própria intuição e atendendo à necessidade quase física de escrever, Clarice fez do antigo nome um imperativo; e dessa diáspora pessoal e da língua da nova pátria, sinônimos de alforria. Sua escrita é delicada, delicadíssima, cheia de torções semânticas, de filigranas subtextuais, de preciosidades estilísticas que, se por um lado pendem um pouquinho para o barroquismo involuntário, por outro chegam a sentidos até então inusitados em português ou qualquer outra língua. Clarice desarrumou as relações de transitividade verbal, de concordância nominal e de adequação léxica, num rearranjo cuja beleza beira a perfeição.

Ao mesmo tempo em que chega à excelência na linguagem, de repente e sem maiores pudores, o texto clariciano fura a superfície das palavras e arremessa seu leitor dentro do miolo do significado, um movimento ousado e que parece desprezar o valor da própria prosa para valorizar o sentido da coisa viva: a pessoa ou o bicho ou a planta sempre maiores que os substantivos que os designam - eis um grande susto. Aquilo que poderia ser, finalmente, calmaria estética se transforma em fúria de significação, o leitor conduzido ao subterrâneo mais secreto da própria humanidade, aquele terreno em que todo o juízo de valor está suspenso e em que tudo é apenas a simples e grandiosa essência da coisa. Esse é o lugar da “náusea doce”, da “insuportável alegria”, de todos os pares paradoxais de linguagem que resumem dor e delícia sobre a terra. É como se, de uma hora a outra, as palavras perturbassem a ficção e como se a verdade que preside a própria Verdade fosse apenas silêncio. Ou, no máximo, o zumbido de um inseto ou as patas majestosas de uma aranha numa árvore. Difícil de entender, mas de um apelo subjetivo impressionante.

Com um sentido de solidariedade urgente e sempre se movimentando em direção ao outro – porque, a consciência de que o outro existe é um susto necessário –, Clarice faz parecer, uma e outra vez, que prosa de ficção é simples. Vale-se de metalinguagem e escreve sobre escrever, colocando em xeque seus narradores e o destino traçado para seus personagens, como em A Hora da Estrela, em que o narrador, Rodrigo SM, retarda o que pode, e por piedade e apego, a morte de Macabéa, a heroína mirrada e de pouquinhas virtudes.

Com um pé no misticismo e com fé no poder da literatura, Clarice nunca teve pena de seu leitor, nunca quis fazer da leitura um prazer descompromissado. O leitor que corra atrás do sentido, que deslinde a trama, que entenda quanta ação interna cabe em resmas e resmas de aparente inatividade física – em A Paixão Segundo GH, a personagem passa o romance inteiro matando uma única e já esmagada barata. O essencial para se ler e se usufruir de Clarice é que o leitor não entre em pânico, que desista de encontrar platitudes e lugares comuns em seu texto. Escrever, afinal, era motivo de vida para a autora e, pensando bem, uma forma de renunciar ao pensamento genérico. Para um escritor que lê Clarice – ou para qualquer leitor – um dos melhores ensinamentos é a disposição para o susto, é o amor ao susto, é fazer do susto descoberta boa que combata a pieguice, a mediocridade e a prepotência do senso comum.

* Escritora, autora de “Duas Iguais” e “Por que sou Gorda, Mamãe?”

CÍNTIA MOSCOVICH*


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