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16/10/2004 - Época
Visões do Holocausto

Dois autores, uma gaúcha e um sergipano, cada qual com seu estilo, recriam a realidade cruel

FEDERICO MENGOZZI

Yin. Yang. A rigor, afora o fato de se tratar de dois livros de contos e de os autores serem brasileiros, nada - ou muito pouco - liga Arquitetura do Arco-Íris, da gaúcha Cíntia Moscovich, a Aberto Está o Inferno, do sergipano Antonio Carlos Viana. Uma mulher. Um homem. Ela nascida em 1958. Ele, em 1946. Duas visões de mundo que denotam histórias pessoais, referências literárias e objetivos artísticos distintos, mas que, contrários que sejam, não chegam a se negar - talvez até se complementem. Dois livros que mostram como, no bem fornido balaio da literatura brasileira contemporânea, há de tudo - e de tudo, muito.

Arquitetura do Arco-Íris reúne textos que Cíntia Moscovich escreveu nos últimos três anos e marca sua ligação com a Editora Record. Para a ficcionista, é uma oportunidade de fazer chegar a mais leitores uma narrativa que, partindo de suas origens, tipicamente judaicas, revelam a universalidade das expectativas e dos sentimentos. ''Sou herdeira de uma tradição'', admite a autora, citando Isaac Bashevis Singer como uma de suas mais que evidentes sombras literárias. Mas os homens, de que origem forem, são homens. E, ao envelhecer, está em ''A Queda do Arco-Íris'', só fazem ''enterrar os amados, queixar-se de dores, disfarçar a barriga e não ter a quem falar''. Nos contos, escritos com um viés feminino, delicados e precisos, predomina o sabor do cotidiano e suas rupturas. Como em ''O Telhado e o Violinista'', no qual uma galinha e um pinto fazem aflorar ódios ancestrais. Holocausto com humor.


Aberto Está o Inferno faz jus ao título. Se as narrativas, extremamente cruas, não anunciam as zonas infernais do genocídio, estão perto disso. Viana prova, em textos escritos com mestria já reconhecida, que o inferno é uma dimensão terrena - a dimensão que coube aos humilhados e ofendidos de sempre, aqueles que engrossam as filas do desemprego e os índices de mortalidade infantil. Em vez de fazer literatura social positiva, na qual a crítica procura dizer que, corrigidas as distorções, delineia-se um admirável mundo, o autor é pessimista. Para não dizer ácido, corrosivo. Ele descreve a atmosfera fechada, sem esperanças, que vê desde criança nas cercanias de Aracaju. ''A miséria é o que é. Não há salvação'', diz.

São 33 contos escritos com mal-estar - ''eu não alivio a barra; alguns, eu nem releio'', confessa Viana. Para o leitor, a sensação de estar dividido, ao mesmo tempo encantado com a linguagem exata, por vezes poética, dura poesia, como em ''As Meninas do Coronel'', e chocado com a narrativa crua, que remete a um mundo de carências absolutas, que nada respeita, como em ''Barba de Arame''. Viana reconhece referências como Nélson Rodrigues, tema de sua tese de mestrado, Rubem Fonseca e Sérgio Santana. Como Fonseca, não avaliza o que retrata e quer sacudir as convicções arraigadas do leitor. ''A miséria continua igual'', indigna-se Viana. ''Pior, não há luz no final do túnel.''



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