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30/09/2004 - Zero Hora
Com as cores da memória

A escritora Cíntia Moscovich autografa hoje "Arquitetura do Arco-íris"

LUÍS AUGUSTO FISCHER/ Escritor e professor de Literatura



De um artista, é legítimo esperar que encontre uma linguagem, um jeito específico de se expressar. É só isso, e é tudo isso, o que vem ao caso. Não precisa ser na primeira tentativa; muitas vezes uma estréia carrega tanta expectativa que não consegue carregar junto a marca pessoal. Assim é: pode o sujeito dedicar-se a esculpir gelo, movimentar-se no espaço, tirar som de alguma coisa ou escrever - o que ele precisa é encontrar seu jeito de ser, que é seu jeito de se expressar. E esse jeito precisa encontrar eco, fazer diferença em meio a tantos artistas em busca de significar, quer dizer, em busca de alcançar a ponta externa de seu sofrido metiê: a ponta da recepção. Porque não há gênios-para-si, a longo prazo, no mundo da arte.

Dito isso, vai a manchete: Cíntia Moscovich, com seu novo livro de contos, Arquitetura do Arco-íris (Record), chegou lá. Em seu quarto livro individual, é perfeitamente discernível para o leitor sua linguagem, seu âmbito temático, sua maneira de encarar as coisas, seu modo de transfigurar a vida. É uma artista que encontrou seu lugar, seu jeito de ser, sua expressão. Focando em geral o mundo das classes ilustradas, com personagens vivendo em torno da cultura letrada exigente, na maior parte das vezes com protagonistas femininas para quem a vida se apresenta em forma não de enigma mas de melancolia, Cíntia tem o apreço particular da frase, do vocabulário. Talvez neste livro mais que nos anteriores, o leitor vai encontrar a todo momento a volúpia, de vez em quando a vertigem, da palavra rara, ou porque pouco usada ou porque deslocada de seu lugar habitual na língua diária. (Para este leitor aqui, uma que outra vez essa manobra deixou a desejar.)

O bom é que nada disso é gratuito. Lidos em conjunto, os contos resultam ser uma simbiose entre aquelas personagens e este modo de ser da linguagem: as mulheres protagonistas de Cíntia parecem usar as palavras com as mesmas, escolhidas e refinadas cautelas com que usam movimentar-se nos enredos, tudo sempre muito delicado, a meia voz, sem rompantes de ordem alguma, numa contenção e num abafamento característicos da prosa - eu ia dizer feminina, mas talvez seja feminista, ou antimachista, ou antiépica, e não necessariamente escrita por mulher. A santa protetora dessa abordagem artística, no Brasil, se chama Clarice Lispector, figura que atravessa a lembrança do leitor de Cíntia com toda a força, sempre, até em certas manhas da pontuação.

Vê-se em Arquitetura do Arco-íris que há toda uma filosofia na distribuição dos textos e na nomeação de cada um. Tendo o livro como marca central o aspecto rememorativo, sete dos 10 contos são narrados em primeira pessoa, sempre depois de passado o incêndio ali narrado (o mais perfeito é Cartografia), e significativamente o primeiro e o último evocam a infância, quando a mão do pai organiza o mundo da filha. Nessa arquitetura, o leitor encontrará alimento para a leitura e para a reflexão, pela mão de uma escritora que se movimenta com grande destreza em sua conquistada linguagem, limitada pelo raio de visão social acima mencionado (mas com grande acerto no desenho dos caracteres) e vigente para muito além das trampas localistas (mas o Sul está ali).




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