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30/07/2014 - Zero Hora, Segundo Caderno
Começos e patrimônios

Cíntia Moscovich: Começos e patrimônios
Lendo "Patrimônio", romance de Philip Roth, concluí que, assim como há teóricos requisitos para ser escritor, também os haveria para ser bom leitor

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Uma vez, e disso me lembro com clareza, conversávamos sobre a idade mínima – se é que se pode assim dizer – em que alguém tem condições para ser escritor. A conversa se dava com meu orientador no mestrado, nosso Luiz Antonio de Assis Brasil, mestre de vários autores em atividade em todo o país com sua Oficina de Criação Literária na PUCRS, que já conta com 27 anos de existência ininterrupta.

Sem nos arvorarmos a donos da verdade, eu a aproveitar a oportunidade de convivência e de reflexão, aventamos que uma pessoa pode pretender a carreira da escrita numa idade em que já viveu o suficiente para ter lido pelo menos 30 grandes livros – com a correspondente aquisição linguística e a inquietação de mundo. Além da leitura, o candidato a autor teria, claro, que ter vivência rica o suficiente que lhe possibilitasse aqueles entendimentos agudos e repentinos, nos quais vida e leitura se conjugam e mutuamente se transcendem. E, conditio sine qua non, outras três coisas: humildade para ouvir seus pares, humildade para não temer dúvidas e humildade para evitar a autossuficiência. Concordamos com isso, o Assis e eu. Pelo menos ficamos em silêncio olhando para a tarde que corria mansa no campus da PUC.

Lendo Patrimônio, romance de Philip Roth, lembrei dessa conversa com o Assis e concluí que, assim como há teóricos requisitos para ser escritor, também os haveria para ser bom leitor – e o livro de Roth não é, pensei, para iniciantes. Trata-se de uma narrativa pungente, sólida, tensa, que narra o declínio físico até a morte de Herman Roth, pai do autor. Por evidentes e dispensáveis motivos editoriais apresentada como "história baseada em fatos reais", o livro tem um brilho impressionante, com cenas construídas nas minúcias, observações de ironia e crueza que são socos no estômago. Garanto que jamais se lerá algo tão tocante sobre a morte de um pai e sobre o entendimento de um legado.

(Mas, quem sabe, uma vez que estamos falando de começos de carreira, terreno de poucas certezas, talvez Patrimônio seja exatamente para autores iniciantes e leitores iniciantes, um daqueles livros que permanecem ressoando, excitam a vontade de ler mais, de saber mais e encontrar mais.)

SEGUNDO CADERNO

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