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07/12/2012 - Jornal do Comércio, Porto Alegre, por Jaime Cimenti
Cenas da vida

Cenas da vida

Em sua obra mais recente, lançada há poucos dias, o volume de contos Essa coisa brilhante que é a chuva, a escritora, jornalista e professora gaúcha Cíntia Moscovich segue trabalhando a linguagem que bem caracteriza seus romances e coletâneas de contos anteriores, como O reino dos cebolas; Duas iguais; Por que sou gorda, mamãe? e Arquitetura do arco-íris, entre outros, e enfatiza, joga luz sobre o universo das relações familiares e o mundo das pequenas grandes epifanias do cotidiano. São retratos da vida em família, cenas da vida, recortes do dia a dia e outros pequenos grandes acontecimentos que insistem em permanecer e não se deixar levar pela voragem do tempo, quando encontram alguém que os registre com competência. O ciúme do filho pela mãe; a chegada de um cachorro em casa, os cabelos grisalhos antes da hora e outras histórias, encadeadas, acabam por compor, de certo modo, um conjunto. Na esteira da tradição dos escritores de verdade, Cíntia segue fiel a seus temas mais caros e depura, a cada obra, a linguagem narrativa. Mas para a alegria dos leitores, Cíntia não coloca a linguagem acima de tudo e muito menos como objetivo único e nem é dada a jogos e piruetas verbais estéreis que muitas vezes apenas tentam disfarçar a pobreza ou mesmo a ausência temática de muitos autores que andam por aí, se achando uns gênios. Cíntia tem o que contar e o faz muito bem, sem precisar de ornamentos desnecessários e penduricalhos inúteis. As narrativas são claras, bem construídas, consistentes e, certamente, os leitores vão se identificar, mais uma vez, com os personagens, com os cenários e com os enredos da autora. Na introdução, o poeta, jornalista e escritor Carpinejar escreveu: “Tamanha a delicadeza, trata-se de uma reunião de origamis narrativos, leques ficcionais, aparadores literários. Os contos parecem não ter sido escritos com a mão, e, sim, surgido diretamente do suspiro. É por aí mesmo. Com sua sensibilidade, a escritora ilumina, em seus contos, temas corriqueiros e inevitáveis, que mostram, acima de tudo, o que é viver e sobreviver todos os dias nesses tempos nos quais a família permanece como bem mais do que um grupo de pessoas que, por vezes, dorme debaixo do mesmo teto. Pessoas, famílias, acontecimentos diários, alegrias, tristezas, sorrisos, trabalho, descanso, vitórias e derrotas, disso tudo são feitas a vida e as narrativas indispensáveis. Editora Record, 144 páginas, mdireto@record.com.br.


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