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02/12/2012 - Zero Hora, caderno Donna, coluna Claudia Tajes
Estranhezas

02 de dezembro de 2012 | N° 17271
CLAUDIA TAJES

Estranhezas

Passei alguns dias em Curitiba a trabalho e, nas rápidas andanças pelas redondezas do hotel, observei pequenas coisas. Curitiba é muito mais limpa que Porto Alegre. Mas muito mais limpa mesmo, até porque cultiva a fama de ser uma cidade ecológica. Curitiba também é mais barata que Porto Alegre. A comida, o transporte, o básico e o nem tanto, existe diferença para menos em quase tudo. O trânsito é melhor e há uma grande preocupação com a mobilidade urbana. Por outro lado, a segurança é um problema (segundo os taxistas) e as calçadas são de lascar, estranhas calçadas de paralelepípedos, irregulares e esburacadas. Nunca vi piores, e olha que já andei por bocadas nessa vida. Mas o que me chamou mais a atenção foi a receptividade masculina. Os homens de Curitiba ainda dizem galanteios, bem verdade que duvidosos, para as mulheres na rua. Motoristas gritam comentários toscos de dentro dos seus carros, e também dos ônibus e dos caminhões. E buzinam muito, não por impaciência, como em Porto Alegre, mas como homenagem. Não são casos isolados, é regra. Os curitibanos têm um sotaque particular e que se mostra mais forte nas palavras terminadas em te: leite, gente, pente, contente. Não sei se para explorar essa peculiaridade, muitos murmuram, entredentes, ao cruzar com uma passante: que bicho quente. Acho que é um elogio. Minha sugestão para moças que queiram se sentir valorizadas é visitar Curitiba, dar um rolê por lugares bacanas como o Museu do Niemeyer, o Teatro Guaíra e a Ópera de Arame, de preferência a pé para aproveitar o sucesso e reforçar a autoestima. Só cuidado com as calçadas e com as bolsas.

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Nas minhas viagens trabalhistas, acabo hospedada em hotéis de todas as estrelas, desde que sejam poucas. Em muitos deles, a TV só pega a Globo. Por isso tenho assistido a Salve Jorge bem mais do que gostaria, ou então é O Clone no Vale a Pena Ver de Novo. De qualquer jeito, as duas vilãs da novela, a Claudia Raia e a Vera Fischer, já promovem, noite após noite, um duelo de ruindade. Mas nas atuações. Como dizia o meu saudoso pai, essas não aprendem mais.

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A única obviedade maior que botar a culpa no mordomo: botar a culpa na mãe. Fiquei com essa impressão depois de ler o lindo Essa Coisa Brilhante que é a Chuva, o novo livro de contos da Cíntia Moscovich. A mãe que sempre deu todo o amor ao filho, mas um dia arrumou um namorado. A mãe mais forte que o pai. A que preferiu não chamar ninguém e bem feito se, junto com a casa e o dinheiro no banco, sobrar uma certa dor de consciência para os herdeiros. Não existem estereótipos nos contos da Cíntia, nem a mãe judia é estereotipada. Tudo o que está ali é de verdade. Talvez por isso o livro não termina quando se chega na última página.

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Histórias de Nova York. O famoso Thanksgiving, maior feriado americano, é o dia de agradecer pelo que se ganhou durante o ano. Celebrado sempre na quarta quinta-feira de novembro, tem seu ponto alto em uma refeição em conjunto com os amigos, a família ou tudo-junto-reunido-uma-vez. Quem é de outros estados ou de países próximos, se manda para casa. Os americanos consumiram 45 milhões de perus nesse Thanksgiving, que no Brasil é o dia de Ação de Graças. É tradição que o Presidente “indulte” um peru, bicho de sorte que, assim, escapa da matança. Meu filho acabou sozinho no feriado, sem ninguém para dividir uma refeição, mas com muitas coisas boas para comemorar – entre elas, a renovação do Luxa. Andando pela Times Square vazia, encontrou uma solitária manifestação de palestinos na cidade semideserta. Curioso é que, após o Thanksgiving, vem a Black Friday, uma liquidação do tipo O Gerente Enlouqueceu, com descontos gigantes em todo o comércio dos Estados Unidos. É o começo oficial da temporada de compras de final de ano no país. Ou seja, o sujeito agradece pelo que ganhou na quinta e já gasta tudo na sexta. Bota gente estranha nisso.

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Cada vez mais eu confirmo: sofro de pobreza de espírito crônica. Enquanto uma pesquisa informa que 80% dos porto-alegrenses estão estressados pela sobrecarga no trabalho, meu sentimento é exatamente o contrário. Eu só me estresso quando não tenho trabalho.



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