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14/12/2013 - Zero Hora, Caderno de Cultura, por Carlos André Moreira
Em entrevista, Cintia Moscovich fala sobre prêmio conquistado e novos projetos

o Duarte / Agencia RBS
Carlos André Moreira
carlos.moreira@zerohora.com.br
A porto-alegrense Cíntia Moscovich levou sete turbulentos anos para concluir seu livro de contos Essa Coisa Brilhante que é a Chuva, lançado em outubro de 2012. Entre a ideia, contemplada no edital 2006/2007 do Projeto Petrobras Cultural com uma bolsa de criação literária, e a publicação, Cíntia precisou pôr a vida em suspenso por dois anos para tratar de um câncer diagnosticado em 2008. Recuperada, a escritora recebeu avaliações positivas pelo livro finalmente concluido – a maior delas, o reconhecimento do Prêmio Portugal Telecom de Literatura, no qual Essa Coisa Brilhante que é a Chuva foi anunciado, no último dia 4, como vencedor na categoria "contos". Nesta entrevista, ela avalia o impacto da premiação e antecipa seu próximo projeto, um romance ainda em embrião.

Zero Hora – Você já disse que esse Essa Coisa Brilhante que é a Chuva marcou a sua volta à literatura após um período difícil que incluiu o diagnóstico de uma doença. Foi o livro com que você resgatou a sua literatura?

Cíntia Moscovich – Eu tinha que entregar essa obra ainda em 2010, que seria o prazo final de uma bolsa com a qual o projeto do livro foi contemplado pela Petrobras no primeiro edital que eles fizeram de criação literária. Eu estava escrevendo, tentando reunir os contos em uma unidade, quando recebi o diagnóstico de um câncer. E isso marcou para mim definitivamente, em uma coisa que eu nunca imaginei que essa doença pudesse fazer: ela comprometeu temporariamente minha capacidade de ler e de escrever. Eu não conseguia me concentrar. Durante o meu tratamento, cheguei a pensar em abandonar o livro, porque achava que essa capacidade não ia voltar. Eu me lembro de achar que as pessoas doentes conseguem produzir, escrever suas últimas palavras, etc., e eu não ia conseguir. Mas uma vez que passei por todo o tratamento, vi que teoricamente poderia seguir em frente, então decidi: vou voltar para a literatura. Literalmente empurrada, pelo compromisso de entregar o livro. E era uma escolha que eu havia feito muito tempo antes, a de fazer literatura. Eu me lembrava muito dos "escritores do não", de que fala o Enrique Vila-Matas em Bartleby & Companhia, e eu não queria ser um deles, minha vida inteira foi para escrever.

ZH – De alguma forma essa experiência mudou a configuração final do livro do que você havia planejado quando o concebeu?

Cíntia – Essencialmente acho que a doença não interferiu no formato do livro. Desde o começo, em 2007, eu me propus a escrever com um pouco mais de humor, fazer do humor uma coisa séria, que foi algo que eu havia descoberto recentemente com o Por que Sou Gorda, Mamãe?, que é um livro que me ensinou que eu podia me divertir escrevendo. A ideia dele era fazer troça, fazer humor, de fato. E com a doença eu não sabia o que ia acontecer. Muita gente me dizia que a experiência ia de algum modo me mudar. Não notei grandes mudanças, a única coisa que penso que essa circunstância influiu diretamente no livro foi a criação de uma personagem que tem um câncer. Porque o meu grande temor a partir da doença foi me apegar demais a esse tema, transformar minha literatura em um chororô ou escrever sobre câncer infinitamente, que é uma coisa que eu não queria. Mas uma personagem, uma doceira, eu não resisti: eu decidi que ela deveria ter uma doença e aquela doença tinha de mudar a vida dela. Na minha vida, no entanto, eu não vejo grandes mudanças a não ser aquelas que o tempo faria naturalmente.

ZH – E o que o prêmio representa neste momento?

Cíntia – O prêmio foi o maior susto que eu já tomei na minha vida. Eu não esperava. Eu fui indicada três vezes ao Portugal Telecom. E eu brincava com o Michel Laub que nós dois éramos sempre indicados e os outros que ganhavam. Desta vez, acho que foi uma das poucas vezes em que eu fui a uma cerimônia de entrega de prêmio sem o Michel comigo. E pensei: lá vou eu outra vez, mas desta vez o prêmio veio para mim. E as indicações, ou eventualmente ganhar um prêmio, para mim sempre significaram que o mundo está te dizendo: "olha, vai que está dando certo". Queira ou não, tu escreve para ser amado, e quer a aprovação dos outros. E um prêmio é uma aprovação em uma escala máxima. E o escritor é o profissional mais inseguro da face da Terra em relação ao que ele está produzindo.

ZH – O tema da relação de um autor com prêmios é sempre controverso, porque ninguém escreve para ganhar prêmios, mas a própria aceitação deles é feita com declarações estudadas, quase constrangidas.

Cíntia – Eu não acho que seja ruim ganhar prêmios, pelo contrário, acho muito bom. E este prêmio em particular. Eu já participei mais de uma vez do júri inicial do Portugal Telecom, em outros anos, então conheço todo o processo do prêmio, conheço a organizadora, a Selma Caetano, sei que ela é muito séria e que o prêmio é transparente. Por ter feito parte do júri desse prêmio em outras edições, tem um sabor especialíssimo para mim. E é um prêmio cujos primeiros curadores, há uma década, foram o Flávio Loureiro Chaves, aqui de Porto Alegre, e o Deonísio da Silva, pessoas que eu prezo. Eu acho prêmio bacana, mas também prêmio é um acidente. Não quer dizer que as pessoas que não ganharam o prêmio não escrevam bem. Naquele dia, naquela circunstância a conjunção de Mercúrio com Vênus, digamos, fez com que a Cíntia ganhasse, como poderia ser outra pessoa em outra circunstância.

ZH – Essa Coisa Brilhante que é a Chuva é um livro de contos que sucede a um romance, que por sua vez já vinha na sequência de uma coletânea de contos. Essa alternância da forma é um movimento consciente?

Cíntia - Nunca me dei conta disso. Eu escrevo porque eu gosto. Eu digo que o meu processo parece com um bicho que está pousado no meu ombro soprando coisas, e esse bicho, depois de escrever um romance, ficou me enchendo o saco para escrever contos. Eu estava louca para escrever contos. Como agora eu estou a fim da narrativa longa. Estou a fim de lidar com enredos paralelos, o que tem a ver com uma extensão narrativa maior.

ZH – Seu próximo projeto, então, é um romance?

Cíntia – Muito provavelmente. Tem um título provisório, Leite Negro, que é tirado de um poema do Paul Celan: "Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite, nós o bebemos ao meio-dia e de manhã". É uma coisa meio sórdida, meio mórbida. É um poema que vem me perseguindo muito, como também vem me perseguindo a parte final do Cidades Invisíveis, a parte do "inferno dos vivos". Eu conheci o inferno na intimidade, o da doença e o das pessoas. Talvez isso tenha me modificado um pouco, conhecer o que é a coisa árdua da vida. Isso talvez tenha me deixado mais inquieta, mais impaciente, mas me deixou mais cuidadosa com o que vou escrever. Depois da doença, o que tu comes é um milagre, e o que tu escreves é um milagre redobrado.

ZH – Seus livros trazem com muita recorrência o tema da família, da identidade judaica. É algo que estará presente no novo livro, também?

Cíntia – Acho que sim, mesmo que eu não queira. Eu tenho convicção plena de que quando escrevo de uma família judaica, estou falando de todas as famílias. Só nomeio e adjetivo porque é o que conheço mais de perto, tenho mais intimidade, mas não tenho como fugir disso, e nem quero. Tenho certeza de que todo mundo tem pai, tem mãe, e pouco importa se é mãe judia, italiana, árabe, todas cumpriram um papel de inferno necessário na vida dos outros. E como eu conheço o inferno judaico, metaforicamente falando, é sobre ele que falo. E vai ter uma história que é contada por um sobrevivente alemão, uma história de uma moça que escapa de um campo de concentração e vem para o Brasil, tem um filho aqui no Brasil e a mãe fica no campo e uma moça da Cruz Vermelha leva as fotos do neto para a avó. Eu quero contar essa história.

ZH – Essa Coisa Brilhante que é a Chuva. Por que a chuva? É o retrato de um brilho transitório?

Cíntia – Não sei. Eu estou sempre fazendo isso, até na fila do banco, pego um substantivo e tento juntar em um adjetivo, fico pensando, observando para ver o que sai. Não sei o que me atraiu naquele pronome demonstrativo, "essa"... Não sei te explicar. E muitos leitores já me perguntaram, mas eles gostam. Dá uma impressão boa. Tu não entende objetivamente o que é isso, mas subjetivamente dá uma impressão boa. Talvez seja a minha antiga paixão pela poesia, que nunca cheguei a concretizar com êxito Eu sempre fui uma poeta medíocre, muito ruim mesmo. Qualquer mérito que eu possa ter como prosadora, em igual proporção será a minha ruindade como poeta.

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