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16/12/2012 - O Público, por Valter Hugo Mãe
Oportunidade da vida


Oportunidade da vida

VALTER HUGO MÃE

16/12/2012 - 00:00

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Num livro da Cíntia Moscovich encontrei uma daquelas frases que nos atacam a inveja. Invejar algo é demasiado feio, eu sei. Mas, por vezes, é tão feio quanto incontrolável. Ser-se humano tem fealdades assim. Queremos roubar. Enfim, quando não há como, só nos podemos render e entregar à fruição assumida da grandeza alheia.

A Cíntia Moscovich escreveu: "A esperança de liberdade também é um meio de transporte. Que só anda para a frente." Pensei no meu país inteiro. Nos meus livros todos. Como isso condensa algo que não fui capaz de expressar e assim se expressa. Acredito muito na importância da esperança que é já a predisposição para a mudança, a aceitação de algo longe da acomodação a qualquer tirania. Pensei no meu país inteiro porque li o livro em Porto Alegre, onde as provas de uma classe média efectiva são muitas, onde o Brasil se faz cada vez mais digno, por uma lição dessa mesma ideia de o povo se estar interiormente pondo em movimento.

Na rua, as sacolas artesanais deixaram de custar 6 euros e passaram a custar quase 15. Claro que não as compro com a gula ávida de outrora, mas compro uma dos Legião Urbana, banda que adoro, onde se cita o Renato Russo que diz: "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã." Pagar ao menos 15 euros pelas sacolas lindas que se fazem no Brasil é amar as pessoas. É amar que não passem fome, que não sejam miseráveis, que mandem essa coisa do terceiro mundo ao mofo da História. Porque não há cidadania abaixo da dignidade e a dignidade não pode ser negada a rigorosamente ninguém.

Talvez as altas finanças, das quais sabemos nada, tenham decidido que Portugal haveria de se despromover a terceiro mundo. Os nossos trabalhadores secam os gestos a partir da fome já prometida. Talvez estejamos a parar a esperança, isso que acusa o movimento do espírito, a predisposição para não se ser abusado, não compactuar com a atrocidade. Tenho medo de perceber que os portugueses se desvitalizam, como dentes que morrem por dentro para morrerem mais devagar por fora, até não ser mais disfarçável que foram abatidos, descontados da oportunidade da vida. Até não poderem mais ferrar.

Porto Alegre parece Lisboa. Uma Lisboa de reverberação tropical, ainda que aqui se sobrevalorize o Inverno com as suas chuvas e um mês de frio. Para um português, é um lugar de calor, com uma chuva gorda e molhona que até nos alivia as ideias. Mas, a cada passo, alguém me pergunta pela crise. Sabem que a Europa está a ficar nazi, horrorizam-se, contam-me episódios de amigos que fugiram de Portugal, sentem-se confusos. Leio o livro da Cíntia Moscovich e sinto que ela responde. A Cíntia Moscovich salva-me. A literatura salva-me.

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