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08/12/2012 - Globo, Caderno Prosa, coluna de José Castello
Palco e tatame


Palco e tatame

José Castello

Nada parece abalar a serenidade e o rigor contemplativo de Cíntia Moscovich. Não escreve para surpreender, ou perturbar, mas para revelar e unir. Tampouco se interessa pela lacuna, pela elipse e pelo submerso, valores literários hoje quase sagrados; ao contrário, aposta na luz e no simples. Cíntia parece movida por um furor primitivista, como se desejasse aproximar-se da realidade para abraçá-la. Seus relatos _ minha imaginação me transporta _ evocam a pintura de um Cícero Dias, ou de um Ismael Nery, com suas figuras delicadas e viscerais. Uma simplicidade complexa os atravessa. Uma luz que aceita e aconchega.
Seu novo livro de contos, Essa coisa brilhante que é a chuva (Record), reúne histórias sutis, em que o cotidiano e suas miudezas ganham a frente da cena. Como resume Fabricio Carpinejar na apresentação do livro, Cintia “escreve claridades”. Nem sempre, porém, a busca do simples esbarra nas superfícies. Cíntia nos mostra isso. A delicadeza de seus escritos não se relaciona _ como afirmam os dicionários _ com a fragilidade, mas com a força. Crianças, animais, medos primitivos, pequenos afetos, desfilam em suas narrativas. Exatamente como se passa em nosso mundo íntimo.
Detenho-me no emblemático “A balada de Avigdor”, a história de um menino, Avigdor, que, em vez de seguir o desejo dos pais e praticar caratê, prefere o balé. Aproxima-se de Débora, uma garota que, ao contrário, despreza a dança e se interessa pelas “masculinas” artes marciais. Os pais se afligem com a inversão. Temem o fantasma da anormalidade _ que não passa de um temor infundado, já que o normal é só um ideal. Ao desprezarem os modelos dominantes do masculino e do feminino, as crianças lhes sugerem, porém, que algo não vai bem. Na escola, o garoto não tem como escapar do caratê e Débora das lições de dança clássica. Mas, quando se trancam no quarto de Avigdor, um transmite para o outro a lição proibida. Enquanto o menino veste uma malha, Débora se enfia em um quimono. Os pais do garoto, preocupados, só escutam os saltos sobre o tapete. Um tapete persa que é, ao mesmo tempo, segundo o sonho de cada um, palco e tatame.
As suspeitas e preconceitos das duas famílias só desaparecem quando, já mais velhos, os dois se apaixonam. Um futuro brilhante os espera, apesar (ou por causa) de seus destinos aparentemente trocados. Chegam a si, justamente, graças a essa troca. Também Cintia Moscovich parece destinada a fazer uma coisa, enquanto faz outra. À delicadeza de sua escrita, que pode induzir à avaliação grosseira de ingenuidade, corresponde uma estratégia complexa de observação do mundo. Não precisa de piruetas intelectuais: a sutileza é sua via de acesso ao profundo.
A experiência humana – não só a literatura – é feita, em geral, de mal-entendidos e de desencontros. Em “Gatos adoram peixes, mas odeiam molhar as patas”, o conto de abertura, o protagonista Saulzinho sonha com o dia em que se libertará das saias da mãe judia e será senhor de si mesmo. “Meu nome é Saul!”, ele diz para Mishmash, o gato da família. “Saul, como o primeiro rei de Israel”. Na solidão, sonha em possuir um harém, para libertar-se pelo excesso. Parece um menino, mas está com 48 anos e pesa 149 quilos.
Enquanto sonha, Raulzinho vê a mãe viúva se aproximar de certo Natálio. O amor tardio a leva a pintar os cabelos de acaju e a aplicar uma sombra berrante em torno dos olhos. Enquanto o filho castrador engorda, a mãe dele se liberta. A liberdade da mãe, por contraste, lhe rouba o desejo de liberdade. Seus sonhos se esfarelam: torna-se ainda mais parecido com o gato Mishmash, sempre a ronronar pelos cantos. É a mãe, a velha mãe, quem “sai de casa”, e não ele. Raulzinho é seu próprio carrasco.
Cintia manobra com grande habilidade essas inversões internas. Não precisa de dramas: bastam-lhe as histórias comuns. Não precisa de suspense, ou de sangue: basta-lhe a vida. Seu “realismo” está muito distante do que hoje se dissemina não só nas listas de Best Sellers, mas também nas telas de cinema. Desprovido de choque, sexo explícito e violência, o real mostra sua face mais secreta. A vida se passa, quase sempre, um passo antes dos grandes feitos. É o que experimenta a protagonista de “Mare nostrum”, uma menina afogada em seu pequeno sonho: conhecer o mar. A tia lhe dá uma prancha de presente. Atiça seu sonho. O pai, mesmo a contragosto, resolve satisfazê-lo.
O mar começa em um grande congestionamento. “Fila de carros e mais o pedágio e mais o pai pedindo um troco para a mãe e, susto, o caminhão passando no costado direito da estrada”. O sonho nasce como um pesadelo. Assim que chegam à praia, após colocar uma gorda cama de Hipoglós sobre o nariz sardento, a menina corre rumo ao mar. Ela o olha _ mas se detém. “Sentiu um receio, que nem sabia direito que era receio, nem de que se receava”. Resolve, primeiro, comer uma espiga de milho. Feita a digestão, o pai insiste que agora vá. Diz que não, que vai depois. Realizar o sonho talvez seja destruir o sonho.
Só depois de muito esforço, enfim, a menina se lançará no mar. Vem, então, o que não espera: o prazer que sente diverge do prazer com que sonhava. Mostra-nos Cintia que vivemos em contínuo desacordo com o mundo. Desejamos uma coisa quando, na verdade, queremos outra. Imaginamos um mundo quando, enfim, temos outro. Vemos uma imagem ao espelho, que desmente aquela que carregamos em nosso interior. É desse descompasso _ beleza em meio à forte tempestade _ que tratam os relatos de “Essa coisa brilhante que é a chuva”.
No século dos jogos virtuais, das batalhas sem sangue e das aventuras tecnológicas, Cintia Moscovich promove um retorno delicado às entranhas da realidade. Não é uma aproximação fácil. O mundo é palco, mas é também tatame. Nunca sabemos, ao certo, a hora adequada de calçar as sapatilhas; tampouco conhecemos o momento certo de vestir um quimono. Fazemos o que é possível. Na maior parte das vezes, somos obrigados a optar pelos dois. Estranhas criaturas, ambíguas e incertas, que Cintia acolhe com tanta doçura.



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