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03/11/2012 - Zero Hora, Caderno da Feira
18 motivos para não perder os autógrafos de Cíntia Moscovich, por Fabrício Carpinejar

3 de novembro de 2012 | N° 17242AlertaVoltar para a edição de hoje
CENTRAL
18 motivos para não perder os autógrafos de Cíntia Moscovich

1) São cinco anos desde seu último livro Mais ou Menos Normal.

2) Cíntia Moscovich é rigorosa, publica devagar, é seu sétimo livro em 16 anos de trajetória. O que vem a lume é sempre obra de muito trabalho, técnica e refinamento.

3) É uma das melhores escritoras brasileiras no auge de sua criatividade.

4) Já recebeu prêmios Jabuti, Açorianos e Guimarães Rosa, da Radio France Internationale, de Paris.

5) O conto Uma Forma de Herança poderia estar tranquilamente no clássico Laços de Família, de Clarice Lispector, pela descrição minuciosa e emotiva de uma árvore genealógica a partir da venda de um imóvel.

6) Pela capacidade da autora de resumir as contradições humanas em uma frase lapidar. Exemplo: “A gente entendia que um mal menor se subordinava ao bem maior, o futuro”.

7) Pelo impacto de sua prosa límpida, recorrendo a imagens fortes e a duelos dos personagens contra o tempo e a fatalidade. Essa Coisa Brilhante que É a Chuva tematiza a tentativa frustrada de controlar o destino, a onipotência falsa de supor que se pode mandar na ordem dos acontecimentos. Um dos contos mais doloridos é o do ciclista impotente diante do atropelamento de uma estudante, “preso a duas pernas que não andam e a duas rodas que não voam”.

8) Pela maneira comovente que ressignifica o cotidiano. Suas histórias partem da mais absoluta banalidade exterior e se espiralam para dentro das tormentas interiores até então insuspeitas.

9) Suas analogias são sempre inovadoras. Em Aos Sessenta e Quatro, compara a solidão do diagnóstico de uma doença com a solidão do casamento.

10) Aproveita a tradição judaica para mostrar o choque entre tradição e vanguarda, entre a velha e a nova geração, entre os preceitos dos velhos e os preconceitos dos jovens.

11) Seu conto traz uma contenção poética que somente permite o leitor respirar após a última linha. Ela tira o suspense da vontade de viver de cada personagem.

12) Há uma engenharia divertida nas estruturas da narrativa. Cíntia brinca com a primeira pessoa e a terceira pessoa. É biográfica quando fala dos outros, é ficcional quando fala de si, acentuando a realidade na ficção e criando ficção de realidades possíveis. Pipoca, o cachorro de Caminho Torto para uma Linha Reta, é real em situação imaginada.

13) É possível enxergar cenas acontecendo em Porto Alegre, como nos bairros Santo Antônio, Centro e Moinhos de Vento. A cidade tem sido cada vez mais determinante nas suas tramas.

14) Bom escritor não é o que se aproveita de grandes histórias, é o que transforma fatos modestos em grandes histórias – esta é a maior habilidade de Cíntia Moscovich.

15) A ficcionista gaúcha enterrou os clichês de literatura feminina, daquela tríade confissão-cozinha-sentimentalismo. É uma prosa afirmativa, sem coitadismo e lamúria.

16) Pelas referências inteligentes à sua obra anterior. O conto Gatos Adoram Peixe, mas Odeiam Molhar as Patas conversa com a novela Por que Sou Gorda, mamãe? (2006). É o mesmo mote: mãe controla filho pela obesidade.

17) O lema de Essa Coisa Brilhante que É a Chuva é procuramos a liberdade, mas não suportamos seu tamanho.

18) Luis Fernando Verissimo já recomendou: “Ela escreve bem pra caramba”. Não serei eu a convencê-lo do óbvio.

*Poeta e cronista, autor de “Ai Meu Deus, Ai Meu Jesus” (Bertrand Brasil, 2012)

POR FABRÍCIO CARPINEJAR*
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