Críticas publicadas:

10/10/2012 - Zero Hora, Segundo Caderno
Depois da Tempestade, por Carlos André Moreira, foto Jean Schwarz

Carlos André Moreira

carlos.moreira@zerohora.com.br

Foi preciso que a escritora porto-alegrense Cíntia Moscovich atravessasse uma tempestade para poder concluir um elogio da chuva. A autora lança na Feira do Livro
deste ano uma coletânea de contos que precisou de seis anos e uma série de combates pessoais para ser concluída.

Intitulado Essa Coisa Brilhante que é a Chuva, o novo livro da autora de Por que Sou Gorda, Mamãe? foi um dos trabalhos selecionados no edital 2006/2007 do Projeto Petrobras Cultural com uma bolsa de criação literária. O plano original da obra previa uma dezena de contos, que ofereceriam um tratamento cômico de personagens típicos da identidade judaica contemporânea.A autora já tinha cerca de 30% do livro escrito quando, em setembro de 2008, teve diagnosticado um câncer de amígdalas que já apresentava metástases. Não foi só o livro, mas também a própria vida de Cíntia que ficaram em suspenso por dois anos.

– Foi um momento muito difícil, tive de interromper tudo, parar com a rotina, começar um tratamento bastante agressivo, em que a gente se sente muito vulnerável. Foi um momento de horror – relembra a autora, hoje recuperada, com 54 anos.

O tratamento foi realizado de maio a setembro de 2009, com sucesso, mas suas
consequências se estenderam por mais tempo: um período de aproximadamente um ano, no qual a literatura parecia uma lembrança distante.

– Percebi que concluir o livro era uma forma de voltar a ser eu. Ser escritora é a única coisa que sou, que sei fazer, e por um tempo eu não conseguia retomar o processo de escrita, estava alheada, precisei me adaptar a novas rotinas para escrever – diz.

O livro finalmente pronto – entregue à editora em março – tornou-se uma obra diversa daquela que foi imaginada no início. Embora o humor ainda esteja presente em algumas das histórias, as primeiras, principalmente, escritas ainda antes da tempestade, Essa Coisa Brilhante que é a Chuva tornou-se um livro sobre laços familiares instáveis (um tema recorrente na obra da autora) acrescido de um bom número de personagens desafiados pelo próprio corpo: uma mãe que sofre um ataque cardíaco e, solitária, tenta buscar socorro, em Coração de Mãe; um homem que traz, no corpo obeso, a fraqueza que o impede de se libertar da mãe controladora, em Gatos Adoram Peixe, mas odeiam Molhar as Patas; uma doceira que, presa a uma vida de conveniência, tem, em um câncer diagnosticado, o pretexto para uma guinada, em Aos Sessenta e Quatro. Nesta história, Cíntia pretendia transformar em ficção um diário que havia mantido durante o período de tratamento, mas mudou de ideia ao longo do processo de escrita.

– Muita gente me dizia: anota, porque, quando tudo isso passar, tem material para um livro, e eu ia fazer essa mulher passar pelo processo detalhado do tratamento. Quando comecei a escrever,contudo, percebi que não conseguiria fazer isso. E ela ganhou
um final que celebra a vida – conta.

É isso o que impede o novo livro de Cíntia de ser uma experiência de um peso insuportável: a forma como seus contos não deixam de mirar essa coisa inesperada que é a vida.

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