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07/06/2010 - Contigo
Gente e histórias: Cíntia Moscovich - Texto de Fabricio Carpinejar

07/06/2010 - 14:52

Gente e Histórias: Cíntia Moscovich
No auge da carreira, a escritora gaúcha descobriu um câncer

Por Fabrício Carpinejar

Fotos: Edison Vara


''Recriei outra vida'', diz Cintia mais viva do que nunca.

Uma inscrição em azulejos portugueses indica que estou na casa de Cíntia Moscovich: ''Navegar é preciso, viver não é preciso''. Ela mora com o marido, Luiz Paulo Faccioli, escritor e bancário aposentado, mais três gatos (Cida, Joia e Preto) e dois cachorros (Pipoca e Colombina) numa das poucas residências da Rua Marquês do Herval, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

É um iglu azul no meio de um entrevero de altos edifícios. Um oásis que destoa dos cinzentos estacionamentos do lugar. A escritora gaúcha, 52 anos, agora pode suspirar na rede de seu pátio, com mangas caindo ao chão e cerejeiras florindo, depois de quase perder a direção do leme em tempestade violenta. Em 2008, ela experimentava seu melhor momento.

Recém havia publicado seu quinto livro, o romance Por Que Sou Gorda, Mamãe?, narrativa em primeira pessoa que explora os pontos comuns entre obesidade, judaísmo, humor e relações familiares; tinha participado da Flip, Festa Literária Internacional de Paraty, como uma das atrações principais; granjeava prêmios como Jabuti e Açorianos e desfrutava da estabilidade de uma grande editora no Brasil (Record). Tudo perfeito, como sonhara, dedicava-se finalmente à literatura após passagem pelo jornalismo.

''Veio o gosto de sangue na boca, e não era meu, era de meu pai''
Sua vida mudou radicalmente ao fazer um exame rotineiro no otorrinolaringologista. Pensou que fosse uma infecção, pensou que tivesse mordido sem querer a bochecha. Mas o exame mostrava um câncer nas amígdalas. Um quadro grave, com duas metástases. Teve de suspender abruptamente sua rotina e se submeter ao tratamento mais severo que existe, quimioterapia combinada com radioterapia.

Suportou dois anos de purgatório: sem cabelos, com a boca altamente atingida e proibida de fumar, vício de mais de três décadas e meia. ''Veio o gosto de sangue na boca, e não era meu, era de meu pai, que morreu de câncer. Latejava em minha cabeça: câncer, câncer!'' Seu pai, Elias, sofreu um câncer de pâncreas e faleceu em seguida, em 1979, aos 56 anos. Foi a pior cena de sua memória. Uma coincidência terrível de entender. ''Levamos para São Paulo, permaneceu duas semanas em coma, mas não superou. Meu imortal morreu.''

Era comerciante próspero, com uma loja de material elétrico no centro da cidade. Segurava a estrutura familiar. Abateu uma orfandade na mulher, Geni, e nos outros dois filhos, Jairo e Henrique. Desconheciam o próprio patrimônio: ele seguia seus negócios silenciosamente. ''Eu precisava me curar em nome dele. O pai ouviu o mesmo diagnóstico no mesmo hospital e não teve chance'', comenta.

''Eu era amada. Meu pai me ensinou a rir e a amar sem condições''
Naquele 2 de setembro em que recebeu o veredicto, Cíntia Moscovich encontrou uma coragem nas lembranças paternas. ''O pai era um homem que as pessoas, de forma desavisada, chamariam de sisudo. Mas, quando ria, sua risada iluminava o rosto como se todos os traços de luz do mundo se refletissem em seus dentes e olhos.

Lembro, como se fosse hoje, do pai fazendo a barba. Ele me colocava sentadinha ali, junto com ele, num banquinho do lado da pia, e perguntava: 'Como é que faz a galinha? E a vaquinha? E o cachorrinho?' Eu respondia, feliz da vida, porque sabia que meia dúzia de au-aus e cocoricós faria com que ele não resistisse e, dando risadas, ia me pegar no colo e me encher de beijos: eu era amada. Meu pai me ensinou a rir e a amar sem condições.''

E encontrou sabedoria em seu casamento de 27 anos com Luiz Paulo Faccioli. Até porque seu marido não aceitou a notícia da doença e desmaiou na sala do médico. Há homens que desmaiam quando nasce o filho, há outros que desfalecem diante do medo de perder sua mulher. ''Vi o quanto ele me amava e me tornei forte.'' Enquanto ela atravessava a biópsia desprovida de anestesia, Faccioli ficava no hospital por fraturar o joelho na queda. ''Houve uma confusão danada, com enfermeiras entrando e saindo. Como meu marido enfrentou angioplastia em 2004, já cogitava um ataque cardíaco.''

Faccioli apagou pela crueza do diagnóstico. ''Eu fui até a porta, queria dizer que não estava chaveada, disse um absurdo como 'não está trancado meu coração''', recorda. Os dois são absolutamente ligados, é impossível conversar separadamente. Bem o caso de um casal que disputa quem vai contar enlace e o primeiro beijo. Cíntia interrompe Luiz Paulo, Luiz Paulo interrompe Cíntia e ambos se completam nas interrupções: ''Não foi bem assim''.

Tanto que possuem a receita para a longevidade do casamento. ''Fazer reforma'', brinca Faccioli. ''Sempre que surgea ideia ridícula de um divórcio, armamos uma nova mudança na casa. O investimento é tão grande e o envolvimento tão intenso que largamos as bobagens de lado'', conclui. E a paixão segue no respeito aos hábitos de cada um. Quando um par se diverte com as manias, não há rancor.

''Admiro a risada de Cíntia e gosto de tudo o que não gosto dela também, como sua mania de não repetir o prato no jantar'', confidencia o marido, que costuma levá-la para viajar ao mundo, já que atua como juiz internacional de gatos, um dos cinco únicos do país. Cíntia Moscovich não esperava se apaixonar. Não curtia brincar de boneca, jogava bola com os meninos do bairro, experimentou uma infância masculina de cortes nos joelhos e guerra de cinamomos. Despachada, pouco influenciada, nunca cogitou casar - penava com o receio de sacrificar a liberdade e depender de alguém.

Nenhum dos dois fumava maconha. ''A caretice nos uniu'', ri
Mas o destino tem a última palavra. Num Festival de Música em 1981, Musipuc, evento tradicional da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, ela assistiu à interpretação de uma canção de Luiz Paulo Faccioli. A letra de Gaúcho quase a deixou surda, mas a simpatia afetuosa do gringo de Caxias do Sul despertou sua curiosidade.

Partiram para jantar em turma. Sobraram na mesa, pois nenhum dos dois fumava maconha. ''A caretice nos uniu'', ri. Os amigos desapareceram e eles se beijaram. ''Com tanta força que nossos lábios ainda estão grudados'', relata Cíntia emocionada. Noivaram na Rua da Praia, no calçadão predileto do poeta Mario Quintana. Em pleno anonimato, enquanto as pessoas caminhavam apressadas.

Ao trocar alianças, juraram que nunca iriam se separar. Formada em jornalismo, com mestrado em literatura, Cíntia Moscovich passou a definir sua vocação literária no interior, ao acompanhar Luiz Paulo em seu trabalho na Caixa Econômica Federal. Criou tempo para si. Largou seus poemas derramados e sofríveis e, aos 33 anos, entrou numa oficina de criação literária de Luiz Antonio de Assis Brasil. ''Eu me maravilhei, existia método na solidão, me encantei com a prosa. Aquilo que enxergava com a imaginação o leitor poderia tocar e descobrir como seu.''

Suas protagonistas provocaram insônia, uma excitação febril. ''Não dá para o autor e o personagem dormir ao mesmo tempo'', comenta. Da vigília noturna de suas criaturas, estreou seis meses depois, em 1996, com a coletânea de contos Reino das Cebolas. Daí apresentou a arte de fatiar palavras como cebolas. Repartiu seu choro, descascou ascamadas de sua história, dividiu ao meio, talhou ao comprido, para conseguir os pedacinhos cúbicos, cintilantes e parelhos. Com cinco obras editadas, reconhecida como uma das vozes mais importantes da ficção brasileira, Cíntia está recuperada.

Até o fim de dezembro, lançará Essa Coisa Brilhante Que É a Chuva, 11 narrativas contempladas com a Bolsa de Incentivo da Petrobras. Os cabelos retornaram grisalhos, trocou o café pela água. Ainda segura o ar por falta de cigarro, mas logo esbarra na mão de seu companheiro para mostrar que a chama está mais viva nos dedos entrelaçados.

Suas frases formam um involuntário autorretrato: ''Seu céu sobrevivido, firmamento escuro e manso, esse que antes era espaço sem astro algum, agora tinha a renda de constelações. Estrelas escandalosamente brilhantes''. Adquiriu o costume de não se envergonhar mais. ''Não nasci de novo, recriei outra vida.'' Na casa azul, viver e navegar são precisos.

Edison Vara



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