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06/01/2012 - Zero Hora, p. 2, interinidade David Coimbra
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| lista | imprimir | enviar | letra A - | A + 06 de janeiro de 2012 | N° 16938AlertaVoltar para a edição de hojeCINTIA MOSCOVICH



Uma das recordações mais tenebrosas do ano que passou deve ser mesmo a do filho do senador Jader Barbalho, o notável Daniel, que, na espontaneidade de seus nove anos, ganhou a chance de fazer caretas de deboche para todo o Brasil na posse do pai – imagem da Agência Estado que foi capa de Zero Hora no dia 29 de dezembro. Tirando as discussões acerca da Lei da Ficha Limpa e que tais, pensei que o país deveria ser literalmente fechado para balanço: somos a sexta economia do mundo e um guri fica mostrando a língua, torcendo as orelhas e fazendo guampinhas com os dedos na entrevista coletiva que sucede à cerimônia de posse do próprio pai no Senado. Pior: o senador não faz nada para conter o filho, que foi parar, o inocente, debaixo da mesa com suas traquinagens. É demais, e somos forçados a reconhecer que o filho é reflexo do pai e que a foto de pai e filho é espelho de nossa falta de preparo, de traquejo social, de respeito ao próximo, de decência – e, infelizmente, das brechas do Judiciário. Pujança econômica não tem a ver com educação e desenvolvimento moral, intelectual ou nacional. Nós somos uns selvagens.

Celia Ribeiro, que assina uma bela coluna de comportamento na vida moderna aos domingos no caderno Donna, costuma dizer que as regras de etiqueta existem para facilitar o convívio entre todas as pessoas. Desde que abandonamos as cavernas e o tacape, a história da organização humana nada mais é do que a luta para dominar o instinto e aquelas pulsões mais primitivas. Boa educação é saber que existe mais gente no mundo e ter consideração com os outros: não matar, não roubar, não palitar os dentes na mesa, não fazer xixi na praça, não ficar gritando – e não desrespeitar o cargo público que se ocupa com safadezas.

Claro que educar dá um trabalho danado, já que significa conter a força da própria natureza, e a contenção se traduz em dar limites e dizer não. A postura de uma pessoa, seja ela um metalúrgico, um empresário ou um contador é o reflexo das informações, dos exemplos e das reprimendas que recebeu. Eu, que já vi barbaridades – de motoristas embriagados flanando por aí a advogados mentindo descaradamente diante de uma plateia de desembargadores –, pensei que nunca mais nada me surpreenderia em termos de afronta à civilidade. Que nada.

Eu ia escrever que a foto dos Barbalho se assemelhava a um mau presságio logo na virada do ano. Mas não é presságio coisa nenhuma: aquela capa de ZH me dá a certeza de que entramos o ano na mesma velha batida, não há o que não haja. Espero que o tempo me desminta, mas tenho a sensação de que o pequeno Barbalho vai mesmo nos assombrar para sempre.
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