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06/02/2010 - Zero Hora/ P. 2 (interinidade Claudia Laitano)
A força do pensamento negativo

06 de fevereiro de 2010 | N° 16238AlertaVoltar para a edição de hojeCÍNTIA MOSCOVICHA força do pensamento negativo
Na minha época de colégio, era comum que estojos de lápis, aquelas caixinhas de madeira com tampa deslizante, viessem com uma inscrição esquisitíssima: “Hei de vencer”. Eu nunca entendi direito o que aquilo significava e, assim, meu material escolar só tinha desenhos de flores ou de bichinhos.

O tempo passou – coloca tempo nisso –, até que, na semana passada, topei com a edição de fevereiro da revista Vida Simples. A chamada da capa me pareceu divertida: “O poder do pensamento negativo”. A matéria, beleza de texto assinada pelo escritor, jornalista e roteirista Ronaldo Bressane, faz refletir sobre, claro, o “pensamento positivo”, uma bem-intencionada técnica motivacional mas que fez com que o gênero humano banalizasse a dor, os sentimentos e, finalmente, o próprio raciocínio. O otimismo, que deveria ser a face alegre da lucidez, acabou se tornando uma vulgar instituição do senso comum, com suas premissas resignadas (“Há males que vêm para o bem”), esperança imposta meio a tapa (“O bem sempre vence”) e delírios para Narciso nenhum botar defeito (“O universo conspira para que você realize o seu desejo”). Explicando melhor: como viver é complicado, e refletir, dolorido, as pessoas se encaixam em clichês tranquilizadores, pensamentos mágicos que têm feito de nós uns bobos-felizes – uns Polianas, como denomina Bressane. E dê-lhe autoajuda e dê-lhe esperança fabricada de vento.

Quem viveu uma tragédia pessoal, como as duas autoras americanas citadas na matéria, Virginia Ironside e Bárbara Ehreinreich, sabe que o pensamento positivo encontra motivos de comemoração mesmo na morte e nas perdas (“Foi melhor assim”). Pela mesma batuta, há invejáveis vantagens no fato de se passar por provações físicas e psicológicas (“Depois do câncer, as pessoas se tornam melhores”). Uma outra vertente, ainda mais enlouquecida, faz com que se desconsidere o direito do outro ao sofrimento pura e simplesmente – já houve o caso de um paciente de quimioterapia ter cassado seu direito ao repouso por atrapalhar a brincadeira de um grupo de crianças.

Embora seja inegável que o sofrimento obrigue as pessoas ao exercício da humildade e à lucidez, não gostaria de passar por mais nenhuma provação. Não que eu não queira aprender mais nada, mas acho que o luxo da vida é alegria sem mágica e sem truque. E, pensando bem, eu seria bem feliz se conseguisse um daqueles estojos de lápis da minha infância, a caixinha de madeira com a tampa deslizante. Hei de vencer.




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