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07/11/2012 - Jornal Comércio, Porto Alegre
Cintia Moscovich, depois da tormenta

7/11/2012 - 15h06min

Cíntia Moscovich, depois da tormenta
MARCOS NAGELSTEIN/JC
Recuperada após tratar-se um câncer, Cíntia Moscovich lançou Essa coisa brilhante que é a chuva
Recuperada após tratar-se um câncer, Cíntia Moscovich lançou Essa coisa brilhante que é a chuva

A escuridão que antecipa o fim passou perto, mas o brilho da luz no final do túnel foi visto na imagem da chuva e não do adeus. Após seis anos sem publicar um livro, Cíntia Moscovich voltou à Praça da Alfândega mais animada do que nunca. Embaixo do braço ela carregava Essa coisa brilhante que é a chuva, uma compilação de contos desse período entre o auge, a queda e a volta por cima. A sessão de autógrafos ocorreu no fim de semana.

Passava 2006 e os frutos do romance Por que sou gorda, mamãe? eram colhidos em premiações e eventos literários Brasil afora. O final de 2007 chegou e, com ele, veio o sexto livro individual, Mais ou menos normal, de temática infantojuvenil. “Eu tinha bem na cabeça o que eu queria fazer. Tinha acabado de sair de dois romances e gostei de fazer esse troço meio irônico, meio cínico e engraçado. Aquele sentimento teu que não corresponde a nenhuma dor física, mais à dor moral que eu acho que é pouco explorado na literatura”, conta a autora.

Com o caminho traçado, 2008 era questão de tempo para ser inesquecível. E não deixou de ser. Era setembro e um exame de rotina veio para mudar de vez o cotidiano de Cíntia. Câncer em estado avançado, com metástase. O baque não poderia ter sido diferente. O novo livro - já em produção - foi deixado de lado, e a preocupação passou a ser apenas uma: sobreviver. “Eu não fiz escolha, não tinha escolha. Ou eu fazia o tratamento, ou morria. Duvido muito que, se eu não me tratasse, pudesse escrever. A literatura para mim está visceralmente ligada à vida, não está ligada à morte”, lembra. O jeito foi encarar sessões de quimioterapia e radioterapia, aprender a conviver com a falta dos cabelos e abandonar o cigarro.

Foram dois anos lutando contra a doença. “Eu não conseguia ler, escrever e nem ver televisão, tu viras uma pessoa dispersiva. A sensação é muito rara, estranha, porque parece que tu estás dedicada integralmente a te cuidar, a tentar resistir ao sofrimento que te impõe o tratamento. Nesse tempo, tinha muitas saudades da literatura, mas tinha bem consciência que depois eu iria conseguir escrever. Falei para o meu oncologista: tu me salva que eu tenho mais ou menos uns 20 livros para escrever”, recorda Cíntia, sem nunca perder o bom-humor.

O período de tormenta passou, e 2011 encaminhava-se tranquilo e aliviado. Era chegada a hora de retomar a rotina. Cíntia voltou para os contos e decidira que, até o final de 2012, terminaria o livro. As fortes emoções foram vividas e absorvidas, mas para Essa coisa brilhante que é a chuva a autora focou nas miudezas da natureza para concluir a publicação: “Eu queria verdadeiramente lidar com o detalhe, com o pequeno, com o miúdo. Queria realmente pegar um detalhe para poder levantá-lo e o ampliar. Maximizar o mínimo”. O resultado são histórias como a do filho que sente ciúmes da mãe, do cão abandonado que ganha um lar, dos cabelos grisalhos surgidos antes da hora, da doceira que descobre um câncer e joga tudo para o ar, entre outras.

Narrativas que misturam o cômico e o trágico e que foram trabalhadas exaustivamente para chegarem à perfeição. “Eu tenho uma fantasia de que os livros vão me sobreviver, serão meu testemunho adiante e então tem que ser o melhor”, conclui a autora.
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