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05/03/2011 - Zero Hora, Caderno de Cultura
Carta para Beto Scliar

05 de março de 2011 | N° 16630AlertaVoltar para a edição de hojeHOMENAGEM A MOACYR SCLIAR
Carta para Beto Scliar e outros órfãosQuerido Beto,

Acabamos de enterrar teu pai. A tua tristeza e a da tua mãe, a tristeza dos teus tios, primos, de toda tua família, isso foi coisa de não ter mais tamanho. A tristeza de tua mãe era um sentimento como que resignado; tua mãe, sempre gentil, digna, amorosa, mostrou-se tão grande para enorme provação, a maior delas.

Tu estavas mais que triste, no entanto: estavas inconsolável, como fica inconsolável o filho único de pais amantíssimos diante da morte. Me ocorreu que tu representavas em potência máxima o desamparo a que foi arrojada a legião de amigos e leitores que teu pai reuniu ao longo da vida – embora rigorosamente nenhum sentimento na face da terra se compare à tua dor e à dor de tua mãe e de todos os teus. Quis te escrever, Beto, para, quem sabe, te aliviar um pouco a dor. E queria que a dor de todos os amigos e leitores e admiradores fosse também aliviada, quando ainda o luto nos pesa.

Beto, vi tua indignação com a perda, tu que te amparavas na doçura de tua jovem mulher, ela também triste, triste. Eu entendo que a morte do teu pai te revolte e que não compreendas e muito menos te resignes com o sofrimento pelo qual ele passou. Tens razão, Beto querido, teu pai não merecia, um homem bom demais para uma morte suspensa em 40 e tantos dias de agonia. Beto, vou te dizer uma coisa que eu sei, que a doença é sempre uma obscenidade e que a morte é sempre uma ofensa. Te digo mais, que é verdadeiríssima a voz corrente, sempre partem antes os bons, talvez porque, também segundo a voz corrente, Deus chame antes aqueles que ama – nessas horas a gente fala de Deus.

Beto, o que eu queria te falar, bem falado, é que a morte não tem volta. Não tem mesmo, não adianta esperar por um milagre. Os milagres, Beto, já aconteceram. Uma mulher e um homem que se amaram, o filho desejado que chegou, um médico que escrevia belos livros e que tinha uma vida honesta e íntegra. Um milagre, Beto – e me lembrei que quando eras pequeno, teu pai te chamava de Beto, o Terrível, e foste uma criança tão linda quanto o homem em que te transformaste. Foste um milagre na vida de teu pai e da tua mãe, assim como um foi o milagre do outro.

Milagres. Beto, teu pai foi um dos maiores milagres para a gente do Bom Fim. Teu pai nos deu um rosto, a nós, judeus, que nem bem cem anos viemos de outros continentes para nos aquerenciarmos aqui, na remota ponta dessa América que fica do lado de baixo do mundo. Teu pai deu nova feição a nós, gaúchos, nós, brasileiros: teu pai se consagrou imortal da Academia, foi traduzido numas quantas línguas, falou para plateias em lugares diferentes do mundo.

Beto, teu pai chegou lá no alto, lá bem no alto, sem nunca, nunca, nunca fazer mal a quem quer que fosse. Teu pai, Beto, estendia a mão para que os outros subissem. Teu pai era generoso porque era sábio – só um sábio entende a bondade como a virtude alheia. Além disso, teu pai nos deu histórias cheias de fantasia, imaginação, humor, literatura que, por definição, sobrevive ao próprio criador. E assim, no virar das páginas dos livros, teremos novamente nosso amigo e escritor.

Beto, eu sei, tu perdeste teu pai, livros não te bastarão. O que fica de quem se vai é isso mesmo, o quanto foi feito em vida pelos seus e pelos outros, e aqui está um outro milagre que te cabe no mundo. Beto, a dor que estás sentindo vai passar. Sei que parece impossível, mas vai passar, eu juro. No lugar dela, devagarinho, vai nascer um sentimento que é triste mas que é bom, que é o que a gente chama saudades e, que no teu caso, deverá envolver também um baita orgulho. Tu vais ver, Beto, o quanto ser filho de um homem bom vai te ajudar a própria vida e o que vai ser de alentador a recordação bela e limpa.

Beto, diz um ditado da nossa gente que os verdadeiros mortos são aqueles que não são lembrados. Beto, teu pai é mesmo imortal.

Um beijo em ti e em todas as pessoas que amam teu pai.



POR CÍNTIA MOSCOVICH | Escritora, autora de “Duas Iguais” e “Por que Sou Gorda, Mamãe?”MultimídiaMoacyr Scliar (1937 – 2011) em foto de 1988 lista | imprimir | enviar | letra A - | A +próxima


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