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18/02/2011 - Zero Hora, página 2 (interinidade Martha Medeiros)
O amor tem feito coisas

17 de fevereiro de 2010 | N° 16249AlertaVoltar para a edição de hoje
O amor tem feito coisas
Na semana passada, a Martha Medeiros confessou, neste mesmo espaço, que havia sucumbido de amores por um filhotinho de gato recém-adotado – logo ela, que a vida inteira passou jurando que não gostava de gatos. Como eu aprendi que o amor tem dessas coisas, que a gente paga caro por ter tantas certezas e como a época é de Carnaval, me lembrei de uma história que aconteceu comigo.

Lá um belo domingo, meu marido foi atender à campainha de casa. Como ele demorasse a voltar e como a pastora alemã que cuidava do pátio não parasse de latir, fui dar fé. Foi então que eu vi: através das grades do portão, a Luciana, zelosa vizinha que costuma socorrer bichinhos em dificuldades, colocava nos braços de meu marido um filhote de cachorro. Pior: em menos de um nanossegundo, o cachorrinho deu uma lambida no rosto do meu marido. Era óbvio que, de repente e do nada, homem e cão estavam mutuamente encantados.

Foi Clarice Lispector que disse que o amor a deixava ríspida. A mim, o amor me deixa muda, já me sangraram tantas vezes em nome da inocência, da educação e da Justiça. A Luciana argumentou que o poodlezinho tinha sido enjeitado, que não tinha nem três meses e que já precisava de uma outra casa. Eu quis falar, como se fosse para me defender, que nós já tínhamos quatro gatos e uma cachorra imensa, a gente não precisava mais um bicho, ainda mais poodle, que devia ser criado dentro de casa e que era gritão, histérico e possessivo. Mas não falei nada, mesmo porque meu marido anunciou que o cachorrinho ia se chamar Pipoca. Eu queria esganar minha vizinha. Acho que os gatos e a pastora pensaram o mesmo que eu.

Com um cãozinho dentro de casa, eu comecei a aprender coisas. A principal delas foi que os nossos amores são óbvios: amam-se filhos, pais, marido, mulher, avós, tudo sem sacrifício. Difícil mesmo, eu me maravilhava, é amar o outro e o diferente, aquele ser que não pensa como a gente, mas que tem a virtude íntima da vida – tanto é que faz xixi em cima do tapete.

Com o Pipoca, aprendi que é fácil, até banal, espezinhar e humilhar, difícil é tratar com devoção e dignidade. Que é banal ser amigo na festança, quero ver como se faz na doença e no silêncio. O Pipoca me mostrou que lealdade não é igual à submissão, que dormir de barriga pra cima pode ser confortável e que canteiros com margaridas, vasos com bromélias e filhotinhos de cachorro não combinam muito bem.

Hoje é dia de festa em nossa casa. Já é o segundo aniversário das cinco femeazinhas, filhas do Pipoca e da Isadora. Demos o nome de Colombina à cachorrinha que ficou conosco. Porque nasceu na Quarta-Feira de Cinzas, fechando o Carnaval e as magras certezas que me restavam.





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