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09/07/2013 - Zero Hora, página 2
Mentiras, surrealismo e telefones celulares

10 de julho de 2013 | N° 17487
CÍNTIA MOSCOVICH

Mentiras, surrealismo e telefones celulares

Quando a mãe telefonou avisando que o Mercado Público estava incendiando, corri a ligar a tevê. Os bombeiros tinham chegado fazia pouco e logo se ficou sabendo que a situação não era muito boa: a repórter da Rádio Gaúcha Maria Eduarda Fortuna tinha emprestado seu celular a um bombeiro que precisava pedir reforços para a central de emergência (sim, aquela do número 193).

Ao mesmo tempo em que o prefeito Fortunati dizia que os hidrantes estavam funcionando, ouviam-se através dos microfones abertos dos repórteres gritos que suplicavam por água. No Facebook, pipocaram imagens de pessoas tentando combater o fogo com o esguicho das mangueiras furadas. Alguém se lembrou de pedir uma planta baixa do Mercado, coisa que nem se sabia onde e se existia. Lamentava-se a falta de escadas Magirus e de um número maior de soldados. Ninguém podia dizer se existia um PPCI ou sprinklers instalados. A sensação era a de que a tragédia de Santa Maria não tinha ensinado nada às autoridades.

Um dos episódios mais constrangedores (e reveladores) da triste noite foi mesmo a entrevista do secretário de Segurança do Estado à jornalista Sara Bodowsky. Quando Sara perguntou o que ele achava de um bombeiro ter precisado usar o celular de uma repórter, Airton Michels irritou-se e afirmou que aquilo nunca tinha acontecido. Disse mais: que aquela história era surrealista. E repetiu, impaciente, a palavra “surrealista” por umas quatro ou cinco ou seis vezes. Sara não baixou a crista e sustentou a informação, e a coisa teria ficado ainda mais áspera caso o assunto não tivesse se encerrado por ali mesmo.

Para quem acompanhava a entrevista, a impressão era que faltava senso de realidade ao secretário. Tivesse Michels a humildade de simplesmente admitir a precariedade visível através da transmissão da tevê e das imagens postadas nas redes sociais, ele teria tranquilizado mais sua gente. A postura de desacreditar a informação da repórter – como se aquilo fosse, digamos, mais uma “invenção da mídia” ou o equivalente em termos de devaneio persecutório –, isso, sim, foi absolutamente surreal.

O mau momento de Michels pode encontrar sua desculpa pelo nervosismo e pelo literal calor da hora. Mas torna evidente que os problemas continuarão se não forem combatidos com verdade, vontade e veemência. A falta de autocrítica, o despreparo para o peso do gesto honesto, a ausência de previsão, a mania de jogar tudo no colo de terceiros só faz colocar a vida dos cidadãos em risco – ainda mais que o Largo Glênio Peres será palco de sei lá quantos eventos da Fifa.

Dessa vez, tivemos muita sorte e a imprescindível e bela abnegação do Corpo de Bombeiros. Mas contar com a sorte na administração da coisa pública é a coisa mais surreal que existe. Milhões de vezes mais do que um celular emprestado.


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